João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 10 de fevereiro de 2010 às 11:47

Um presidente para o negócio

O senhor milhões da Ucrânia, Rinat Akhmetov, financiou-lhe a campanha, contratou o inevitável consultor e relações públicas norte-americano, mudou-lhe o penteado, fê-lo largar o russo e pô-lo a dizer frases curtas sempre em ucraniano, mas, ainda assim, foi magra...
O senhor milhões da Ucrânia, Rinat Akhmetov, financiou-lhe a campanha, contratou o inevitável consultor e relações públicas norte-americano, mudou-lhe o penteado, fê-lo largar o russo e pô-lo a dizer frases curtas sempre em ucraniano, mas, ainda assim, foi magra a vitória do candidato presidencial Viktor Yanukovitch.

O vencedor fraudulento das presidenciais de 2004, defenestrado pela revolução laranja, levou a melhor sobre a primeira-ministra Yulia Timoshenko por escassa diferença: 48,94 % dos votos contra 45,47%, segundo os resultados preliminares, numa votação muito participada em que 69 % dos eleitores foram às urnas, quase mais 3 % do que na primeira volta.

Yulia perdeu, sem contar com o apoio do seu rival, o presidente Viktor Yushenko, que conseguira apenas 5 % na primeira volta, e do presidente do banco central Sergei Tigipko (13 % na votação de 17 de Janeiro) que preferiu recusar apoiar qualquer candidato guardando-se para uma eventual nomeação para a chefia do governo.

Um milhão de eleitores fez uso da opção de votar contra os dois candidatos e, uma vez mais, o país rachou ao meio.

Yanukovitch prevaleceu nas regiões de maior influência russófona no Leste e no Sul (obteve 90 % dos sufrágios na sua cidade natal de Donetsk contra 6 % para a rival) e Timoshenko venceu no centro e a Ocidente (86 % em Lviv e apenas 8% para o candidato do Leste).

A chefe do governo, que contesta os resultados eleitorais, sem apoios políticos que lhe permitam sequer pensar em poder manter-se à frente do executivo, teve ainda 65 % dos votos na capital ao passo que só 25 % dos eleitores de Kiev optaram por Yanukovitch.

Yanukovitch reciclado
O político rude que foi primeiro-ministro por duas vezes, entre 2002-2004 com o presidente Leonid Kuchma e de Agosto de 2006 a Dezembro de 2007 com o patrocínio de Viktor Yushenko, surgiu nesta campanha marcando diferenças em relação a Moscovo.

O candidato prometeu renegociar os preços do gás natural adquirido à Rússia e apesar de ter evitado rejeitar o projecto do gasoduto South Stream, que não atravessa a Ucrânia, admitiu formar um consórcio com a Rússia para operar em conjunto as redes de gasodutos no país.

Coerente na rejeição de uma eventual adesão à NATO, Yanukovitch apontou, no entanto, a entrada na União Europeia como objectivo estratégico e reiterou a promessa de fazer do russo a segunda língua oficial da Ucrânia, um desiderato compreensível num país em que cerca de 30% da população declara o russo como língua materna.

Um Yanukovitch reciclado é agora o candidato não apenas do magnata das finanças e da metalurgia Rinat Akhmetov, mas, também, de boa parte dos meios de negócios que enriquecidos num meio de corrupção institucional desde a independência em 1991, procuram agora um mínimo de estabilidade política que normalize as relações com a Rússia e abra mercados a ocidente para as exportações, sobretudo metalúrgicas e agrícolas.

A estabilidade é ainda uma quimera a menos que eleições antecipadas em relação à data prevista de Setembro de 2011 dêem uma maioria relativa ao Partido das Regiões de Yanukovitch que lhe permita associar-se a novas estrelas da política nacional, sobretudo Sergei Tigipko, de forma a ver-se livre de Yulia Timoshenko.

Mau para os negócios
Para os meios de negócios ucranianos um mínimo de estabilidade política que permita reformas fiscais é agora um imperativo para negociar com o FMI. Em Novembro, com vista à sua eleição presidencial, Yulia Timoshenko aprovou aumentos de 20 % do salário mínimo e de pensões o que levou o FMI a bloquear um empréstimo de emergência de 3,8 mil milhões de dólares.

Desde o Outono de 2008 o FMI emprestou cerca de 11 mil milhões de dólares a Kiev, mas não conseguiu evitar que a hryvnia desvalorizasse nesse período 42 por cento em relação ao dólar, enquanto se multiplica o crédito mal parado e aumentam os atrasos nos pagamentos a Moscovo por fornecimentos de gás natural.

A economia ucraniana terá sofrido uma contração de 15 % no ano passado, a pior crise desde 1994, e o pacote de empréstimos do FMI num total de 16,4 mil milhões de dólares é vital para estabilizar o país.

Yanukovitch é nesta conjuntura o homem em quem Akhmetov aposta e na sua peugada irão outros oligarcas como Viktor Pinchuk ou Igor Kolomoisky, mas não é seguro que uma vitória presidencial tão curta, escassa por demais, permita garantir alguma estabilidade.

Anos a fio a instabilidade política serviu para fazer e consolidar fortunas, mas, agora, redunda em prejuízo. O problema é que a maioria dos políticos ucranianos, sustentados por interesses divergentes, não desarma, está em roda livre, e tamanha desordem passou a ser má para os negócios.


Jornalista
barradas.joaocarlos@gmail.com
Assina esta coluna semanalmente à quarta-feira



pub

Marketing Automation certified by E-GOI