2019 foi um ano excelente para a bolsa. E o que esperar para 2020?
Como sugere Warren Buffett, devemos ter uma visão de longo prazo dos mercados e não olhar com muita frequência para as nossas carteiras.
2019 foi um ano excecional. Apesar do crescimento global desacelerar consideravelmente, as ações e as obrigações atingiram valores recorde. Mas agora que 2019 terminou, o que podemos esperar para 2020?
Há pelo menos uma previsão fácil para os próximos 12 meses que os analistas estão a fazer: os investidores vão ganhar menos. Mas estes ganhos menores não serão causados pelo facto de a economia estar a entrar em recessão, pelo menos, não em 2020. O facto é que as ações e as obrigações não têm muito espaço para crescer, depois do sucesso estelar de 2019. Os investimentos começaram, em 2019, num ponto muito baixo, depois dos receios de recessão que afetaram os mercados em dezembro de 2018. Mas, agora, as bolsas iniciam 2020 com valores muito próximos dos mais altos alguma vez atingidos.
As taxas de juros baixas devem manter os investidores dispostos a pagar rácios preço/rendibilidade relativamente altos. Uma resolução do conflito comercial entre os Estados Unidos e a China deve também ajudar a manter o mercado em alta. Mas como contrapeso, há muito nervosismo em torno do tema das eleições nos EUA. O Presidente Trump introduziu impostos mais baixos e regulamentação mais leve para as empresas, que os investidores consideram vitórias incontornáveis para os investimentos, mas os democratas podem reverter este ímpeto.
Os analistas anteveem que a bolsa vai retomar os 4 a 6% anuais, na próxima década. Claro que qualquer previsão do género é apenas uma suposição. Muitos, em Wall Street entraram em 2019 esperando apenas um modesto retorno, mas a 31 de dezembro, o S&P 500 fechou o seu melhor ano, desde 2013.
O problema com as previsões dos especialistas no mercado de valores não é que estas estejam erradas - o que acontece, muitas vezes. O problema reside no facto de os investidores prestarem atenção a estas previsões, e nelas basearem as suas decisões de investimento.
A história fornece-nos informação sobre o que esperar dos mercados num determinado ano. Se observarmos os resultados anuais do S&P 500 desde 1928, poderemos constatar que, em cerca de dois terços, o mercado esteve em alta, e que, no restante terço esteve em queda. Outra estatística interessante é a percentagem de anos em que o mercado teve um retorno positivo com relação a diferentes variáveis independentes:
70% quando o mercado esteve em baixa no ano anterior;
58% quando o mercado esteve em baixa mais de 10% do que no ano anterior;
65% quando o mercado esteve em alta no ano anterior.;
57 % quando o mercado esteve em alta nos dois anos anteriores;
66% quando o mercado esteve em alta, crescendo pelo menos 10% no ano anterior;
64% quando o mercado esteve em alta com crescimento de pelo menos 20% no ano anterior.
Destas estatísticas, podemos concluir que nenhum destes fatores parece ter alterado estas probabilidades. As boas notícias são que, em qualquer ano, podemos esperar que o mercado esteja em alta. As probabilidades são de dois em cada três, independentemente do que tenha acontecido no ano anterior. A má notícia é que existe a probabilidade de que um em cada três seja de queda. E isto é o máximo de precisão que conseguimos atingir nas previsões de mercado. Previsões mais específicas do que isto poderão não ser corretas e enganar os investidores.
Um estudo de 2017 da Universidade de Cornell e da Universidade de Califórnia Berkeley desenvolveu uma nova metodologia para avaliar e classificar analistas de mercado. Aplicaram a nova metodologia a 6.627 previsões feitas por 68 analistas. Descobriram, com este estudo, que de todas as previsões, apenas 48% estavam corretas (o que é ainda pior do que a probabilidade de acertar quando jogamos cara ou coroa). O estudo conclui ainda que alguns analistas fazem muito boas previsões, mas que o desempenho da maioria não está muito longe do domínio da pura sorte.
Sobre este ponto, Warren Buffett, o famoso investidor, filantropo e CEO da Berkshire Hathaway, disse: "Há muito tempo que sinto que o único valor destas previsões é o de fazer os videntes parecerem bons. Continuo a acreditar que as previsões de mercado a curto prazo são venenosas e devem ser mantidas fechadas num local seguro, longe das crianças e também dos adultos, que se comportam no mercado como crianças."
Como devemos, então, lidar com a incerteza de 2020? A resposta é simples e é a mesma para qualquer ano: temos de aprender a viver no desconforto da incerteza. A probabilidade é que o mercado esteja em alta, mas pode ser um ano de queda. Ninguém sabe ao certo.
Diante da incerteza, devemos criar portefólios "para todas as condições meteorológicas", que irão compartilhar o valor quando o mercado estiver em alta, mas também preservá-lo quando os mercados estiverem em baixa. Como sugere Warren Buffett, devemos ter uma visão de longo prazo dos mercados e não olhar com muita frequência para as nossas carteiras. Será melhor se gastarmos menos tempo a analisar as notícias do mercado (que são principalmente ruído), e mais tempo a ler livros sobre investimento (que são mais suscetíveis de conter sabedoria). Acima de tudo, devemos deixar de escutar as previsões dos especialistas.
Porto Business School
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