Entre janeiro e abril, arderam mais de 150 milhões de hectares em África, na Ásia e noutras regiões do mundo, um valor 20% acima do máximo registado para este período, segundo dados compilados pela World Weather Attribution. Só na Europa, já se ultrapassaram os 81 mil hectares ardidos.
O alerta foi deixado esta terça-feira por investigadores ligados à organização, que apontam para a combinação particularmente perigosa de temperaturas elevadas, secas mais intensas, vegetação abundante acumulada após períodos de chuva e a provável chegada de um episódio de El Niño. O resultado, avisam, pode ser um ano de incêndios de dimensão invulgar.
“Embora em muitas partes do mundo a época global de incêndios ainda não tenha aquecido, este início rápido, em combinação com a previsão de El Niño, significa que estamos perante a materialização de um ano particularmente severo”, afirma Theodore Keeping, especialista em incêndios florestais do Imperial College London, citado pela Reuters.
Os números mais expressivos surgem de África, onde, segundo o investigador, terão ardido até agora cerca de 85 milhões de hectares, mais 23% do que o anterior recorde de 69 milhões de hectares. A explicação está, em parte, na alternância rápida entre períodos de precipitação intensa, que favoreceram o crescimento de ervas e outra vegetação, e períodos de condições muito secas e quentes.
Na Ásia, a situação também já ultrapassou marcas anteriores e os incêndios já consumiram cerca de 44 milhões de hectares desde o início do ano, quase 40% acima do recorde anterior, registado em 2014. Índia, Myanmar, Tailândia, Laos e China estão entre os países mais afetados.
Na Europa, os primeiros meses do ano também merecem atenção, embora o quadro seja diferente do observado em África e na Ásia. Segundo o Joint Research Centre da Comissão Europeia, com dados do Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS), arderam 81.610 hectares na União Europeia (UE) entre janeiro e 30 de abril. O valor está abaixo dos 163.492 hectares registados no mesmo período de 2025, mas acima da média de 60.235 hectares dos últimos 20 anos para esta altura do ano.
O número de ocorrências segue uma trajetória semelhante, com o EFFIS a registar 868 incêndios desde o início do ano, mais do que os 763 registados no mesmo período do ano passado.
O contexto europeu é particularmente relevante porque 2025 foi um ano de exceção, com os incêndios a consumirem mais de um milhão de hectares, considerando apenas fogos com mais de 30 hectares. A atividade foi especialmente elevada em Portugal, Espanha, sul de França, sul de Itália, Grécia, Turquia, Ucrânia e partes do Reino Unido, com a Península Ibérica ocidental a concentrar a maioria dos incêndios superiores a 5.000 hectares.
O receio dos cientistas é que o pior ainda esteja para vir. A Organização Meteorológica Mundial tinha previsto que as condições associadas ao El Niño - o fenómeno provocado pelo aquecimento das águas superficiais do Pacífico – pudessem começar em maio. Este padrão climático tende a alterar regimes de chuva e temperatura à escala global, aumentando o risco de seca em regiões como a Austrália, Indonésia e partes do sul da Ásia, ao mesmo tempo que pode provocar cheias noutras zonas.
“A probabilidade de incêndios extremos prejudiciais pode potencialmente ser a mais elevada que vimos na história recente se se desenvolver um El Niño forte”, alerta Theodore Keeping.
“Se houver um El Niño forte ainda este ano, existe um risco sério de que o efeito das alterações climáticas e do El Niño resulte em extremos meteorológicos sem precedentes”, afirma Friederike Otto, climatologista do Imperial College London e cofundadora da World Weather Attribution.