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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 02 de Setembro de 2009 às 11:26

Como dar cabo da TAP numa única lição

Qualquer negociador sabe que o grande problema de ceder a uma chantagem é o de que outros chantagistas aparecerão depois. A TAP cedeu numa ameaça de greve - já tem outra à perna.

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Qualquer negociador sabe que o grande problema de ceder a uma chantagem é o de que outros chantagistas aparecerão depois. A TAP cedeu numa ameaça de greve - já tem outra à perna.

Os sindicatos da TAP não são terroristas e greve não é chantagem, mas ao dar garantias aos sindicatos da Groundforce, numa cedência que ainda por cima capitalizou publicamente, o Governo deu o tiro de partida para que os outros sindicatos assomem, quebrando o gelo finíssimo de estabilidade em que a empresa vive há anos.

A primeira ameaça à paz social foi feita em Dezembro, quando o pessoal de cabine avançou com uma greve, que foi desconvocada após uma intervenção discreta de Mário Lino, que prometeu negociar não se sabe com que desfecho. Depois, a tensão entre os pilotos da Portugália, que não aceitam ter piores condições que os seus colegas da TAP, foi crescendo, até à greve de Agosto. Veio agora o pessoal da Groundforce ameaçar com nova greve, que o secretário de Estado Paulo Campos desfez com garantias de que não haverá despedimentos.

Segue-se o sindicato dos pilotos da TAP, que marcou uma Assembleia Geral com um único ponto: analisar o recurso à greve.

A história de sucesso da equipa de gestão de Fernando Pinto na TAP está escrita, mas pelos vistos há quem não a tenha lido. A ingerência política do Ministério das Obras Públicas na vida da empresa prejudica-a. E este Ministério, que até lá infiltrou administradores sem currículo, faz pazes de curto prazo que abrem longas guerras.

O filme é bizarro: num dia, os trabalhadores da Groundforce exigem; noutro dia, a administração da empresa diz "não"; ao terceiro dia, o Governo diz "sim"; e ao quarto dia, a Parpública, que formalmente detém as acções da TAP, diz que a situação financeira da empresa "é crítica". Quem manda nesta empresa? Os chefes, os patrões ou os testas-de-ferro? A administração, o accionista ou a sociedade-veículo? Pelos vistos, nenhum: mandam os trabalhadores.

O sindicato dos pilotos era, no passado, o que tinha mais força na TAP. Foi o mais difícil de chegar a acordo. Por que admite romper esse acordo de vários anos precisamente agora, quando a empresa está em risco? Porque é agora que ela está vulnerável, porque é agora que há eleições, porque é agora que o Governo abre as portas das cedências. Só isso permite ao sindicato dizer aquilo em que não é possível que acredite: que a "crise externa não é pretexto válido para conter as exigências dos pilotos da TAP, porque também afectam outras empresas".
E que tal a crise interna? É precisamente agora, em Setembro de 2009, que querem ganhar o mesmo que os pilotos da SATA e (sic) da Czech Airlines?

Para quem não percebeu, a TAP está em falência técnica. Ou recebe injecções de capital, público ou privado, ou pode mesmo passar a ser "Take Another Plane" que este já não voa. Para o evitar, a tutela tem de mudar o acrónimo para "Take Another Plan": mudem de plano.


PS: Um dia, Nicolau Santos escreveu no "Expresso" que se devia erguer uma estátua a Fernando Pinto, por ter feito a viragem de uma TAP até aí inviável. Era uma metáfora, mas se não fosse não haveria mal: os problemas actuais da TAP não apagam o que foi feito. Já a Manuel Pinho não foi preciso pedir nada: a cadeira em que fez cornos ainda está quente e já deram o seu nome a uma rua. Este País não tem noção do ridículo.


Ler também "O que fazer à TAP?", editorial de 16 de Abril

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