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Jorge Libano Monteiro 26 de Outubro de 2006 às 13:59

27 dólares para um Nobel

O Prémio Nobel da Paz de 2006 foi há dias atribuído a Muhammad Yunus e ao Banco Grameen, instituição que Yunus ajudou a fundar em 1976 e se tornou conhecida por ter conseguido retirar milhões de pessoas de situações de pobreza extrema ...

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O Prémio Nobel da Paz de 2006 foi há dias atribuído a Muhammad Yunus e ao Banco Grameen, instituição que Yunus ajudou a fundar em 1976 e se tornou conhecida por ter conseguido retirar milhões de pessoas de situações de pobreza extrema através da concessão de pequenos empréstimos, o chamado microcrédito, disponibilizados na maioria dos casos a mulheres.

Na justificação da atribuição deste prémio, a Academia sueca salientou que "a paz duradoura não pode ser atingida sem que grandes grupos da população encontrem formas de sair da pobreza", concluindo que o microcrédito desempenha um papel fundamental para atingir esse objectivo.

Como normalmente acontece com boa parte dos grandes projectos, também aqui tudo começou de uma forma extremamente simples: um grupo de pobres precisava de 27 dólares para iniciar um micronegócio, e Yunus decidiu adiantar essa verba mas pedindo o retorno do dinheiro. O êxito desse primeiro empréstimo foi a base e o ponto de partida para uma espiral de crescimento que hoje em dia envolve 6,6 milhões de pobres, a maioria mulheres, com empréstimos no valor médio de 200 dólares.

Enquanto alguns falam e teorizam anos a fio sobre a pobreza, Yunus passou à acção e foi direito ao âmago da questão. Foi ao encontro de pessoas concretas e das suas necessidades, com uma profunda confiança nessas pessoas e uma inabalável certeza de que todos os indivíduos na terra têm o potencial e o direito de viver uma vida decente. Yunus e o Banco Grameen mostraram que mesmo os mais pobres podem trabalhar para conseguir o seu próprio desenvolvimento se lhes forem dados os meios. Mais: evidenciaram que este é o melhor caminho para lutar, de forma sustentada, contra a pobreza.

A verdade é que a estratégia de Yunus encerra uma lição essencial para muitos daqueles que, entre nós, procuram combater a pobreza com subsídios e manifestações de ódio contra o êxito e os lucros de outros. E a lição fundamental é esta: a pobreza combate-se com a criação de riqueza, com o potenciar dos talentos individuais em prol da produtividade, nunca com teorias abstractas sobre a pobreza e os pobres no mundo.

Por outro lado, o trabalho de Yunus questiona profundamente muitas das práticas de responsabilidade social que vemos serem enunciadas pelas empresas, nomeadamente aquelas que não são baseadas no desenvolvimento dos mais pobres, mas apenas na projecção social e no impacto que essas suas acções sociais podem ter na motivação interna e no posicionamento da marca junto dos consumidores. Mas este prémio questiona, também, cada um de nós, preocupados com o bem comum e com as situações de pobreza, sobre qual deve ser o nosso papel na sociedade. Sobre qual é o sentido último do nosso trabalho.

Yunnus era um professor de economia numa conceituada universidade, mas percebeu que a sua missão seria muito mais útil no apoio directo às pessoas carenciadas. Por isso arriscou entrar por um imenso mundo novo. Quantos de nós não gostariam de fazer o mesmo, de deixar de lutar por quotas de mercado e passar a lutar pelo desenvolvimento dos mais pobres, pela concretização de empresas e projectos que possibilitassem a melhoria das condições de vida daqueles que mais precisam?

Uma opção mais acessível, mas também de grande utilidade, será a de estarmos atentos e interessados em perceber como é que as nossas empresas podem realmente ser mais empenhadas na promoção dos mais pobres, na promoção de uma sociedade diferente, percebendo como é que no dia-a-dia podem contribuir para a construção de um mundo mais justo.

Para Muhammad Yunus, a disponibilização de 27 dólares foi o começo de uma imensa cruzada contra a pobreza, uma arrebatadora caminhada a favor da dignidade de todos os homens, na certeza de que todos os homens têm direito a essa mesma dignidade.

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