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Frederico Bastião
31 de Outubro de 2008 às 13:00

As aulas de natação de Sérgio Godinho

Estava eu a ler o jornal quando dei de caras com uma notícia que dizia que "José Mário Branco incita público a mudar de vida". Fiquei admirado, mas bastou-me uma leitura rápida para ver do que se tratava: os lisboetas vão poder assistir ao Mudar de Vida, que os portistas viram no ano passado. Não pude deixar de pensar o quanto o nosso José Mário Branco tem de profeta, pois trata-se de uma composição estreada numa altura 2007...

Não pude deixar de pensar o quanto o nosso José Mário Branco tem de profeta, pois trata-se de uma composição estreada numa altura – 2007 – em que os portugueses e todo o Mundo desenvolvido deveriam estar a mudar de vida, tal era a confusão que tínhamos pela frente.

Vivemos uma época atribulada. Num dia descobrimos que as nossas poupanças valem metade do que valiam na véspera. Se equacionávamos a compra de uma casa, dois dias depois temos o país em saldo – isto é, o País em saldo e não saldos no País, o que é uma coisa diferente. Que o digam os islandeses, os ucranianos e os húngaros, sem falar noutros em vias de se juntarem a esta lista. A implicação de tudo isto é clara: desemprego a avançar aos milhares ou às dezenas de milhar, nos Estados Unidos e na Europa, mas também na China, que vai no terceiro corte de taxa de juro (esse vício burguês) em três semanas, para ver se não entra em recessão. A Europa, qual urso pardo velho e pachorrento, prepara-se para hibernar por mais uma "recessãozita", com a França a Alemanha, a Espanha e agora o Reino Unido a estarem ou caminharem para o vermelho. Depois destes, é o resto da Europa que para aí vai, arrastado. Para voltar à música de intervenção, isto faz-nos lembrar o nosso Sérgio Godinho, que nos aconselhava a aprender a nadar, que a maré se estaria a levantar.

Vamos ter mais uma crise económica? Sim, mas todos menos nós, que no nosso Orçamento do Estado estamos a prever quase um por cento – uma alarvice – de crescimento económico em 2009. Isto é obra do nosso menino de ouro, só que não é de ouro fino como o do Zeca, pois já ninguém por cá acredita que se o temporal não amaina, já nem as gaivotas vamos ter em terra, que voaram para outras paragens. Ou seja, não basta fazer como dizia o outro, que aconselhava que se a crise nos bate à porta, o melhor é não abrir.

Mas, perguntar-se-ão então os meus queridos leitores, a crise vai ou não vai acabar amanhã, ou ainda vamos apertar mais o cinto? O meu colega e amigo suíço Gémal Ouvântre, especialista como eu em Teoria Económica das Crises, conta-nos no seu livro "Solving the Crisis: I Know How, I Only Don’t Know When" que uma crise como a que atravessamos passa por três fases.

A primeira fase é a do alerta vermelho-vivo. A economia ainda está viva, embora doente. A doença é infecciosa ou tóxica e começa por atingir a base do sistema económico, a banca, enfraquecendo rapidamente os outros sectores. As bolsas tremem, o que assusta finalmente os consumidores, que ficam mais pobres e ao mesmo tempo têm maiores dificuldades de financiamento. O Governo nacionaliza os bancos e assim nacionaliza o problema. O sinal político da última etapa desta fase é que o Governo diz o que acha, e a oposição diz uma coisa diferente, embora ninguém perceba a diferença entre o que diz o Governo e o que diz a oposição. Os comentadores políticos das televisões fazem viagens de estudo a Delfos e especula-se que o próximo presidente se chamará Sebastião.

A segunda fase é a fase laranja-amarga. O problema, pela crise de financiamento e pelo aumento do custo do capital, atinge as empresas, que começam a ter problemas e a falir, em número considerável. O aumento do desemprego força o Governo a tomar uma medida extrema: nacionaliza as empresas porque já nenhum privado as quer, nem os donos. As televisões têm um aumento da procura – diminuem as assinaturas de TV por cabo, mas aumenta a audiência às estações normais pois as pessoas preferem cortar nos jantares fora, uma vez que a televisão é ainda um divertimento barato. O Governo diz qualquer coisa, porque é obrigado a ter uma posição; a Oposição já não diz nada, porque não sabe o que há-de dizer.

Finalmente, nos casos extremos temos a fase azul-maré alta. As nacionalizações não deram certo e então o povo toma uma medida radical: privatiza o Estado, único sítio – além das estações de televisão – onde ainda há dinheiro. Entretanto, o Governo nacionaliza as televisões, e os políticos passam a ser os novos locutores e comentadores. Isto até por uma razão provada em crises anteriores, como a de 2000-2001: produtoras televisivas reagem à crise económica, segundo o Hollywood Reporter, aumentando os episódios das séries já em emissão, o que lhes permite evitar novas produções e os custos associados em promoção. O resultado é que até as más séries televisivas sobrevivem.

E aqui temos a grande conclusão do meu amigo Gémal: os governos são como as séries televisivas – em épocas de crise duram mais uns episódios.

Frederico Bastião é Professor de Teoria Económica das Crises na Escola de Altos Estudos das Penhas Douradas. Quando perguntámos a Frederico o que ele acha da recomendação de José Mário Branco para mudarmos de vida, Frederico respondeu: "Acho que devemos fazer o que nos manda o José Mário Branco, porque a situação está preta."

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