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Até com Lula a bolsa subiu

As notícias da queda da bolsa no dia da reunião de António Costa com Catarina Martins ressuscitaram a tese de que os mercados financeiros são um agente ao serviço da política neoliberal e uma força de bloqueio à democracia.

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As notícias da queda da bolsa no dia da reunião de António Costa com Catarina Martins ressuscitaram a tese de que os mercados financeiros são um agente ao serviço da política neoliberal e uma força de bloqueio à democracia. Na verdade, Passos ou Costa, tanto lhes faz. Não é isso que os move.

Aos investidores, sejam bancos, fundos, seguradoras ou particulares, pouco lhes importa se o regime é uma democracia ou uma autocracia. Tanto investem em Wall Street ou na City de Londres, como na China ou na Rússia. A única convicção que os anima é a de que podem ganhar dinheiro, se possível muito. Como ganharam, por exemplo, no Brasil de Lula da Silva, do PT. Nos primeiros cinco anos do seu mandato, o índice Bovespa avançou 467%. Aquele que foi um dos melhores ciclos para as acções brasileiras só foi interrompido pela crise financeira de 2008.

A ideia de que essa massa indistinta de investidores que forma os mercados perfilha uma ideologia de direita, neoliberal, é descabida. Claro que os mercados financeiros têm no capitalismo o seu habitat, desde logo porque a propriedade privada é condição para a sua existência. Mas a sua única ideologia é a do lucro.

Aos investidores, incluindo os que estão activos na bolsa ou na dívida portuguesa, pouco lhes importa se o próximo primeiro-ministro é do PSD ou do PS. Ou até se António Costa chega ao poder apoiado em Catarina Martins ou Jerónimo de Sousa.

Mas há uma coisa que os investidores não gostam: falta de visibilidade sobre o que pode acontecer no curto a médio prazo. A possibilidade de um Governo do PS apoiado pelo Bloco de Esquerda (retratado como o Syriza português) e o PCP fez descer um nevoeiro sobre o futuro. O rumo político do país passou a ser mais incerto, em vários aspectos. O cenário de instabilidade ganhou força. O fantasma grego começou a ganhar forma: iria o novo governo romper com as regras orçamentais europeias e com a disciplina nas contas públicas? Iria avançar com uma reestruturação da dívida?

Em vez de lucros - os activos financeiros portugueses são colocados no grupo dos que mais podem beneficiar com a política monetária do BCE -, os investidores começaram a ver potencial para prejuízos. A instabilidade política paralisa as empresas e afecta negativamente os seus resultados. Uma reestruturação da dívida implica perdas para os investidores, entre eles os bancos, mesmo que passe apenas por esticar prazos e baixar juros.

António Costa percebeu que o problema não era necessariamente ele ou as conversas com Catarina Martins. Eram as dúvidas dos investidores. E tratou rapidamente de as desfazer, dando entrevistas às agências internacionais. "O PS não é o Syriza", foi a frase-chave. Passos ou Costa? Para os mercados é mais ou menos indiferente. Basta que não avistem nevoeiro, nem vejam fantasmas.

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