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Onde reside a solução?

Um mundo em que a transformação digital, que se iniciou na década de 90, já não é uma moda, mas sim um canal para o sucesso. Em que os tradicionais modelos de negócio estão em vias de extinção.

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Com mais de 1.500 propostas de alteração em discussão, e após longas horas de debates e votações, o Orçamento do Estado para 2021 foi aprovado. Podemos, finalmente, respirar de alívio. O bom senso reinou. Governar em duodécimos seria, certamente, o agravar de uma crise económica e social que já está instalada.

Entre taxas, incentivos e aumentos, foram muitas as medidas aprovadas. Umas ajustadas ao tempo de incerteza e risco que atravessamos. Outras trazendo para a ribalta o impacto ambiental das nossas ações diárias. E, entre estas últimas, e apenas a título de exemplo, encontra-se a aplicação de uma taxa de 30 cêntimos às embalagens descartáveis usadas, por exemplo, para entrega de refeições ao domicílio. Entendo e percebo, mas questiono. Serão medidas como estas a solução?

Passados nove meses de uma pandemia sem memória e com um fim ainda por escrever, não subsistem dúvidas de que a resiliência tem sido, é, e continuará a ser a “tábua de salvação” de muitas empresas e organizações. É com resiliência que, a cada dia, não só se reinventam, mas também alicerçam e edificam um “mundo novo”. Um mundo em que a transformação digital, que se iniciou na década de 90, já não é uma moda, mas sim um canal para o sucesso. Em que os tradicionais modelos de negócio estão em vias de extinção. E em que as Pessoas, ainda que um olhar mais superficial possa não vislumbrar, vão ter de assumir um papel relevante, eu diria mesmo, nunca antes detido.

Sim, escrevi Pessoas, e não pessoas. Quero com isto dizer, pessoas com competências. E não, não me refiro às tradicionais competências de natureza científica ou mesmo de caráter mais técnico. Essas, as instituições de ensino já estão a garantir. Bem sei que, e infelizmente, ainda não ao alcance todos e, por isso, é também um caminho que não podemos abandonar. Refiro-me, sim, a “soft skills” – desculpem-me o anglicismo – e que se traduzem, em larga medida, em competências sociais e humanas.

O mundo mudou. Já não restam dúvidas de que o incerto se sobrepõe às tantas certezas que julgávamos ter. É, por isso, urgente, pensar e agir, cada vez mais, com enfoque no “nós”, fugindo ao tradicional modelo centrado no “eu”. Esta pandemia é disso também uma prova. Sem a colaboração de toda a comunidade científica não estaríamos hoje a poucos passos duma vacina. Saber liderar e não, apenas e só, chefiar, porque o todo será sempre mais que a soma das partes. Promover a ética e a responsabilidade social. Valorizar as questões ambientais. Estes são apenas alguns exemplos dos muitos aspetos que nos transformam em Pessoas.

É certo que o Estado, enquanto agente regulador, desempenha um papel fundamental nesta tão necessária transformação. Todos sabemos, embora nem sempre o queiramos admitir, que são as medidas reguladoras que, em muitos casos, impulsionam a adoção de novas práticas e comportamentos. É também óbvio que as instituições de ensino assumem aqui um papel preponderante, enquanto agentes formadores. O velho modelo de ensino, centrado numa aprendizagem passiva, alimentada apenas por manuais, já está caduco. As empresas e as organizações, enquanto agentes económicos, são também atores principais. Mas nada disto inviabiliza o papel ativo que todos nós, enquanto cidadãos do mundo, devemos assumir. E aqui, volto ao meu ponto de partida.

Não podemos continuar a viver num mundo em que a solução está sempre na responsabilidade do outro. Temos de assumir, eu diria mesmo interiorizar, que todos, de forma coletiva, somos parte da solução. A riqueza da nossa existência tem de assentar, cada vez mais, na nossa capacidade de impactar, de forma construtiva e positiva, a sociedade em que estamos integrados. E, mais uma vez, a pandemia em que vivemos também isso nos veio ensinar. Enquanto persistirem comportamentos individuais, centrados no bem-estar pessoal, não eliminaremos a proliferação de cadeias de contaminação. E, atrás delas, para além das inúmeras perdas de vidas humanas, somam-se sucessivos estados de emergência, crescem os impactos económicos e aumenta o risco de colapso de alguns setores, como sejam o turismo e os transportes.

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