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Gripe “espanhola”, uma pandemia esquecida e desigual

Apontada como um dos maiores desastres demográficos de Portugal, a gripe pneumónica de 1918, conhecida também como “gripe espanhola”, não atingiu todos da mesma forma. “Ninguém estava a salvo do vírus, mas alguns podiam proteger-se mais. Tal como agora”, sublinha ao Negócios o historiador José Manuel Sobral.

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Lúcia Crespo lcrespo@negocios.pt 25 de Abril de 2020 às 21:00
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Em 1918, o navio "Moçambique" trazia 952 passageiros, militares e civis, da antiga colónia para Portugal. Os passageiros viajavam em quatro classes. A mortalidade na 4.ª classe, na qual se encontravam mais de 500 soldados, foi superior a 30%. Nas restantes, em que viajavam sargentos, oficiais e civis, foi de 7,2%. Facto revelador: não se registou qualquer óbito entre os oficiais.

O episódio foi contado no relatório da gripe de junho de 1918 pelo médico Ricardo Jorge, então comissário-geral do governo na luta contra a epidemia, e é recordado pelo historiador José Manuel Sobral num dos capítulos do livro "Centenário da Gripe Pneumónica: A Pandemia em Retrospetiva", uma obra coordenada por Helena da Silva, Rui M. Pereira e Filomena Bandeira.

"Também se constatou que a mortalidade foi comparativamente menor nos centros urbanos de Lisboa e do Porto, onde havia maiores recursos médicos e sanitários do que no resto do continente, basicamente rural - e mais pobre", salienta o autor no capítulo "Catástrofe e silêncio: a epidemia da Pneumónica em Portugal no seu tempo e no espaço da recordação".

"Portanto, já na altura, a epidemia atingia em muito maior proporção aqueles que estavam mais expostos e os mais pobres. Ninguém estava a salvo do vírus, mas alguns podiam proteger-se mais. Tal como agora", sublinha, em entrevista ao Negócios, José Manuel Sobral, que é também investigador do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa. "Ricardo Jorge não tinha dúvidas: os mais pobres pagam a pior fatia da crise. Os vírus não atingem toda a gente da mesma forma".

A gripe pneumónica desenrolou-se em três vagas, e Portugal não foi exceção. Segundo o historiador, o primeiro surto eclodiu na primavera de 1918 e manifestou-se sobretudo entre trabalhadores alentejanos que tinham participado em trabalhos sazonais em Espanha. A epidemia expandiu-se depois para outros pontos do país, como Lisboa e Porto; teve o seu ápice em junho de 1918 e foi relativamente benigna.

A segunda vaga foi muito mais letal. "Emergiu em agosto na zona do Porto, irradiando para o Minho e para o Douro, aparecendo também no centro do país. A partir de setembro, expandiu-se para o sul, até alcançar o Algarve. Esta segunda vaga foi particularmente mortífera, manifestando-se com uma violência sem paralelo, tanto em relação a outras epidemias a que o país estava habituado, como relativamente a surtos graves de ‘influenza’ anteriores, como o de 1889- 1890", traça o historiador". Uma terceira vaga viria ainda a ocorrer em maio e junho de 1919, sem o carácter devastador da anterior.

 

Um desastre demográfico

De acordo com estatísticas oficiais, enumeradas na obra "Centenário da Gripe Pneumónica: A Pandemia em Retrospetiva", terão morrido em Portugal perto de 56 mil pessoas apenas em 1918, a que acresceriam um pouco mais de 3 mil em 1919. "No entanto, se se tivesse em conta o excesso de mortes provocado por doenças infeciosas habituais do aparelho respiratório, que incidiam agora sobre organismos enfraquecidos ou por causas desconhecidas, admitia-se que tivessem morrido bem mais de 100 mil. Recentemente, o demógrafo Leston Bandeira apontou para mais de 130 mil", escreve José Manuel Sobral.

"A mortalidade em Portugal terá sido das mais elevadas da Europa, superior à de países com mortalidade elevada, como Espanha e Itália. O seu impacto sobre a demografia foi enorme, com uma subida fortíssima da mortalidade e um declínio da natalidade", sublinha o investigador.

A "gripe espanhola" foi um grande desastre demográfico no país e há quem defenda que foi o maior desastre demográfico na história da Humanidade. "Estamos a falar em cálculos, por baixo, entre 20 a 30 milhões de mortos. Mas podem ter sido 50, 100 milhões ou mesmo mais", frisa.

"Nenhuma outra doença causou tantas vítimas mortais em tão pouco tempo como a gripe pneumónica de l9l8-1919, que afetou o mundo, já massacrado pela guerra, manifestando-se em três vagas coincidentes com os derradeiros confrontos militares (a partir de março de 1918), seguidos do Armistício (novembro) e das negociações para a paz (primeiros meses de l919). Nenhum dos conflitos bélicos deflagrados no século XX que envolveram nações à escala mundial e surpreenderam pela devastação, provocou tantos óbitos", lê-se na introdução da obra alusiva ao centenário da Pneumónica.

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