Aliados: guerra íntima em filme

Sempre à beira do precipício do fim. "Aliados" ameaça perder o rumo até que revela a sua verdadeira essência. Esta é uma guerra íntima no meio de um conflito global. E se duvidarmos de quem mais amamos? Teremos sempre "Casablanca".
Jornal de Negócios
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Wilson Ledo 03 de dezembro de 2016 às 13:00

O pôr-do-sol e o infinito do deserto marroquino. Arranque quente, melodioso, sem palavras. Max Vatan chega do céu no seu paraquedas, transformando-se num ponto definido na paisagem árida. O ponto de partida para "Aliados", o último trabalho de Robert Zemeckis.
É de mistério - ingrediente forte em todo o filme - que se faz a rápida chegada a Casablanca. Um carro, um anel, a indicação de que encontrará a parceira de missão através de um colibri. Lá está ela, ave modesta mas exuberante, a perpetuar a mentira.
Ela é Marianne Beauséjour, membro da Resistência francesa incorporada por Marion Cotillard. Com o comandante canadiano interpretado por Brad Pitt, tem uma missão: fingir que são um casal e matar durante uma festa o embaixador alemão, representante dos nazis em Casablanca.
Antes de a missão estar concluída - as probabilidades não jogavam a seu favor - é o encenar da relação que mais cativa e dá brilho a Cotillard. Empertigada, sempre disposta a uma piada suave sobre o mau sotaque parisiense do companheiro, a completar o quadro de suavidade com tecidos leves no corpo.
"Eu mantenho as emoções reais", avisa Marianne. Até que não há volta a dar. Eles podem não sair vivos da festa na embaixada: e se não houver amanhã? Os corpos deixam-se levar pelo desejo, numa sequência que se assume como uma das mais marcantes do filme. Zemeckis, adepto dos efeitos especiais, usa-os sem exageros: um casal faz amor dentro de um carro, forma-se uma tempestade de areia. A câmara circula e observa.
"Aliados" é um filme que vive sempre à beira do precipício do fim. O suspense intimista mantém a narrativa coesa mesmo quando o seu percurso ameaça tornar-se desinteressante. Depois de concluída a missão, o casal está agora em Londres. Do casamento à primeira filha - nascida durante um ataque aéreo - é um saltinho, como a época cultivava.
O aviso chega: "os casamentos no terreno nunca funcionam". Max é chamado ao topo da hierarquia e sem muitas surpresas - até porque o filme a isso pouco se preza - descobre que a mulher pode ser uma espiã alemã. "Aliados" parece perder uma vez mais o rumo, como o próprio comandante, na hora de definir a verdade.
É preciso deixar as aparências - mensagem constante no filme - e focar na dimensão dramática, psicológica. É esta que consegue agarrar: E se a pessoa que mais amamos é, na verdade, uma autêntica desconhecida? E se a mentira se estendeu além do combinado? Dentro das quatro paredes do lar, transformam-se em vítimas de guerra, com uma tipologia própria, assombrados pelo passado.
A Segunda Guerra Mundial é o mote mas nunca o centro do verdadeiro conflito, cravado na relação entre Max e Marianne. A Brad Pitt não se consegue mais do que uma face inexpressiva perante a tempestade interior. A dúvida é suficientemente forte para que se crie empatia com o espectador.
Marion Cotillard, quase renegada para um segundo plano pelo desenrolar da narrativa, volta sempre para provar que é a alma do filme. Olhares ambíguos e palavras medidas: Marianne Beauséjour é a vilã ou a heroína desta história?
Há uma certeza. Eles terão sempre Casablanca. É impossível não identificar as referências ao filme de Michael Curtiz, lançado em 1942. É precisamente nesse ano que Max e Marianne se conhecem naquela cidade marroquina. Depois há o piano, A Marselhesa, a paixão, a resistência.
E, de forma involuntária, impõe-se a questão: e se Rick Blaine e Ilsa Lund - interpretados por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman - tivessem ficado juntos em "Casablanca"? Teriam tido o mesmo destino que Max e Marianne, engolidos por um dilema maior do que eles próprios?
A paixão é salva no último segundo, sem o fim da guerra à vista. "Je t'aime, mon québécois".

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