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Paul Krugman: o valor incontornável da ciência económica

A atribuição do Nobel da economia de 2008 a Krugman é dos mais merecidos nos últimos anos. Embora não seja inocente escolher Krugman agora em plena crise financeira internacional parecendo querer legitimar uma certa análise da situação que nem é a área de especialidade do premiado a verdade é que a obra de Krugman na área do comércio internacional justifica esta distinção.

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Considerado o mais brilhante economista de esquerda, esta tem realçado as suas posições públicas, emitidas sobretudo em grandes meios de comunicação de massas, sobre matérias diferentes do comércio internacional ou da geografia económica.

Porém, a obra económica de Krugman é de um rigor e honestidade intelectuais notáveis, e em grande parte contraria as posições políticas mais populares do próprio autor.

O traço mais marcante de Krugman é o seguinte: participando num vasto movimento teórico que, no fim dos anos 70 e década de 80 do século XX, se propôs remediar as falhas da teoria tradicional do comércio internacional – e, em consequência, questionar a prescrição da liberdade de comércio – acompanhou de forma intensa o debate resultante foi capaz de reconhecer finalmente a superioridade do comércio livre e a incapacidade das novas teorias para fundar cientificamente a defesa do proteccionismo.

A chamada nova teoria do comércio internacional, introduziu nos modelos de comércio internacional as economias de escala e a diferenciação de produtos, o que permitiu tratar as situações de desvio da concorrência perfeita no mercado de produtos. O ponto de partida foi o célebre artigo de Krugman de 1979 sobre os rendimentos crescentes, a concorrência monopolística e comércio internacional. Nesse sentido, tratou-se de facto de uma inovação de monta. Porém, numa perspectiva global da ciência económica, trata-se de uma inovação menor, se nos recordarmos das verdadeiras revoluções que constituiriam os artigos de Piero Sraffa de 1926, sobre as implicações teóricas da existência de rendimentos crescentes sobre os modelos de concorrência perfeita, ou os livros de Edward Chamberlin de 1929, sobre a concorrência monopolística, e de Joan Robinson de 1931 sobre a concorrência imperfeita.

As consequências políticas da nova teoria do comércio internacional tornaram-se rapidamente claras: o livre comércio deixa de ser a solução natural, dando lugar agora a um proteccionismo capaz de suscitar e desenvolver economias de escala, pondo, assim, em dúvida as prescrições livre cambistas da teoria tradicional do comércio internacional. Nesse sentido, Krugman, bem como a generalidade dos economistas que contribuíram para o aperfeiçoamento dos modelos da nova teoria, aderiram entusiasticamente ao "novo proteccionismo". Este proteccionismo, na verdade é duplamente novo. É novo porque se pretende fundado na nova teoria do comércio internacional, suscitada pela existência de imperfeições nos mercados de produtos. É igualmente novo na medida em que se distingue do proteccionismo defendido por vários economistas, entre o fim da II Guerra e os anos 80 do século XX, para os países em vias de desenvolvimento e que tem como suporte teórico nos modelos com imperfeições nos mercados de factores.

Considerando a antiguidade dos contributos de Sraffa, Chamerlin e Robinson, chega a até a admirar que tenha sido necessário esperar 50 anos para dar este passo, que hoje nos parece tão simples e natural: alargar as acutilantes observações daqueles três economistas aos modelos simples de concorrência perfeita às situações de comércio internacional. Mas, de facto, foi necessário a criação de um ambiente que forçasse aquele simples passo; esse ambiente foi constituído pela formidável ascensão da economia japonesa que, tendo-se realizado sob a direcção estatal e com elevada protecção da sua indústria, levantou a possibilidade da eficácia do proteccionismo em países industrializados. De alguma forma a nova teoria do comércio pretende ser a justificação do modelo japonês de desenvolvimento a seguir à II Guerra.

A tentação para dar à nova perspectiva política – pomposamente chamada pelos seus defensores de política comercial estratégica – aparentemente implícita na nova teoria do comércio internacional uma validade universal foi extremamente forte. Também Krugaman não escapou e, num célebre artigo – "Is Free Trade Passé?" – numa revista científica de grande divulgação rendeu-se completamente ao novo proteccionismo.

O amadurecimento da nova teoria – e também do então jovem criador – bem como o estudo das consequências da política comercial estratégica foram suficientes para que a nova teoria não tivesse os efeitos destrutivos que se imaginou sobre a ideia de comércio livre. Os contributos mais gerais, fora do círculo restrito do comércio internacional, aportados pela teoria dos mercados contestáveis e da teoria da escolha pública tiveram aqui um papel relevante. Esta última, em particular, parece ter tido uma influência decisiva sobre Krugman na sua renúncia ao proteccionismo: as imperfeições do mercado são inegáveis e os modelos de concorrência imperfeita são incontornáveis, tal como o efeito de afastamento dos preços dos custos sociais, mas as políticas públicas para corrigir, através de uma política comercial dita estratégica, longe de melhorar vai agravar a situação. Tornou-se evidente, desde meados dos anos 90, quer por contributos teóricos quer empíricos, que permanecendo válidas as contribuições resultantes da introdução das imperfeições de mercado nos modelos de comércio internacional, os corolários políticos, que inicialmente se insinuaram, fracassaram completamente. Neste ponto, Krugman, como economista rigoroso, foi verdadeiramente consequente.

Numa artigo magistral de 1996 – "Ricardo’s dificult ideia" – como que a encerrar as ambiguidades da década de 80, elabora uma dos mais belos textos em defesa da teoria das vantagens comparativas e do comércio livre.

A questão que sobra é apenas esta: qual é a dificuldade que impede o autor de aplicar os mesmos princípios e clareza de raciocínio investidos na análise do comércio internacional às demais questões económicas sobre as quais conclui, frequente e inesperadamente, em contradição com o que deduziu para os temas da sua especialidade?

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