A Sorefame e o paraíso
No Éden dos economistas, as empresas passeiam-se, felizes e competitivas, num imenso jardim de oportunidades onde todos os truques, malvadezas e artificialismos estão vedados.
No Éden dos economistas, as empresas passeiam-se, felizes e competitivas, num imenso jardim de oportunidades onde todos os truques, malvadezas e artificialismos estão vedados.
Nesse paraíso, não há pátrias nem proteccionismos, não há subsídios, não há políticas nem sistemas de controlo. Só há mercado, o mercado puro e honrado que aprendemos a venerar nos manuais da teoria económica. Cá por baixo, no purgatório terreno, os tementes começam a descrer.
As regras de sã concorrência transformaram-se em regras de malsã conveniência. A lógica fria e imediatista das empresas afastou-as dos interesses das comunidades, enquanto as políticas governamentais ziguezagueiam entre o laissez-faire e o intervencionismo desajeitado.
Para a Sorefame, o paraíso deixou de existir.
Se a emoção também conta para a formulação de juízos racionais – como sustenta António Damásio –, então não podemos ignorar o sentimento de (previsível) perda de um velho e bom baluarte da indústria portuguesa.
A Sorefame não é uma empresa qualquer, tem uma história de competência pouco comum no nosso tecido económico. Num sistema de mercado verdadeiramente livre e despido de jogos de conveniências corporativas e nacionalistas, não precisaria de quaisquer protecções para sobreviver.
Tem atributos e experiência suficientes para competir num mercado aberto. Porém, o seu negócio está fortemente condicionado por decisões do poder político e pela (duvidosa) lógica de repartição internacional das unidades produtivas por parte dos grandes grupos transnacionais (na circunstância, a canadiana Bombardier, líder mundial no fabrico de material circulante). Quem tem mãos para este poker?
Na idade pré-global, a Sorefame foi um símbolo da engenharia portuguesa, prestigiada além-fronteiras e presente em inúmeros mercados de elevado grau de exigência. Com o decorrer dos anos, a empresa soube manter as suas competências distintivas, ultrapassar o período da desordem gonçalvista e modernizar, com ajudas do Estado, os seus processos produtivos.
Pelo caminho, ficou sem um dos seus braços, as construções hidráulicas, após ter sido adquirida, primeiro pela alemã ABB/AD Tranz e, posteriormente, integrada no grupo Bombardier por via de absorção. O resultado foi Portugal ter perdido, irreversivelmente e sem contrapartidas, uma valência industrial da maior relevância. Assim se compreende que a barragem do Alqueva (tal como as que se lhe seguirão) tenha sido construída por espanhóis.
Na verdade, o comportamento dos grandes grupos mundiais, sobretudo os ligados à construção de equipamentos pesados, tem menos de racional do que de equilíbrio de forças. As diferentes unidades produtivas de um mesmo grupo disputam encomendas entre si, pressionam os Governos e utilizam-nos como arma de pressão junto das sedes. As sedes, por seu turno, decidem em função das carteiras de negócios e do peso político-económico dos diferentes países.
Dificilmente a Sorefame poderia ser o fornecedor de carruagens em aço para as redes ferroviárias do Norte da Europa porque as fábricas da Bombardier, da Siemens e da Alstom instaladas nesses países também vivem no limiar da sobrevivência, fazendo-a depender do peso político das suas capitais e da criatividade governativa nos processos de adjudicação.
Foi este mesmo jogo de equilíbrios político-industriais que sempre privou a Sorefame de uma nova linha de produção em alumínio, o material mais procurado pelos operadores de redes de metropolitano e de ferrovias. À falta de certezas e de transparência no funcionamento dos mercados e das corporações, resta a aposta no aço, na qualidade da empresa, na experiência e no querer dos seus trabalhadores.
Não creio que algum Governo do mundo, dos Estados Unidos ao Japão, da Itália à Suécia, hesitasse sobre o que fazer para garantir a sobrevivência de uma empresa com o perfil e a história da Sorefame.
A receita, aliás, é bem conhecida – pressionar as sedes dos grupos económicos e antecipar ou acelerar os projectos de desenvolvimento das redes ferroviárias. Num momento em que se anuncia pomposamente o fim do estado de letargia dos caminhos-de-ferro, perante o desenvolvimento das redes de metro e das linhas ferroviárias suburbanas, não será possível encontrar um bom lugar geométrico entre o interesse público e a vida da Sorefame?
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