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Eduardo Cintra Torres eduardocintratorres@gmail.com
30 de Agosto de 2013 às 09:25

[525.] Slogans nos cartazes autárquicos, 2013

No conjunto, as candidaturas revelam nos slogans a essência da política que propõem: palavreado, frases ocas, vazias, quando não patetas. Escondem, mais do que revelam as suas intenções e interesses

A palavra slogan, na sua origem, refere-se a um grito de guerra. Resume o lema dum exército. É, pois, apropriado que seja um elemento fundamental da publicidade, guerra simbólica entre marcas à conquista da atenção dos consumidores. À propaganda política com slogans que enche avenidas e rotundas de Portugal em período eleitoral, costuma-se chamar "cartazes", mas com essa evidência criamos um eufemismo para não lhes chamarmos anúncios publicitários. 

As campanhas autárquicas costumam originar inúmeros horrores estéticos e verbais, pois a publicidade tem um carácter local e não recorre por isso a publicitários de grandes agências, com experiência nacional e internacional. Há que lhes dar esse desconto e aceitar uma certa ingenuidade. São genuínos, como retratos do chamado "país real". Acresce a dificuldade de escolher um slogan original e resumindo as características da candidatura.

Na actual campanha, diversos anúncios propõem que "todos" os munícipes estejam com a respectiva candidatura. Por exemplo: "Todos somo Fafe"; "Coura somos todos"; "Todos somos Cascais"; "Todos juntos pelo nosso concelho"; "Tudo e todos por Braga". Também há esta variante bloquista do "todos": "Em bloco por Almada". Este apelo à totalidade, além de atentar inutilmente contra a lógica eleitoral, nada quer dizer, pois a ideia-base da democracia é que haja candidaturas contrárias entre si (a palavra "partido" vem de "parte", precisamente porque em democracia não há um "todo"). Uma só candidatura recorre ao "todos" com algum sentido político: "Por todos". Quer dizer, enquanto as outras dizem que todos estão com a candidatura, esta diz que está por todos.

[525.] Slogans nos cartazes autárquicos, 2013

Outra banalidade nos cartazes é o uso da palavra "mais". As candidaturas, neste caso, recorrem ao vocábulo mais básico da publicidade comercial para dizerem algo absurdo: "Amadora mais", "Sintra pode mais" ou "Mais Setúbal" quer dizer, politicamente, o quê? Rigorosamente nada. Já "Dar mais vida a Tarouca" diz alguma coisa.

Nada é, de facto, o que a maioria dos slogans oferece aos eleitores. "Gaia na frente"? Na frente de quê? "Almada tem força" ou "Porto forte"? O que quer isto dizer? E "Trazer Almada de volta!"? Porquê, fugiu para a banda de lá? E "Queremos Lisboa!"? Alguém não quer?

As banalidades recorrem igualmente à promessa de amanhãs que cantam, típica de políticos e dirigentes do futebol: "Por um futuro melhor"; "O futuro depende de nós"; "Melhor futuro!". Outra das banalidades transversais à geografia e ao espectro político é esta "As pessoas contam..."; "Primeiro as pessoas" ou "As pessoas primeiro"; "As pessoas em primeiro lugar". Há também a variante pela negativa: "Ninguém ficará para trás!"

O surrealismo também tem lugar nos cartazes político-comerciais. Eis um slogan do BE: "Fazemos das Tripas Coração e do Coração Cidade". Ao lado, literalmente, um torso humano rasga o peito e mostra lá dentro uma cidade, um horror. Uma coligação PSD-CDS-MPT apresenta, não um, mas dois slogans surrealistas: "Em Lisboa com os dois pés", que recorre à metáfora corporal, e "Sentir Lisboa", que compõe uma metáfora emocional sem nada para sentir. Em Torres Vedras, o PNR garante "Orgulho saloio". Em Mafra, a CDU promete "passaporte da verdade", talvez para os mafrenses poderem emigrar. Uma candidatura oferece pura poesia com a adição de um simples sinal gráfico, um ponto entre duas palavras: o slogan não é "Juntos avançamos", mas um belo "Juntos. Avançamos." E o tal Tino de Rans sossega os eleitores gritando no cartaz "Somos povo!"

Noutros slogans, as candidaturas afirmam "acreditar", "bem-querer", ter "confiança". Algumas conseguem ter um módico de mensagem, apesar de vaga o suficiente para não se comprometerem: "Dedicação, dinamismo, solidariedade"; "Fazer Bem Servir Melhor"; "Conhecimento, trabalho e empenho!"; "A diferença necessária"; "Dar voz e lutar"; "Solidariedade e Competência". Nos anúncios que fui pescando na Internet, apenas encontrei um com uma promessa concreta, bem sublinhada com aspas, para se perceber que é uma afirmação do candidato a presidente autárquico: "Apoiar a criação de novas empresas".

No conjunto, as candidaturas revelam nos slogans a essência da política que propõem: palavreado, frases ocas, vazias, quando não patetas. Escondem, mais do que revelam as suas intenções e interesses. E, ao esconderem, enganam e revelam a pobreza das candidaturas. E são tantas.

eduardocintratorres@gmail.com

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