Lucy P. Marcus
Lucy P. Marcus 15 de março de 2017 às 14:00

Como ser um mau líder

O impensável pode acontecer – como aconteceu no Reino Unido, com a votação a favor do Brexit e como pode acontecer em França, se Marine Le Pen, da extrema-direita, alcançar a presidência. Mas o que acontece em democracia é apenas o que as pessoas permitem.

Sob a presidência de Donald Trump, os Estados Unidos parecem estar confrontados com uma administração conduzida pelo ego. De facto, é pior: no primeiro mês na presidência, Trump pareceu consolidar um tipo de governação definida pela identidade.

 

O caos que reina na política norte-americana reflecte isso mesmo. As políticas são baseadas em "factos alternativos" e na própria mitologia em torno de Trump, que surge como um influente homem de negócios que fala abertamente (embora a sua história esteja cheia de buracos). A ignorância no que diz respeito às leis tornou-se numa desculpa para desacreditar e para ter um comportamento que levanta dúvidas em termos éticos como foi o caso do convite feito ao primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, para o seu resorte, Mar-a-Lago, ou o ataque feito aos armazéns Nordstrom por deixarem de vender a linha de roupa da filha, Ivanka. (Trump postou o seu ataque à empresa na sua conta oficial @POTUS e a sua conselheira Kellyanne Conway promoveu a linha de roupa de Ivanka na televisão nacional).

 

Não é surpreendente que as empresas, que tendem a ser governadas por superegos, estejam a preparar estratégias para gerir a quantidade de tweets presidenciais. Apesar de tudo, a Nordstrom não foi o primeiro alvo de Trump (apesar de ter sido a primeira empresa cujas acções fecharam em alta nesse dia). Muitas companhias estão empenhadas em tornar as suas escolhas firmes e públicas no que diz respeito à sua posição em relação a Trump, e às suas ordens executivas controversas, e aos políticos que, em última análise, o apoiam. Isto não é nada próximo do business as usual.

 

De forma irónica, este novo ambiente de operações bizarro reflecte, em parte, o próprio passado empresarial de Trump. Trump costumava gerir a sua própria empresa com uma pequena equipa, seleccionada com base nos seus próprios critérios. Os seus sucessos e falhanços eram só seus. Trump podia escolher o que esconder do público e vender o que quer que fosse que as pessoas compravam, caveat emptor (por conta e risco do comprador).

 

O seu emprego actual é uma história diferente. Por muito que Trump possa gostar de alegar que sozinho pode reparar os Estados Unidos, a verdade é que este governo é uma empresa demasiado complexa para uma pessoa gerir e dirigir. Nem ele pode inventar os seus próprios padrões de desempenho – em especial se estiver a recompensar a lealdade pessoal em vez do conhecimento e da experiência. E as suas falhas não são apenas dele: todo o país – e grande parte do mundo – vão sofrer.

 

Mas há alguns pontos comuns entre gerir um negócio e governar um país. Em ambos os casos, é expectável que os líderes actuem no melhor interesse de uma larga comunidade, não simplesmente no que é melhor para os seus círculos, sejam eles eleitores ou accionistas. Os princípios básicos de uma boa governação empresarial – que incluem transparência, integridade, fiabilidade, confiança e legalidade – podem ser transferidos para a liderança política.

 

O que Trump não pode ignorar são controlos ao poder presidencial. Para ser clara, o Congresso liderado pelos Republicanos tem estado (até aqui) relutante em cumprir a sua responsabilidade de limitar Trump. O Senado não rejeitou nenhuma das escolhas para o governo, apesar da falta de experiência relevante dessas escolhas e de terem sido alvo de uma verificação insuficiente (embora dois republicanos tenham votado contra a secretária da Educação Betsy DeVos).

 

Contudo, o ramo judicial tem resistido à intimidação de Trump. A ordem executiva de Trump, que proibia pessoas de sete países maioritariamente muçulmanos de entrarem nos EUA, foi rejeitada três vezes em tribunal e a Casa Branca fez saber que não ia recorrer dessa decisão para o Supremo Tribunal.

 

Mas o principal controlo de poder numa democracia são as pessoas. E, nos EUA, as pessoas – de forma pacífica e resoluta – parecem estar a encontrar a sua voz.

 

No dia seguinte à tomada de posse de Trump, mulheres lideraram o que se estima ser o maior protesto realizado em apenas um dia na história dos Estados Unidos. Os cidadãos têm estado a contactar com os seus legisladores para exigirem uma melhor representação dos seus interesses. Jason Chaffetz, representante do Utah, republicano, enfrentou recentemente milhares dos seus eleitores que cantavam "Faz o teu trabalho!" naquilo que era suposto ser um encontro político normal.

 

Não são apenas os dirigentes eleitos que estão a ser avisados. Não há muito tempo, os consumidores, trabalhadores e membros da comunidade insurgiram-se numa shareholder spring, (dá-se quando os accionistas de grandes empresas não aprovam os pacotes remuneratórios dos executivos), uma vez que as empresas estavam a agir de má-fé, gratificando CEO que falhavam, que desrespeitam as regulações ambientais e os direitos dos trabalhadores. Estamos agora a ver um movimento semelhante, com os consumidores a voltarem-se contra empresas que apoiam uma administração que incorpora os valores que rejeitam.

 

A campanha #GrabYourWallet pode ter contribuído para uma queda nas vendas da linha de roupa Ivanka Trump (a razão apontada pela Nordstrom, e outras marcas, para terem tomado a decisão de deixar de comercializar a linha de roupa). O movimento #DeleteUber puniu uma empresa de partilha de transporte por ter enfraquecido uma greve de taxistas no aeroporto nova-iorquino JKF, em que os taxistas apoiavam aqueles que foram apanhados pela imposição de Trump e ajudou o CEO da empresa, Travis Kalanick, a sair do conselho económico consultivo de Trump. Quando o CEO da Under Armour, Kevin Plank, expressou o seu apoio a Trump, atletas associados à marca declararam a sua oposição, o que levou a empresa a emitir um comunicado a distanciar-se dos comentários de Plank.

 

Trump é um caso de estudo no que diz respeito a como não liderar, quer nos negócios quer um governo. Com o seu temperamento, que o leva a agir de imediato, e chauvinismo, a eleição de Trump parece ser o resultado da ilusão e da obstinada passividade de muitos eleitores.

 

E talvez essa seja a verdadeira lição da presidência de Trump até ao momento. O impensável pode acontecer – como aconteceu no Reino Unido, com a votação a favor do Brexit e como pode acontecer em França, se Marine Le Pen, da extrema-direita, alcançar a presidência. Mas o que acontece em democracia é apenas o que as pessoas permitem.

 

Lucy P. Marcus é a CEO da Marcus Venture Consulting.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
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Tradução: Ana Laranjeiro 

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