Karl Happe
Karl Happe 02 de julho de 2018 às 10:44

Pode o dólar dos EUA perder o estatuto de moeda de reserva?

Nos últimos anos, muitos não-americanos começaram a perceber o quão expostos estão à política protecionista dos EUA.
O que aconteceria se o mundo deixasse de depender do dólar americano? Há evidências crescentes de que, após anos de domínio, o dólar pode estar a perder o seu estatuto de moeda de reserva do mundo. Porém, embora possa ser doloroso para os Estados Unidos, um sistema de reservas mais equilibrado - mais dependente do euro, do renminbi ou do iene - provavelmente ajudaria a economia global.

Porque é que existem moedas de reserva?
Ao longo da história, os comerciantes e banqueiros internacionais usaram tipicamente a moeda de um país como padrão de troca. A libra esterlina britânica foi a moeda de escolha para o comércio internacional e a preservação do valor desde meados do século XIX até meados do século XX. Desde o início dos anos 1950 e até ao meio da década de 1970, a sua participação nas reservas monetárias entre os bancos centrais internacionais caiu de cerca de 60% para menos de 5%.

Com os EUA a dominarem a política internacional no pós-guerra, o dólar tornou-se a moeda seguinte de reserva do mundo. Isso trouxe aos EUA tanto benefícios económicos enormes como desvantagens estruturais significativas: (i) durante décadas, o dólar americano permaneceu relativamente forte em relação a outras moedas, já que os investidores fizeram subir o seu valor; (ii) fazer negócios internacionais foi fácil aos EUA, já que todas as principais "commodities" são efetivamente negociadas e liquidadas em dólares; (iii) do lado negativo, os EUA foram forçados a manter um déficit permanente em conta-corrente - neste caso, um enorme déficit comercial financiado pela venda de obrigações governamentais no exterior - para manter o seu estatuto de moeda de reserva; e (iv) ainda que esse déficit comercial tenha ajudado a que os cidadãos norte-americanos consumam mais do que produzem, também pressionou para baixo os salários nos EUA.

O declínio do dólar pode já ter começado
Nos últimos anos, contudo, muitos não-americanos começaram a perceber o quão expostos estão à atividade política protecionista dos Estados Unidos e que tem perturbado os mercados globais. Mas essa tendência de afastamento do dólar americano é anterior à eleição do Presidente Trump. As reservas dos bancos centrais detêm agora menos dólares do que em 2004.

O mundo estaria melhor sem o "King Dollar"?
Muitos observadores do mercado acreditam que seria melhor para a economia global ter um sistema de reservas internacionais mais equilibrado, que dependesse menos de uma única moeda. Mas o processo de chegar a esse ponto pode ser acidentado e ter implicações significativas tanto para as taxas de câmbio como para o custo do capital em diferentes economias.

Para os EUA, desistir do status de moeda de reserva pode ajudar o país a equilibrar as suas relações comerciais, mas provavelmente prejudica o valor do dólar e cria uma pressão inflacionista sobre os preços dos bens de consumo. Em última instância, a perda deste estatuto limita apenas novas quedas nos salários, havendo uma probabilidade grande de tornar muito mais pobres os consumidores norte-americanos.

Para outros países ou regiões - talvez a Zona Euro, a China ou o Japão -, o aumento do uso das suas moedas provavelmente tornaria as suas moedas mais fortes. Isso ajudaria a melhorar o respetivo poder de compra para "commodities" e bens comercializáveis e reduziria o custo de capital das suas indústrias domésticas. Essas economias podem, no entanto, igualmente sofrer maior disparidade no rendimento, uma vez que moedas mais fortes tornam a mão de obra não qualificada menos competitiva.

Geralmente, um país que possui a moeda de reserva do mundo sente mais os pontos positivos do que os negativos. Em resultado disso, se o dólar dos EUA perder o seu estatuto de reserva, os investidores devem antecipar (i) uma queda na taxa de câmbio do dólar; (ii) um efeito negativo nas taxas de juros dos EUA; e (iii) um desempenho potencialmente inferior para as ações e rendimento fixo dos EUA.

Em simultâneo, qualquer moeda que venha a substituir o dólar americano provavelmente transferirá os benefícios de custos menores de capital e maior poder aquisitivo para o seu país emissor. Ao mesmo tempo que uma mudança para o euro como moeda de reserva poderia dar à Zona Euro um crescimento relativo, um movimento em direção ao yuan ou ao iene provavelmente também ajudaria a China ou o Japão.

Talvez seja apenas uma questão de tempo até que o dólar siga o mesmo destino das moedas de reserva anteriores e que uma ou mais moedas destemidas surjam para ocupar o seu lugar. 


Este artigo foi redigido ao abrigo do novo acordo ortográfico.


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