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Fernando Braga de Matos 16 de Janeiro de 2009 às 15:48

Uma derrota estratégica de Israel

Muito se tem escrito sobre a actual erupção de violência na Palestina, e esta é apenas uma tentativa de observar as coisas sob uma perspectiva pouco tratada. A quebra de tréguas pelo Hamas e a chuva de rockets sobre o sul de Israel teriam que ter uma reacção de legítima defesa por parte dos agredidos, e até se podia prever o excesso, dados os antecedentes bem conhecidos.

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Assim, com quase unanimidade dos que procuram uma visão equilibrada, foi-se salientando o exercício do direito de autodefesa e o contraponto, a brutal desproporção da resposta.

Apesar do cuidadoso impedimento de jornalistas nos locais de batalha, logo com uma deficiência de imagens em carne viva, não é difícil elucubrar sobre o imenso sofrimento imposto aos palestinianos, submetidos às balas, ao frio, à fome, à falta de água, electricidade e cuidados médicos suficientes. São 1.500.000, enclausurados num espaço de 360 km2, sem sítio para onde fugir, originando uma coisa difícil de observar: uma guerra sem refugiados.

Indo mais fundo na análise, parece-me que realmente Israel caiu numa "lose-lose situation" a que, aliás, dificilmente conseguiria escapar: não era aceitável uma não retaliação, ou uma tão débil que antes instigasse a arrogância do Hamas e lhe permitisse cantar vitória, mas tão pouco seria admissível uma resposta de enorme fúria, tal como a que está a ocorrer.

Enredado numa situação de "preso por ter cão e preso por não ter", Israel, manifestamente, escolheu o excesso, num exercício de resposta mas também de prevenção, procurando incutir o receio de futuros ataques por quem quer que seja a dirigir o Hamas.

A presente invasão, nem que fosse como plano de contingência, já estava trabalhada há muito, como não podia deixar de ser. Porém, o modo como se configurou o estado de coisas transformou a intervenção numa atitude meramente táctica.

Ora, um estado seguro, vivendo em paz interna e externa, terá que ser o grande objectivo estratégico da nação judaica. Esta visão para Israel passa pela coexistência com o povo palestiniano, principalmente representado num estado viável com o qual estabelecer aquele desiderato – e é com este conceptualismo que se justifica o título desta crónica.

A anexação oportunística de territórios nas guerras de 1948, 1967 e 1973 permitiu a muitos extremistas sionistas acalentarem a ideia do Grande Israel, com uma legitimação espantosa, a de ser a terra dada por Deus ao povo judaico(1)!

Graças a Deus e ao desenrolar da história, os desaires no Líbano e as intifadas nos territórios ocupados criaram, em geral, um novo realismo nos desígnios da maioria da liderança israelita(2), que, deste modo, adere à grande fórmula de "terra em troca de paz".

Sendo assim o tabuleiro, para Israel, os destinatários estratégicos da sua política rumo à paz são os palestinianos razoáveis, liderados por Abbas;

as chefias moderadas dos países árabes da região(3); e a comunidade internacional.

Ora, nos palestinianos, a quem até a esperança se retira, só pode prever-se a emersão de mais uma geração de extremistas, enquanto se elimina cada vez mais a credibilidade de Abbas, um interlocutor de boa fé, entre o seu povo. Até "Pétain palestiniano" ouvi chamar-lhe!

Quanto aos governos árabes, que espaço de manobra se concede a Mubarak, Assad ou Abdullah? Para não falar do capital de confiança que eventualmente se esvai nas brechas abertas.

Finalmente, Israel precisa de apoios internacionais, para além do dos Estados Unidos (agora seguramente menos predispostos que o incondicional George Bush), até para poder enfrentar a séria ameaça do Irão, ponto onde nunca haverá amigos que cheguem.

Que podemos então concluir, senão que a vitória militar táctica sobre o Hamas, em Gaza, não passa de uma derrota estratégica para Israel?

(1) A mesma ideia também foi defendida por quem preconizava a necessidade da "profundidade territorial estratégica", por motivos defensivos. Embora a largura de Israel seja arrepiante quando se está rodeado de inimigos, nunca ninguém saberá qual a boa extensão que não obrigasse a uma nova guerra, agora de conquista, dando de barato que esta fosse viável.
(2) O percurso mental de Ariel Sharon, em muito um símbolo e representação do próprio país, ilustra bem esta opção pragmática.
(3) Nunca se tinha visto , até há pouco, tanta aproximação, a que aderiu a própria Arábia Saudita, com o seu muito realista plano de paz, e a Síria, há bastante embrenhada em negociações sérias, moderadas pela Turquia.


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