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António Mateus antoniomateus@hotmail.com 11 de Julho de 2006 às 13:59

Português sonha próximo «Mundial»

Gabriel comoveu-se até às lágrimas, quando me explicava a origem da sua inspiração para o «logo» do próximo «Mundial» de futebol, agendado para 2010 na África do Sul.

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«Gaby» de Abreu foi o autor da proposta de «design» escolhida pela FIFA entre as mais de 200 submetidas pelos candidatos pré-seleccionados.

O pai deste «designer» de 40 anos, anteriormente já premiado nos Estados Unidos e Europa, é filho de um madeirense que fez vida no comércio de vegetais na África do Sul.

«A minha queda para o ‘design’ começou quando o meu pai me pôs a trabalhar no ‘shop’ e eu comecei a pensar em formas de tornar os produtos mais atraentes. De chamar melhor a atenção dos clientes» – explica o Gabriel com o vocabulário de português continuamente a derrapar para o inglês.

O emblema que todos havemos de associar ao próximo «Mundial» foi revelado na Alemanha, pouco antes da final entre a Itália e a França, mas seria preciso esgravatar o apelido do seu autor («de Abreu») para se adivinhar mais um brilharete luso nos corredores do futebol.

«Eu também sofri e vivi com muito orgulho a prestação da nossa equipa neste Mundial» – sublinha na conversa telefónica que mantivémos, separados por milhares de quilómetros. «Fui à Alemanha na quarta-feira, convidado pela FIFA para apresentar o nosso ‘logo’, mas há muito que lá estava, em espírito, a apoiar a selecção portuguesa.»

Que tem isso de especial? – Perguntarão os mais cínicos. Realmente «nada», para lá do facto de estarmos a falar de um homem que já nasceu na África do Sul, vingou fora da nossa comunidade local e mal fala a língua de Camões, mas quer, apesar de tudo, colocar os dois filhos numa escola portuguesa em Joanesburgo.

Gabriel comoveu-se, quando lhe perguntei se se sentia português, quando me respondeu que o pai lhe morreu em vésperas de ir para a Alemanha, participar na cerimónia oficial da FIFA mas a família decidiu que, mesmo assim, ele, o filho, deveria misturar as lágrimas da tristeza com as da alegria.

«Disseram-me que isso seria o que o meu pai gostaria que eu fizesse e foi assim...» e a voz sumiu-se-lhe como se as palavras mais não fossem necessárias. Porque o não eram de todo.

Gabriel há muito que flutua em talentos múltiplos nas esferas do desporto, em geral, e do futebol, em particular. Num país onde esta modalidade é a menina-dos-olhos da população negra, enquanto os brancos mais se viram para o rugby e o criquete.

Heranças do colonialismo britânico.

Gabriel chegou mesmo a usar a braçadeira de capitão da selecção provincial de futebol da agora «Gauteng». No seu tempo, Witwatersrand. E, quando trocou as botas pelo estirador, rapidamente se revelou um talento na disputa de outras provas; concursos de «design» onde tem somado sucessos atrás de sucessos, incluindo o do novo símbolo da selecção sul-africana de rugby; os temíveis Springboks.

Humilde, sem peneiras ou vaidades, Gabriel explica-me com um entusiasmo refrescante, o conceito do «logo» do Mundial de 2010. De como associou o simbolismo do traço de arte bosquímana, às cores e exuberância africanos. A energia na diversidade. A persistência e inconformismo frente à adversidade.

À distância de quatro anos, o «Mundial» de 2010 na África do Sul ganha assim asas na nossa imaginação. A sedução do que o primeiro campeonato máximo de futebol a realizar naquele continente terá para nos oferecer de mágico.

Um território de guerras, racismo (de todos os quadrantes), de nepotismo, corrupção e prepotência. Mas também de capacidade de perdoar, de estender a mão, de aprender com os erros alheios e próprios.

E, acima de tudo, onde vale a pena sonhar, porque há espaço para isso. Não apenas nas distâncias geográficas mas, principalmente, nas do espírito e do fascínio de ver o diferente como uma mais-valia e não uma ameaça ou defeito.

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