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Benjamim Formigo 05 de Janeiro de 2007 às 13:59

Português, ó malmequer, em que terra foste semeado

Portugal visto a oito horas de voo é qualquer coisa absolutamente inexplicável. Portugal e os portugueses. Em 1972, Raul Solnado, na revista "Prá Frente Lisboa", ...

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Em 1972, Raul Solnado, na revista "Prá Frente Lisboa", retratava em aberto desafio à censura, a situação dos portugueses com uma canção que muitos já nem se recordam e a maioria nem sequer conhece: "Português, ó malmequer/ em que terra foste semeado/ Português, ó malmequer/ Cada vez andas mais desfolhado". No ano seguinte, o saudoso José Viana, na revista "Grande poeta é o Zé" (se a memória não me falha), vestia de anjinho cantando, também ele em aberto desafio à censura: "... e lá vamos todos em procissões/ pagar impostos e contribuições/ porque só anjinhos somos nove milhões".

Em 1972, o regime assumia-se com a polícia política, as prisões sem culpa formada, os tribunais plenários, a prisão por delito de opinião. Os últimos anos, diga-se em abono da verdade desde o final do último mandato de Cavaco Silva, e com uma curta excepção no período socialista de Guterres, o poder assumiu a arrogância do antigamente. Faça-se justiça a Cavaco não há notícia de perseguições por razões políticas, como não houve com António Guterres.

Se de Durão Barroso se podia ainda dizer que foi um "democrata, patriota e antifascista" dos que se lhe seguiram, que o Baptista-Bastos me perdoe mas tenho de lhe pedir emprestada a pergunta: onde é que eles estavam no 25 de Abril? Claro que a pergunta é extensiva à maioria dos oportunistas que ascenderam com Durão Barroso, como se aplica aos oportunistas que se foram escondendo pelos cantos do PS até descobrirem que o novo cacique do partido seria José Sócrates. E com Sócrates, a menos que como Eça escreveu se esconda "a nudez forte da verdade" sob "o manto diáfano da fantasia", tudo é muito simples: quem não é  a favor é contra. Tão simples que faria corar de vulgaridade M. De La Palisse. Se não é parece e como Salazar diria: "em política o que parece é!"

A democracia que nasceu da Constituição de Abril é um baluarte da defesa dos Direitos, Liberdades e Garantias. Mas a Lei não é cumprida por muitos dos que conseguiram dar a dentadinha na maçã do poder ou com ele convivem depois de passarem alegremente do PSD para o PS. Não se defende que um partido assalte o poder, o aparelho de Estado, ou a Administração Pública só porque ganhou as eleições. Dele exige-se porém que reponha a legalidade onde ela não existia e a mantenha. É isso que distingue um Estado de Direito da "lei da selva". Mas não foi isso que o PS fez. Aos vampiros dos outros deu guarida, e acrescentou alguns seus, com o pedido de desculpas aos muitos que pretendem exercer, e exercem honestamente as suas funções. Os trabalhadores calam-se porque querem comer. Os Tribunais foram literalmente reformados perante o desespero dos Juízes.

Ana Gomes, controversa deputada europeia, foi vilipendiada por um ministro que, ao contrário da embaixadora, ninguém sabe onde estava no 25 de Abril e pretende esconder o Sol com a peneira. Houve aviões da CIA ou fretados por esta a passar por Portugal. Há registos. Assumam!, como Cavaco Silva soube assumir a tentativa de passagem de voos da operação Irão/"contras".

Em nome do consumidor, ou melhor, alegadamente em favor do consumidor, diz-se que com a OPA da Sonae.com sobre a PT o consumidor "ficará mais bem servido", nem sequer há o recato de dizer "poderá ficar mais bem servido porque se irão impor regras que aumentem a concorrência", poderia ser uma falácia mas haveria respeito pela inteligência do consumidor/eleitor/contribuinte, ou "El Pagador". Defende-se a OPA do Millenium sobre o BPI com argumentos semelhantes e desenham-se os mesmos para a OPA sobre a "Média Capital".

Os Centros de Saúde são depredados de pessoal em favor das Unidades de Saúde Familiar para que todos tenham médico de família. Mas o sistema era assim tão mau que até estava em 12º lugar no "ranking" mundial? Tudo em nome dos portugueses. Diminuem-se as comparticipações nos medicamentos, esse pelo menos em nome do défice,; mas, ao menos, houve coragem de enfrentar "lobbies" estabelecidos. Reestrutura-se a Administração Pública e criam-se os supranumerários, uma espécie de Depósito Geral de Adidos. E dali vão para onde? O desemprego não vai subir? E com essa subida não haverá mais despesa da Segurança Social e menos consumo? E menos lucros nas pequenas empresas? E menos impostos das pequenas empresas?

À distância, o PC e o BE até parece terem razão. Por que motivo não se aumentam os impostos à Banca? Não digam que é para evitar que as taxas de juros que os portugueses pagam subam. As taxas de juro sobem antes do BCE, tal como os combustíveis sobem antes da entrega do petróleo. Descer, só devagar, devagarinho, como os carros do chora.

O Exército rosnou mas calou. Pudera, nem tem armamento nem os seus efectivos são superiores aos da PSP e da GNR, com mais homens e armas. A UE passou a ser uma garantia de segurança para o Governo. Os generais sempre foram conhecidos por não reagirem ao Governo. Nos últimos anos foram muitos os generais que pediram a passagem à reserva por causa de arbitrariedades; não foi só neste Governo. Os outros calam-se à espera da promoção para partirem para a reserva logo que for possível.

Mais de 30 anos depois do 25 de Abril Portugal está transformado numa ditadura benévola. Não há prisões políticas nem censura, mas há perseguições aos que desafiam o poder ou aos familiares dos que o fazem quando estes não são susceptíveis de perseguição. Não há censura, mas com jornalistas com contratos a prazo há autocensura.

As revistas já não têm a audiência que tinham e os portugueses já não estão semeados em terras de descobridores. É uma terra plena de anjinhos, harmoniosa, onde os malmequeres estão cada vez mais desfolhados. Até não têm em quem votar!

"Há para aí uns malmequeres/ Que andam a mudar de cor."

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