Weekend Anabela e Margarida Moreira: “A nossa avó dizia muitas vezes: é tudo deste mundo”
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Anabela e Margarida Moreira: “A nossa avó dizia muitas vezes: é tudo deste mundo”

São irmãs. Gémeas. As personagens de “Diamantino” – filme de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt premiado em Cannes – mas também as atrizes que lhes dão corpo no grande ecrã. Anabela e Margarida Moreira são o espelho uma da outra. Conhecem cada expressão, cada movimento dos lábios, e comunicam com o olhar. Nasceram já a revolução ia alta. A cumplicidade cresceu com elas, a par das teatrices, ao ritmo da imaginação. Não se explica. O resto sim. Margarida sentiu a pulsão do palco. Anabela fez-se atriz no cinema e recebeu das mãos do mentor, João Canijo, a câmara com que estreou na realização. O olhar dela, diz ele, chega a sítios onde ninguém não consegue chegar.
Anabela e Margarida Moreira: “A nossa avó dizia muitas vezes: é tudo deste mundo”
Miguel Baltazar
Helena Viegas Miguel Baltazar - Fotografia 18 de abril de 2019 às 11:00

"Diamantino" é difícil de definir, uma comédia romântica com laivos de delírio e crítica, ficção científica e "thriller"... O que é que vos atraiu neste filme?

Anabela moreira: Inicialmente, o que me atraiu foi poder trabalhar com a Margarida e ter a possibilidade de construirmos duas irmãs, gémeas.
Margarida moreira: Até porque, quando nos apresentaram o projeto, nós não sabíamos muito sobre ele... Só tivemos acesso a uma cena.
Anabela: Fizemos a cena três vezes e, quando o Gabriel [Abrantes] disse "agora mais" – mais volume, mais intensidade –, nós fomos até ao limite. Ele e o Daniel [Schmidt] começaram a rir e disseram: são estas as personagens! Eu e a Margarida apaixonámo-nos logo por aquelas duas loucas. E pelo lado surreal do filme, muito cómico, mas também muito sério.

Apaixonámo-nos logo por aquelas duas loucas. Mas também pelo lado surreal do filme. anabela

 

É uma sátira, uma metáfora do país?

Anabela: O filme é a metáfora de um estado global. Não podemos circunscrevê-lo apenas à realidade de Portugal, está muito para além disso. Estão lá o Brexit, os movimentos de esquerda e direita, o Trump, as celebridades, a adoção de crianças potencialmente em risco..., fenómenos que podem ter uma leitura à escala global.

 

A arte tem esse poder de fazer pensar, ou, indo mais longe, tem essa responsabilidade?

Margarida: Responsabilidade é uma palavra realmente muito forte. Mas tem esse poder, sim. A arte, ou a arte que inspira, faz com que o público que vê a obra lhe dê um simbolismo, lhe atribua uma explicação, um significado –, e isso faz que vá para casa mais preenchido e vai fazê-lo pensar. O resultado, esse, às vezes é uma incógnita...
Anabela: A arte em si, em absoluto, não existe, o que existe são os artistas. E, nesse sentido, a arte não tem de ter uma responsabilidade, não tem de ter sequer um fim em si, mas pode ser um meio extraordinário de fazer passar uma mensagem. Acredito que uma função importante da arte é fazer com que as pessoas se possam rever e possam refletir sobre elas próprias. A humanidade pode, através da arte, conhecer-se melhor. Se o quiser fazer.

 

Gabriel Abrantes disse numa entrevista que, apesar de todos os temas sérios ali tratados, o momento mais político do filme é o final amoroso — um clichê de telenovela, com um casal pouco convencional.

Anabela: Isso é tão engraçado... Porque, para mim, tudo no guião fluiu de uma forma tão natural que, quando começámos a ser selecionados para festivais "queer", a ter um feedback muito positivo do universo gay, etc., associei isso ao facto de existirem duas personagens lésbicas. Nunca fui para o final. Só depois pensei: claro, que estupidez! Não se pode contar, mas a imagem final, com aquela felicidade e aquelas duas silhuetas, é de facto mágica. E pode realmente ter um peso político grande. Duvido que as pessoas consigam olhar para aquela imagem e censurá-la.
Margarida: É o amor. É o amor que vence. O amor que não olha ao corpo, que não escolhe géneros, que não escolhe idades, que não escolhe nada.


 

"Diamantino" recebeu o prémio da Semana da Crítica de Cannes. O cinema português tem sido distinguido em festivais, parece atrair cada vez mais a atenção internacional. Sentem isso?

Anabela: Sim, mas isso não é novo. Estive pela primeira vez num festival internacional com o "Mal Nascida" [filme de João Canijo, de 2007] e recordo-me de toda a gente ter o cinema português em grande consideração. As pessoas falavam de cineastas que não tinham quase visibilidade nenhuma cá e lá eram considerados referências. Talvez estejamos hoje mais conscientes daquilo que é nosso. E, sim, alguns prémios muito importantes vieram dar mais visibilidade a esse posicionamento do cinema português, mas ele, em absoluto, já existia.
Margarida: Os prémios são um reconhecimento do nosso trabalho. E foi muito bom sentir em Cannes que todos estavam completamente apaixonados pelo "Diamantino". Que não é um filme comercial, porque é artístico e de autor, mas toca também nesse mundo. Mal o visionamento acabou, a ovação que se ouviu durante os créditos... Até o diretor artístico [Charles Tesson] vestiu a camisola do Diamantino – literalmente!
Anabela: Quando ele apareceu com a camisola do clube do Diamantino, nós percebemos: Uau! Depois houve uma festa em honra do Diamantino, que era "A" festa em que toda a gente queria estar. Nunca tinha sentido todo aquele burburinho.

 

Quem são as malévolas irmãs de Diamantino? Serem atrizes gémeas ajudou na construção das personagens?

Anabela: O Carloto [Cotta] fez um trabalho excecional, a vários níveis e também em termos físicos, de aproximação à figura do Cristiano Ronaldo. Mas tudo à volta não tem nada a ver, é importante dizer isto. Inicialmente, as nossas personagens eram para ter um papel único, para uma só atriz. Não existiam duas irmãs sequer. Nós não somos a Katia e a Elma Aveiro. Começámos até por pesquisar as Kardashian, a pedido do Gabriel e do Daniel. O universo das irmãs da Cinderela veio depois, foi algo intuitivo.
Margarida: O facto de sermos gémeas pode ter ajudado, até porque estamos a falar de duas irmãs que são uma espécie de monstro com duas cabeças. Com outro ator, se calhar, não teríamos chegado tão rapidamente ao resultado.
Anabela: Há um exemplo claro dessa cumplicidade. Tivemos uma cena dificílima em alto-mar. Os realizadores queriam que as nossas cabeças emergissem de forma a surgirem num determinado ângulo do barco e aquilo não estava a resultar. Não nos conseguíamos ver uma à outra debaixo de água, já estava a escurecer, era a última cena do dia, todos queriam ir embora. A certa altura, houve um olhar entre nós, uma junção de energias que eu não sei explicar – não é nada de esotérico, nem nada de místico, mas existiu – e dissemos: "Esperem, nós vamos conseguir." Mergulhámos e aparecemos no sítio onde eles queriam. Isto não seria possível com outro ator, só poderia funcionar com o olhar dela para mim e com o meu olhar para ela. Esse instante foi um instante de comunicação entre irmãs. Existiram muitos assim. Quando se conhece cada expressão, cada movimento do lábio, cada movimento do olho, consegue percecionar-se muita informação num nanossegundo e tomar uma decisão muito mais rapidamente.

 

Vivíamos no nosso próprio mundo. Mágico. Se calhar porque nos tínhamos uma à outra. Margarida


Essa cumplicidade existiu sempre? Como foi a vossa infância?

 Margarida: Sempre tivemos brincadeiras muito viradas para a música, para a rádio ou para a representação. Vivíamos no nosso próprio mundo. Mágico. Se calhar era porque nos tínhamos uma à outra, tínhamos a imaginação fértil uma da outra.
Anabela: Lembro-me de ficar horas no jardim à espera de ver as fadas e os duendes. Ou de sair de mansinho do meu quarto, de ficar em silêncio, e depois voltar a abrir a porta muito rapidamente para apanhar os meus bonecos fora do sítio. E também tivemos sempre à nossa volta pessoas muito ricas de imaginação. Muitos dos nossos amigos de infância, por coincidência, são hoje artistas. O diretor e criador do festival Córtex chama-se José Chaíça, mas eu vou tratá-lo eternamente por Zé Manel – era o nosso companheiro de filmagens, das peças para a rádio. Nós passávamos muito tempo sozinhos, com acesso a câmaras e com muitas horas para dar largas à imaginação. Havia um amigo que tinha os sapatos para fazer as passadas, o outro que fazia um som semelhante ao de uma chapada. Fazíamos radionovelas, entrevistas, anúncios, tudo.

 

E quando é que o teatro começou a ser mais do que uma brincadeira?

Margarida: No colégio, as professoras colocaram-nos rapidamente em palco, e foi aí que tudo começou.

Anabela: Eu não conseguia estar mais do que cinco minutos a ouvir o que uma professora dizia e desenvolvi todo um método para fingir que estava com atenção e parecer convincente [risos]. Dizia que sim com a cabeça, fingia estar a escrever, mas estava a milhas, a quilómetros de distância... Ia-me safando, mas não era propriamente boa aluna. Não era muito elogiada e era até um bocadinho criticada – nós éramos ligeiramente estridentes. Portanto, nas primeiras peças de teatro, quando estávamos a fazer papéis importantes e as pessoas vinham falar com a minha mãe a seguir aos espetáculos, eu pensava: Oh, meu Deus, afinal eu sou boa em alguma coisa!
Margarida: [risos] Eu não senti isso assim, como algo exterior. Era mais uma coisa que fazia parte de mim, como os meus dedos. Se tivesse outra profissão, continuaria até ao final dos meus dias a representar – tenho a certeza! –, fosse no teatro amador ou noutro lugar. A minha primeira participação em palco saiu-me das entranhas. Nesse espetáculo, a Anabela era uma das apresentadoras...
Anabela: Eu não era "uma das...", eu era "A" apresentadora!
Margarida:... e eu fazia de coro, lá atrás. Havia um poema, lindíssimo, que outra colega ia dizer e, dia após dia, eu ficava a ouvir as indicações da professora, com a minha alma a querer saltar dali para dizer o dizer. Porque eu não só estava a perceber tudo, como estava a sentir todo aquele poema. Até que há um dia em que a professora, frustrada com a colega, pergunta: Há alguém que queira experimentar? E eu, muito timidamente, pus a mão no ar. Era um poema sobre um marujo que estava em cima do mastro e, ao fim de meses no mar, via finalmente terra, e aquilo foi... o poema jorrou. A professora ficou a olhar para mim e disse: o poema é teu!
Anabela: Foi essa professora de História que disse mais tarde: e agora? Tenho de chumbar as irmãs Moreira. Se não, quem é que vai fazer teatro cá no colégio? [risos]

 

Mas não chumbaram.

Anabela: Não. Aliás, foi uma situação engraçada. Houve um ano em que eu estava já chumbada – com negativa a matemática, português e francês –, só que havia uma professora que se ia embora e nós organizámos uma coisa muito querida para lhe dizer adeus. E eu tinha um poema – "Senhora, partem tão tristes meus olhos por vós...", não sei, já não me lembro bem – e disse-o de uma forma tão sentida, tão sentida, que pus a professora a chorar. Eu tinha feito a minha primeira promessa à Nossa Senhora de Fátima se me passasse, e aconteceu um milagre! A professora chamou as turmas todas e, muito emocionada, anunciou: é só para dizer que quem estiver em situação de chumbar por causa de mim, não chumba, porque eu vou passar-vos. [risos]
Margarida: O que ela queria transmitir era que, naquele espetáculo, estava a apreciar-se uma obra, estava a sentir-se uma obra – que é aquilo que se pretende que seja o ensino do português. E, portanto, ninguém merecia chumbar.
Anabela: Sim, mas não interessa. Eu é que me senti todo-poderosa... [risos] Era como se tudo isto me desse algum poder num sítio onde eu não tinha poder algum. O único "feedback" positivo que recebia era como atriz. Era um sítio onde eu era muito feliz. Era mesmo feliz. E, portanto, nunca parei.

 

Entraram juntas para o mesmo grupo de teatro?

Margarida: Sim, depois fomos para a Escola Secundária do Restelo e descobrimos o NADA, o Núcleo de Artes Dramáticas e Audiovisuais. Estreámo-nos ali, fiz de mãe da Anabela na peça "O Gato", do Henrique Santana, que ainda nos foi ver antes de falecer, o que foi uma honra. De facto, a vida foi-nos brindando com pequenos sucessos deste universo teatral.


 

Apesar disso, escolheram estudar Psicologia. Por pressão familiar, ou vontade própria?

Anabela: O meu pai sempre achou que tínhamos de tirar um curso. Eu queria ir para o Conservatório, mas isso não era entendido como um curso normal e eu tinha de tirar um curso normal. Em relação à Psicologia, lembro-me de uma conversa entre nós em que o tema surgiu por acaso: "A sério, tu também queres Psicologia?" Só posso falar por mim, mas eu acreditava mesmo que, quando entrasse no ISPA [Instituto Superior de Psicologia Aplicada], iria finalmente compreender quem é que nós éramos, o que é que havia aqui dentro. Se calhar, já era o fascínio das personagens...

A Margarida terminou o curso, eu não. Saí no quarto ano e segui para a ACT — Escola de Atores. Inscrevi-me na agência como atriz, mas comecei por fazer publicidade. Ganhei muito dinheiro e era uma maneira de estar próxima do meio. Foi uma grande escola, de rigor.

 

Quando é que se dá o salto para o teatro?

Anabela: O Pedro Varela (realizador de "Os Filhos do Rock") foi o grande responsável pelo meu salto profissional. Eu só tinha feito coisas muito pequeninas e, com o "Trainspotting" [Teatro Armando Cortez, 2000], ele levou-me a fazer a minha primeira peça de teatro com um caráter sério e profissional.

 

Nesse caso, há um despertar comum, a Margarida também entrou na peça.

Margarida: Entrei mais tarde. Fui substituir uma atriz. Chamaram-me, às tantas disseram-me que já não era para fazer e, um dia, meia hora antes do espetáculo, o Pedro Varela diz-me: "Não estás vestida porquê?" Foi uma maneira querida de me dizer: "‘Bora!" E assim foi. Estreei-me em teatro profissional sem ensaios. Depois a Anabela deu o salto para o grande ecrã e eu fui ficando mais na parte do teatro.

 

No início, algumas pessoas chegaram a pensar que a Anabela e a Margarida eram uma só pessoa. Isso incomodava-vos?

Margarida: Eu e a Anabela somos duas atrizes que, por acaso, são irmãs e por acaso são gémeas. Mas, de facto, como a Anabela começou mais cedo no grande ecrã, houve uma altura em que foi complicado. Um dia, fui assistir à estreia de um filme meu e, na fotografia de uma revista, apareceu a legenda: Anabela Moreira vai ver o trabalho dos seus colegas!

 

Fizeram recentemente um "videoclip" para o Carlão. Têm outros projetos juntas agendados?

Anabela: Está em fase de pós-produção "O Último Banho", um filme do David Bonneville, no qual não somos gémeas, mas somos irmãs. E depois temos os nossos projetos individuais. Acabei agora o documentário sobre o Minho e entretanto decidi tornar-me empresária. Não posso dizer mais, mas estou a mergulhar de cabeça nisso.
Margarida: Eu terminei "A Teia", na TVI, depois comecei a promover o filme e ainda não consegui realmente parar. Mas trabalho com alguns grupos de teatro, entre eles o Teatro Pontual, e temos alguns espetáculos que queremos apresentar. Além disso, tenho feito também projetos de "terror impressivo" com o grupo de teatro Reflexo, e espero que este ano voltemos novamente aos palcos, entre aspas, já que as peças são noutros espaços.

 

É o terceiro documentário que a Anabela realiza e, em 2016, estreou-se na ficção com uma curta-metragem. A experiência atrás da câmara é para continuar?

Anabela: Se eu já era apaixonada por realizadores, depois de fazer "O Dia do Meu Casamento" passei a achar que [os realizadores] não são seres humanos. E eu sou muito humana [risos]. Entrei numa espécie de "loop" neurótico. É muito difícil. Como atriz, dá-se um contributo, é-se uma parte do filme. Como realizadora, é-se responsável por tudo aquilo. Em relação ao cinema documental, terminei um novo projeto de realização em janeiro. Já tinha feito em Trás-Os-Montes, na Beira, acabei agora no Minho, e acho que tão rápido não faço outro.


 

João Canijo disse um dia que a Anabela conseguia chegar com a câmara a sítios onde mais ninguém chegava.

Anabela: Os documentários foram realizados numa circunstância especial. Eu estava a preparar-me para o filme "Fátima", a ajudar o João a descobrir locais, grupos de peregrinos, e ao mesmo tempo estava a arranjar material para o tal documentário do projeto Guia de Portugal. Mas fiz aquilo tudo de uma forma "naïf", ou ingénua, e a minha preocupação, que depois se foi esbatendo, era não incomodar as pessoas. Porque eu acho maravilhoso que alguém se deixe filmar no seu dia a dia. Quando comecei este processo, quando as primeiras pessoas aceitaram que eu estivesse no seu espaço, dentro da casa delas, a filmar o dia a dia, a forma como falavam com o marido, como falavam com as filhas… Às tantas, eu falava como elas, estava presente como elas, não sei explicar.
Margarida: Foste-te camuflando.
Anabela: Fui-me camuflando. E fui-me largando a mim até chegar a um ponto em que, se por acaso tinha de me mover, as pessoas apanhavam um susto, porque já não se lembravam que eu estava lá. Sei que existe algum mérito nisto. Geralmente, são precisos vários dias para as pessoas se esquecerem da presença da câmara, e eu só tinha um dia. Estavam lançadas todas as condições para as pessoas ficarem muito nervosas, muito tensas – e isso não aconteceu. Mas o mérito não é só meu. Deram-me uma câmara que não era assim tão extraordinária e eu estava sozinha. As pessoas esqueciam-se da câmara e tocavam-me. Estava a filmar e elas vinham mexer-me no braço – venha comer! Chegaram a enfiar-me marmelada na boca [risos]. Acho que também se está a falar desta minha relação com as pessoas. Isto é real.

 

Essa vontade se imiscuir e desaparecer no cenário é também o que procura quando prepara uma personagem – como quando se mudou para Bairro Padre Cruz para fazer "Sangue do Meu Sangue" ou percorreu mais de 400 quilómetros para filmar "Fátima"?

Anabela: Não sei. É esta minha vontade de não ser só eu. E de muitas vezes não saber sequer quem eu sou. Mas eu sou mesmo feliz ao pé das pessoas. É uma característica minha, não sei se é uma entrega... É uma disponibilidade, talvez. Faz parte da minha pessoa e não de nenhum método. Costumo dizer que tenho a felicidade de já ter estado a tomar conta de vacas barrosãs, já cuidei de um porco, já fui à pesca, já estive na lota, vivi no bairro Padre Cruz, já fui cabeleireira, já estive num convento. Tenho orgulho em ter estas experiências como experiências minhas, que me alteraram, que me vão dando alguma coisa.

 

Na próxima semana, assinalam-se 45 anos sobre o 25 de Abril. Aos olhos de quem nasceu já em democracia, que revoluções que continuam por fazer?

 Margarida: Todas. Só podemos evoluir enquanto espécie, ou a nível individual, depois de aceitarmos quem somos e o que somos. O ser humano está ainda muito distante daquilo que é. Podemos fazer todas as revoluções, podemos erguer todas as bandeiras, mas enquanto o ser humano não se encarar de frente vamos estar sempre a tapar e a esconder defeitos e a vermo-nos em algo que não somos. O ser humano ganharia muito se fosse analisado do ponto de vista antropológico, como o animal que é, com as características que tem. Só a partir daí é que poderá evoluir, a todos os níveis, quer estejamos a falar de homofobia, de questões de género, de racismo... O ser humano deveria ser analisado sob o ponto de vista antropológico e falta fazer isso, falta retirar-lhe a moralidade. Mas esta revolução, se calhar, nem daqui a 500 anos.
Anabela: Chamar animal a alguém é uma ofensa e não deveria ser. Somos animais e emoções, ponto final. E quando alguém descrever um ser humano como se estivesse a descrever outro animal qualquer, dizendo que somos animais territoriais e temos este ou aquele comportamento, se calhar vamos deixar de moralizar o comportamento e passar para outro patamar. Qual é o comportamento que gostaríamos de ter como sociedade? Como é que podemos controlar este comportamento? Um dos casos mais gritantes é a sexualidade. Está tudo fora do seu percurso natural. Dessexualizámos ao máximo a nossa sociedade, e a verdade é que se fala cada vez mais de abusos sexuais e de assédio sexual…

Vemos tudo como algo que queremos contornar, que queremos que não se perpetue e não aconteça, mas não vai deixar de acontecer só porque falamos dele. Um exemplo muito clássico: o homem tem dois pontos erógenos muito importantes para ativar o orgasmo, um deles é o pénis, outro é no ânus. Mas isto é visto como "ah, que horror, agora estamos aqui a falar disto...". Esta é a nossa neurose. Quando eu estava a estudar esta parte da anatomia, muitas vezes pensava: o homem tem um dos maiores órgãos de prazer localizado no ânus. Supostamente, a natureza não erra, as coisas têm um sentido. Então, para que é que estamos a rotular a sexualidade entre homens como algo tão escabroso se a própria natureza permitiu, ou previu ou facilitou, que o ato sexual entre dois homens fosse prazeroso?

 

O feminismo hoje defende muitas causas que estão perto do femismo. Margarida

 

As questões de género são hoje quase incontornáveis. A discriminação das mulheres continua a ser uma realidade?

 Margarida: Há muitas revoluções em falta pelo mundo fora, onde de facto as mulheres e alguns homens são discriminados, não só em questões de género. Existe muito a fazer, claro. Mas – e eu vou dizer isto da maneira o mais carinhosa que conseguir – o feminismo hoje defende muitas causas que estão perto do femismo. Não me revejo em algumas bandeiras e, se calhar isto vai soar mal, mas na verdade até me envergonham algumas bandeiras. Vejo-me como igual. Aliás, não me vejo como igual, nem defendo igualdade. Eu sou igual. Ponto.

Nós podemos ser aquilo que quisermos. anabela

 

Movimentos como o #metoo podem ter um efeito perverso? Há discriminação no mundo do cinema?

 Margarida: Sim, fragilizam e muito. Eu nunca me senti discriminada e, se algum dia fui julgada por ser mulher, o julgamento cabe a quem tece o julgamento. Porque eu estou num país livre e aquilo só me magoa ou ofende se for verdade ou se me tocar. Se o protagonista masculino do filme ganha mais do que eu, tenho de perceber primeiro: começou antes de mim? É melhor naquilo do que eu…? Há muitas variáveis a considerar, não se pode partir logo do pressuposto que é machismo. Agora, se é porque a mulher pode não ser tão rentável por poder vir a ser mãe...
Anabela: Como atriz e realizadora, nunca senti machismo. Se calhar, quando comecei, senti desconfiança. Ouvia dizer que por ser bonita, por ser isto ou aquilo, não poderia fazer determinado tipo de personagens. Ai, não posso? Querem ver eu a ficar muito, muito feia e mesmo, mesmo, muito disforme? Foi o que fiz no "Mal Nascida". Nós podemos ser aquilo que quisermos. Engordei 25 quilos, deixei crescer o buço e pintei-o, fiz uma série de coisas para que nunca me dissessem "não és capaz". Sou capaz, sim. E não é por ser mulher ou por ser mais alta ou por ter traços mais franceses que eu não posso fazer determinado tipo de coisas.
Margarida: A nossa avó paterna, Nazaré Alves – que era uma espécie de matriarca, uma luz que guiava e orientava –, foi muito inspiradora para nós.
Anabela: O meu avô não queria que as filhas fossem estudar e a minha avó respondeu-lhe: se elas não forem, os teus filhos também não vão. Foram todos. E assim que as filhas acabaram, comprou uma máquina de costura para cada uma. A preocupação dela era torná-las independentes.


 

Foi uma pequena grande revolução.

Anabela: Sim. Eu acho que as "grandes pequenas" revoluções fazem-se dentro do nosso círculo próximo – é nessa luta que eu estou. Nas outras, às vezes tenho alguma dificuldade em encontrar um movimento em que me sinta absolutamente confortável.
Margarida: A nossa avó era uma mulher de negócios. Vivia na Simantorta, ao pé de Alvares, nas Beiras. Era filha de um empresário, que tinha ovelhas, tinha peles, gado, azeitona, azeite – um homem que, quando soube que lhe nascera uma menina, andou lá perdido pelos montes a dizer que lhe tinha acontecido a maior desgraça. Depois, ela tornou-se a maior aliada dele e a ligação era de tal maneira forte que, quando ela casou, ele enlouqueceu.

 

Que recordações vos deixa essa avó?

Anabela: Lembro-me de uma coisa que a nossa avó dizia muitas vezes: é tudo deste mundo. Não havia nada que pudesse chocar. Ela era uma mulher que trabalhava no campo e tinha esta noção de que tudo era natural, tudo era normal, fossem as coisas boas, fossem as coisas más. Lembro-me de um dia a ouvir contar que havia uma ancestral nossa que, para poder dar de comer aos filhos, ia ter com os homens que trabalhavam na linha férrea. Falou disto com a maior naturalidade. É tudo deste mundo.


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