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Nafeez Mosaddeq Ahmed
03 de Março de 2011 às 11:45

A tripla crise do mundo árabe

A necessidade e as desigualdades em termos económicos, bem como a repressão política, incitaram as revoluções egípcia e tunisina.

Naturalmente, é de esperar que os novos governos destes países, e outros líderes árabes, atendam melhor às reivindicações dos seus povos. Mas a simples mudança de governo não significa o fim dos problemas económicos nestes países. Na verdade, os efeitos combinados do crescimento demográfico, das alterações climáticas e do esgotamento da energia estão a abrir caminho para uma tripla crise ameaçadora.

A região representa 6,3% da população mundial, mas apenas 1,4% da sua água doce é renovável. Doze dos 15 países com maior escassez de água no mundo - Argélia, Líbia, Tunísia, Jordânia, Qatar, Arábia Saudita, Iémen, Omã, Emirados Árabes Unidos, Kuweit, Bahrein, Israel e Palestina - estão nesta região, e em oito deles a água potável disponível não chega anualmente aos 250 metros cúbicos por pessoa. Além disso, três quartos da água potável disponível na região estão concentrados em apenas quatro países: Irão, Iraque, Síria e Turquia.

O consumo de água na região está fortemente associado à agricultura industrializada. Entre 1965 e 1997, o crescimento da população árabe estimulou o desenvolvimento agrícola, levando a uma duplicação dos terrenos de regadio. E a expansão demográfica nestes países deverá deteriorar drasticamente a sua difícil situação.

Apesar de as taxas de natalidade estarem a cair, um terço da população tem menos de 15 anos e um grande número de jovens mulheres atingirá brevemente a idade reprodutiva. O Ministério da Defesa britânico prevê que, até 2030, a população do Médio Oriente cresça 132%, e a da África subsahariana 81%, o que gerará uma "massa jovem" sem precedentes.

O Relatório de Avaliação do Sector de Água, do Banco Mundial, relativo aos países do Golfo e publicado em 2005, prevê que estas pressões demográficas possam reduzir para metade a disponibilidade de água potável, agravando o risco de um conflito entre os Estados. A luta pelo controlo dos recursos hídricos foi já um factor determinante no desencadear de tensões geopolíticas regionais, como por exemplo entre a Turquia e a Síria; entre a Jordânia, Israel e a Autoridade Palestiniana; entre o Egipto, Sudão e Etiópia; bem como entre a Arábia Saudita e os seus vizinhos, Qatar, Bahrein e Jordânia.

A redução para metade da disponibilidade do abastecimento de água pode transformar estas tensões em hostilidades abertas. De facto, ao passo que o crescimento económico, de par com a crescente urbanização e um maior rendimento "per capita", resultaram num aumento da procura de água potável, os subsequentes movimentos populacionais estão agora a exacerbar as tensões étnicas locais.

Em inícios de 2015, o típico cidadão árabe será obrigado a sobreviver com menos de 500 metros cúbicos de água por ano, um nível definido como forte escassez de água. As alterações nos padrões de precipitação irão certamente afectar as culturas, particularmente a do arroz. Um cenário normal para as alterações climáticas sugere que a temperatura média global pode subir quatro graus Celsius até meados do século. Isso devastaria a agricultura no Médio Oriente e Norte da África, onde o rendimento das culturas cairia entre 15% e 35%, dependendo da força da fertilização carbónica.

O custo, a nível mundial, de infra-estruturas capazes de responder à intensificação da crise da água poderia representar biliões de dólares, e o seu próprio desenvolvimento levaria a um forte consumo de energia. Desta forma, uma nova infra-estrutura apenas iria atenuar o impacto da escassez nos países mais ricos.

O esgotamento da energia proveniente dos hidrocarbonetos irá complicar ainda mais as coisas. No seu Panorama Mundial para a Energia em 2010, a Agência Internacional de Energia (AIE) referiu que a produção de petróleo convencional, a nível mundial, terá provavelmente atingido o pico em 2006, estando agora em declínio. Esta conclusão é consistente com os últimos dados de produção, que revelam que a produção mundial de petróleo tem oscilado, mas que tem vindo a diminuir gradualmente desde 2005. No entanto, a AIE sublinhou também que esta queda será compensada por uma maior exploração das reservas de petróleo e gás não convencionais, embora a preços bem mais elevados, devido aos maiores custos ambientais e de extracção.

A má notícia é que o optimismo da AIE sobre as fontes não convencionais pode ser infundado. Os seis países com maior produção de petróleo no Médio Oriente têm, oficialmente, cerca de 740 mil milhões de barris de reservas comprovadas de petróleo. Mas Euan Mearns, geólogo britânico da Universidade de Aberdeen, observou que, de acordo com dados publicados, o volume mais provável dessas reservas será de apenas cerca de 350 mil milhões de barris. E o ex-conselheiro científico principal do governo do Reino Unido, David King, concluiu, num estudo sobre política energética, que as reservas oficiais de petróleo a nível global foram sobrestimadas em um terço, o que implica que estamos à beira de um significativo "ponto de viragem" na produção de petróleo.

Tudo isto significa não só que a era do petróleo barato acabou, mas também que, na próxima década, os principais países produtores de petróleo terão que lidar com limitações geológicas bastante dispendiosas. Se for este o caso, então em 2020 - e talvez antes de 2015 - a contribuição do petróleo do Médio Oriente para o consumo mundial de energia poderá tornar-se insignificante. Isso significaria uma perda catastrófica de receitas estatais para os actuais países árabes produtores de petróleo, o que os deixaria extremamente vulneráveis aos impactos conjugados da escassez de água, do rápido crescimento demográfico, das alterações climáticas e da redução das colheitas.

Este cenário mais cinzento não é inevitável, mas há apenas uma pequena janela de oportunidade para que as políticas a tomar possam resolver a situação. Relançar os esforços de conservação, gestão e distribuição poderia reduzir o consumo de água e aumentar a eficiência, mas seria necessário que estas medidas fossem tomadas de par com reformas radicais para acelerar a transição da dependência do petróleo para uma infra-estrutura de energias renováveis livres de carbono.

Os investimentos concertados em saúde, educação e direitos dos cidadãos, especialmente das mulheres, são as principais ferramentas para desacelerar o crescimento populacional na região e diversificar as suas economias. Torna-se cada vez mais claro que os governos árabes que não conseguirem implementar urgentemente tais medidas não serão capazes de sobreviver.

Nafeez Mosaddeq Ahmed é director executivo do Institute for Policy Research & Development, em Londres, e autor de "A User's Guide to the Crisis of Civilization: And How to Save it".

© Project Syndicate, 2010.

www.project-syndicate.org

Tradução: Carla Pedro

© Project Syndicate, 2010.

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