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O limbo turco

Não conheci turcos mais gordos e felizes do que os gatos de Istambul. A cidade que recebeu o nome de Bizâncio e Constantinopla, capital dos impérios romano e otomano, é hoje uma república de gatos.

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Durante uma viagem de quatro dias, de 6 a 9 de Novembro, não descobri se o animal merece alguma especial devoção religiosa, mas passeia-se no interior da Mesquita de Santa Sofia sem que alguém assuma a suprema ousadia de o enxotar. São gordos e felizes estes gatos, como escrevi, saqueando os restos de comida dos sacos de lixos empilhados ao relento da noite nas esquinas de Istambul. A cidade deixou de distribuir caixotes de lixo, depois de serem utilizados em atentados terroristas.

Os pombos de Lisboa não teriam vida fácil em Istambul: os pombos turcos apenas se vislumbram bem alto nos céus da capital, longe dos passeios e dos gatos. As diferenças entre as duas cidades e os dois países estão longe de terminar no reino animal, mas apontam-se algumas coincidências. Como os portugueses há mais de vinte anos, antes da adesão à Comunidade Económica Europeia em 1986, os turcos querem ser aceites no clube da União Europeia (UE). Com o estatuto de país candidato desde 1999, sente-se a frustração pelo adiamento de uma promessa de Bruxelas. Trata-se, porém, de um sentimento ambivalente. Na Fundação de Escritores e Jornalistas, o dirigente Erkam Aytav dizia que – "como cidadão europeu" – mantém sérias dúvidas sobre os benefícios para a UE e para a Turquia, ainda que seja um fervoroso apoiante da adesão enquanto "cidadão turco". Com uma população de mais de 75 milhões de habitantes, a Turquia é isto mesmo: um encontro de civilizações, ponte de ligação entre a Europa e a Ásia, o cristianismo e o mundo muçulmano, o passado e o futuro. Ninguém parece ter perdido a esperança, mas muitos dirigentes políticos desconfiam do que chamam "traição europeia".

É difícil encontrar uma posição definitiva sobre o assunto, sendo certo que Istambul perderá parte do seu encanto babilónico se tiver de submeter-se aos decretos e regulamentos de Bruxelas. Porém, manter o país de Atatürk nesta espécie de limbo europeu, entre o céu de Bruxelas e o inferno da ameaça fundamentalista, é muito perigoso e poderá ter consequências imprevisíveis. Para a Turquia e para o futuro da União Europeia.
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