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Jorge Libano Monteiro 23 de Novembro de 2006 às 13:59

Éticos à força

Fomos mais uma vez confrontados, na última semana, com um amplo conjunto de notícias, algumas delas "orientadas", e com um punhado de factos que apontam para uma alegada ausência de ética no mundo empresarial e dos negócios.

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Além dos factos típicos do mundo do futebol, nomeadamente os que envolvem transferências de jogadores, e das notícias sobre a dimensão da economia paralela, assistimos a um ataque cerrado à Banca, gerador de uma vaga de suspeitas sobre um sector de actividade central para Portugal.

Foi o próprio primeiro-ministro a deixar no ar suspeições várias, numa atitude encarada por muitos como uma tentativa de ganhar protagonismo político e de desviar as atenções de um orçamento difícil de digerir pelo eleitorado. Por isso mesmo, terá anunciado um conjunto de medidas que, por serem um decalque de outras já existentes, ou inviáveis na sua aplicação, pouco ou nada trazem de interessante e inovador ao tema.

Entretanto, o Banco Espírito Santo em Espanha foi alvo de uma "inaceitável" campanha mediática que acusava a instituição de alegada conivência com operações de branqueamento de capitais, embora, no final, segundo os dados conhecidos, tudo não terá passado de algumas dúvidas sobre pequenas contas sem grande significado (o que não limitou os estragos directos e indirectos sobre o bom nome do Banco).

Ainda sobre a Banca, circulou a notícia de más práticas no arredondamento dos juros e festejou-se a vitória de uma associação de defesa dos consumidores que conseguiu a alteração da lei e a correcção das práticas indevidas.

Este conjunto de acontecimentos soltos veio mostrar à evidência, uma vez mais, a importância da ética na boa governação das empresas e no seu sucesso. Nos dias de hoje, não basta estar centrado no negócio no sentido restrito, antes é essencial prestar a máxima atenção às questões éticas e ao seu impacto social. A Ética e a boa governação das empresas não são uma escolha, mas uma necessidade, devendo estar presentes em todas as decisões estratégicas.

Embora a adopção de comportamentos éticos se imponha cada vez mais pela força das circunstâncias e das evidências, seria por certo preferível que cada um de nós percebesse e assumisse a necessidade de desenvolver comportamentos éticos como uma forma de se realizar em termos pessoais e profissionais.

Por isso se saúda a introdução de cadeiras e programas de estudo desta área nas melhores licenciaturas e MBA de gestão, bem como a promoção de grupos de debate em torno da espiritualidade na gestão e o peso crescente que o carácter e os valores pessoais têm nas decisões de contratação. Por isso é também essencial a introdução de códigos de ética empresarial que expressem a cultura da empresa e explicitem normas de actuação.

De qualquer forma, importa ter presente que todo este esforço, embora possa minorar possíveis desvios, nunca conseguirá atingir o efeito desejado se cada pessoa, cada colaborador não assumir esses valores como seus, se não perceber a importância que a sua conduta e as suas decisões têm perante o seu próprio destino. Em suma, se não tiver a noção de que, tal como nas empresas excelentes, a excelência do seu projecto de vida passa pela fidelidade aos valores em que acredita, sob pena de perder o respeito por si próprio.

É por isso essencial apostar no carácter dos gestores, voltar a apostar nos valores como base da sociedade que queremos construir. É imprescindível lutar contra a ditadura do relativismo que nos querem impor, que não reconhece nada como definitivo e que deixa, como última medida, apenas o prazer.

A realidade vai provando às empresas e a cada um de nós que a defesa de valores e do carácter dos seus colaboradores é essencial para o seu êxito. Os gestores começam a perceber que a sua conduta ética e a fidelidade aos valores é essencial para o desenvolvimento da sua carreira. É pois chegado o momento de perceber que estas opções éticas se impõem pela sua própria força. E que têm de ser assumidas de peito aberto, mesmo contra critérios meramente economicistas e sem olhar aos resultados mais imediatos.

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