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Jeffrey D. Sachs - Professor de economia reconhecido mundialmente, autor de "best-sellers", inovador educador e líder global em desenvolvimento sustentável.
18 de Maio de 2015 às 20:00

Argumentos favoráveis à paz com o Irão

O acordo-quadro sobre o nuclear entre o Irão e os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas (Estados Unidos, Reino Unido, França, China e Rússia) mais a Alemanha, é um importante marco para a diplomacia global. O acordo anunciado no início de Abril representa o triunfo de uma esperança racional sobre o medo irracional, e merece ser implementado. Mas agora a corrida difícil é contra os defensores de linhas duras dos Estados Unidos, Irão, Israel e de outros locais, que querem matar este acordo antes da data limite para um acordo final estabelecida para Junho.

O acordo-quadro beneficia todas as partes. O Irão reduz as suas actividades nucleares, especialmente o enriquecimento de urânio, em troca do levantamento das sanções económicas. O governo iraniano é colocado numa posição mais distante face ao desenvolvimento de uma bomba nuclear – que nega pretender construir – e assegura espaço de manobra para recuperar a economia e para normalizar as relações com as grandes potências.

 

É uma abordagem inteligente, pragmática e equilibrada, sujeita a monitorização e verificação. Não exige que os governos dos Estados Unidos e do Irão tenham de, subitamente, confiar um no outro; mas oferece uma oportunidade de construir confiança, ao mesmo tempo que permite dar passos concretos que são do interesse de cada um dos lados. Além do mais, que é essencial, está enquadrado no direito internacional e pelo Conselho de Segurança da ONU.

 

Ao propor a ideia de que não se pode confiar nunca no outro lado, os radicais estão a avançar com uma teoria política e de natureza humana auto-satisfatória, que torna a guerra em algo mais provável. Estes promotores do medo merecem ser mantidos à margem. É tempo de fazer a paz.

 

Actualmente a grande divisão entre o ocidente e o Irão, deve notar-se, resulta em grande medida do comportamento maligno do ocidente em relação ao Irão (Pérsia até 1935) no passado. Desde o início do século XX, o império britânico manipulou a Pérsia de forma a controlar as suas vastas reservas petrolíferas. Depois da Segunda Guerra Mundial, esse trabalho ficou crescentemente a cargo dos Estados Unidos.

 

Na verdade, do golpe de Estado ao regime ditatorial até à guerra de sanções, os Estados Unidos levam mais de 60 anos a tentar impor a sua vontade no Irão. A CIA e o britânico MI6, em conjunto, provocaram a queda do governo democraticamente eleito em 1953 de Mohammad Mossadegh, para bloquear as tentativas de Mossadegh de nacionalizar as reservas de petróleo iranianas. Os Estados Unidos instalaram então no poder a brutal ditadura do Xá Mohammad Reza Pahlavi, que governou o país até à Revolução Islâmica de 1979.

 

A seguir à revolução, os Estados Unidos apoiaram o armamento do Iraque na guerra Irão-Iraque da década de 1980, na qual se estima terem morrido um milhão de iranianos. Desde 1987, os Estados Unidos impuseram sanções económicas ao Irão com base em várias premissas, incluindo reivindicações contra o terrorismo iraniano e uma alegada ameaça nuclear. E os Estados Unidos desenvolveram vários esforços para internacionalizar estas sanções, liderando a pressão para que as Nações Unidas adoptassem as medidas que foram colocadas em prática em 2006.

 

Os radicais norte-americanos têm a sua própria lista de reclamações, começando com a convulsão da embaixada dos Estados Unidos em 1979, durante a qual 66 diplomatas e cidadãos norte-americanos estiveram em cativeiro ao longo de 444 dias. Depois há o envolvimento do Irão em várias insurreições islamitas, e o seu apoio a movimento políticos e grupos considerados terroristas opositores de Israel.

 

Ainda assim, os abusos de britânicos e norte-americanos contra a Pérsia e o Irão começaram primeiro e duraram mais tempo, impondo custos bem mais pesados do que as acções iranianas contra os Estados Unidos e o Reino Unido. Além do mais, muito do que os Estados Unidos classificam de "terror" iraniano é um produto dos sectarismos regionais entre xiitas, apoiados pelo Irão, e sunitas, apoiados pela Arábia Saudita. "Terror" é um termo que oculta, em vez de clarificar estas disputas e rivalidades de longa data. É por isso que o Irão, um "Estado terrorista" segundo os radicais norte-americanos, é agora um aliado "de facto" na luta contra os jihadistas sunitas no Iraque e na Síria.

 

A confrontação iraniana com o Reino Unido e os Estados Unidos é parte de uma saga muito mais abrangente, em que o ocidente utilizou a sua predominância militar e económica para projectar o seu poder, vontade e influência política a grande parte do mundo ao longo dos séculos XIX e XX. Os países de baixos e médios rendimentos estão, só agora, a entrar num período de verdadeira soberania.

 

O acordo proposto com o Irão não poderá superar um século de desconfiança e manipulação, mas pode começar a criar um novo rumo no sentido da paz e respeito mútuos. O benefício mútuo pode ser alcançado através de avaliações honestas dos interesses mútuos, e, passo a passo, o progresso pode ser alcançado mediante verificação, mas não através das reivindicações dos radicais de ambos os lados que argumentam que a outra parte representa o puro mal, insistindo ao invés no triunfo completo.

 

O sucesso do presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, e do líder soviético, Nikita Khrushchev, em alcançar, em 1963, o acordo sobre o Tratado de Proibição Total de Ensaios Nucleares (LTBT, na sigla original), no auge da Guerra Fria, providencia uma lição importante. Nessa altura os radicais de ambos os lados denunciaram aquele acordo enquanto enfraquecedor da capacidade de defesa nacional perante um inimigo implacável. Na realidade, os dois lados respeitaram com honorabilidade o tratado e isso levaria ao marco de 1968 do Tratado de Não-Proliferação Nuclear. 

 

As palavras de JFK há meio século aplicam-se ao acordo iraniano agora. O LTBT, disse Kennedy em 1963, "não é a vitória de um dos lados – é uma vitória para a humanidade". Este tratado, disse então, "não vai resolver todos os conflitos, nem levar os comunistas a esquecer as suas ambições, nem eliminar os perigos da guerra, mas é um importante primeiro passo – um passo em direcção à paz, um passo em direcção à razão – um passo na direcção contrária à guerra". 

Jeffrey D. Sachs is professor de Desenvolvimento Sustentável, professor de Política e Gestão da Saúde e director do Earth Institute na Universidade de Columbia. É também conselheiro especial do Secretariado Geral da ONU no âmbito dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio.

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2015.

www.project-syndicate.org 

Tradução: David Santiago

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