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Vicente Pereira
25 de Setembro de 2007 às 13:59

As razões da crise financeira estão na disseminação de crédito estruturado contaminado, mais que no subprime americano

A crise financeira iniciada no princípio do ano e agravada recentemente tem sido associada ao designado crédito “subprime” americano.

Segundo a ideia divulgada, a crise surgiu porque os bancos emprestaram dinheiro a famílias de baixos rendimentos, com base na hipoteca das casas, sem ter em conta as suas capacidades de pagamento. Com a subida das taxas de juro, os devedores entraram em incumprimento. Pois é, mas quando os bancos entraram neste negócio conheciam o risco e, por isso, cobraram spreads elevados realizando elevadas taxas de lucro.

Com a subida das taxas de juro, o valor das casas caiu. Aqui começa o problema, os bancos registaram o seu crédito hipotecário a valores que agora caíram significativamente e como venderam esses créditos no mercado mundial, o seu valor é agora menor, provocando perdas nos detentores dos títulos. Neste jogo, os perdedores são os detentores dos produtos financeiros onde os bancos embrulharam o crédito hipotecário. Quem iniciou o processo conhecia o risco, mas depois de bem embrulhado, com notação de “rating” elevada, os compradores deixaram de conhecer o verdadeiro risco.

Os verdadeiros perdedores podem mesmo ser as famílias que aplicaram poupanças em produtos financeiros cujo valor agora caiu. Certamente não serão os mesmos que encaixaram os elevados ganhos quando o processo estava em ascensão.

Deste ponto de vista, a crise não é devida aos parcos rendimentos das famílias que quiseram ter habitação mas sim aos agentes especuladores financeiros e imobiliários (muitas vezes a mesma entidade) que escamotearam as contas e ampliaram, quanto puderam, os ganhos, dispersando pelo mundo créditos especulativos.

Poderíamos ainda dizer que quem compra títulos sabe que corre riscos e pronto, agora realiza as perdas e a coisa fica por aqui. Mas não, a crise no sistema financeiro desencadeia efeitos diversos que alastram a toda a economia. Desde logo no próprio sistema financeiro instala-se um processo de desconfiança, levando a queimar aqueles que ficaram com os produtos na mão. Depois os mais fortes deitam-lhe a mão na expectativa de, mais tarde, ganharem com aquilo que agora compram barato. É interessante que as acções de vários bancos têm caído sem que se saiba qual a sua exposição a este tipo de crédito. Porque as autoridades monetárias permitem este sigilo? Quem protegem com esta atitude? Ou também estão às escuras como os próprios agentes envolvidos? Entretanto, os bancos aproveitam e aumentam os spreads de forma generalizada como se todos aqueles que recorrem ao crédito estivessem contaminados pelo risco que eles próprios disseminaram. Desta forma, toda a economia vê o custo do dinheiro aumentar o que tem como consequência o abrandamento do investimento e do crescimento económico.

Neste quadro, que sentido faz manter as taxas de juro elevadas e até sob pressão de subida, acompanhadas de forte oferta de liquidez?

A subida das taxas de juro nos últimos dois anos não travou a especulação imobiliária nem a pulverização mundial de produtos financeiros contaminados. Por outro lado, está por demonstrar que a situação de desconfiança que se vive no sistema financeiro mundial seja explicada exclusivamente pelo problema do “subprime” americano. As autoridades monetárias têm o problema quantificado? A avaliar pelos montantes de liquidez que os bancos centrais injectaram no mercado, parece que a questão será mais vasta.

Isto pode indiciar que é necessário adoptar outras medidas. Assim pergunta-se: Como é possível aos bancos emitirem títulos contaminados com elevado “rating”? Que mecanismos têm as autoridades monetárias para detectar este tipo de situações? Alguma agência de “rating” viu o seu nome invocado, com responsabilidade no que está a acontecer? Sim, porque quando os créditos foram colocados o “rating” certamente não era adequado ao risco. Claro que entretanto as agências já fizeram revisão ao “rating”, mas agora já a contaminação se operou. Numa espécie de jogo, agora digo que é bom e tu vendes, depois digo que é mau e os que compraram perdem (os informados saem a tempo). Só que a dimensão do problema gera um problema novo, a desconfiança em todo o sistema. O prémio Nobel da economia em 2006, Edmund Phelps, recomenda que as agências de “rating” adoptem outros critérios para avaliar o risco que não só as taxas históricas de incumprimento. Segundo ele, deveriam adoptar critérios de preço de novos activos, como os “subprime”, que são negociados à escala global.

Outro aspecto interessante é que se fala pouco da crise nos bancos americanos. Alguns fundos faliram e pouco mais. Mas então não foi lá que surgiu o problema? Tudo indica que eles terão vendido gato por lebre ao resto do mundo. Segundo Gustavo Franco, ex-governador do BC do Brasil, o crédito “subprime” teve um aumento de incumprimento de 12% para 14% o que apenas irá obrigar a um reforço de provisões. Mas, dois pontos percentuais de incumprimento originam uma crise tão volumosa de tão vasto âmbito como esta? Terá havido uma conjura de bancos e agências de “rating” americanos para que o resto do mundo pague a sua recuperação?

Para os grandes bancos, que podem manter registado nos seus activos o valor nominal do crédito, até será uma oportunidade comprar títulos abaixo do seu valor facial.

Que ameaças esta crise traz para a economia portuguesa?

Se considerarmos que esta crise tem como pano de fundo a dinamização de economias, com baixas produtividades, pelo mercado imobiliário, então os riscos podem ser grandes. Quer porque a nossa economia mantém fracas taxas de crescimento e de produtividade, e continua a programar o crescimento com base no investimento em obras públicas quer porque as economias dos nossos clientes, nomeadamente a espanhola, também têm o sector do imobiliário muito inflacionado. Se associarmos a subida do custo do dinheiro, a ameaça é real dado que, no nosso caso, a taxa de juro é muito restritiva para o crescimento e inflação que temos.

Os bancos centrais certamente terão de adoptar medidas que visem maior transparência da informação. Os agentes económicos em geral deverão estar mais atentos quer na colocação das suas poupanças quer na negociação dos seus empréstimos, discutindo os spreads, em função do seu risco e contrariando a concertação generalizada para a sua subida.

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