Weekend Isto é do piorio

Isto é do piorio

São dez peças. São as piores de sempre. A história – ou os humanos que a fazem - tende a olhar para o teatro português como um parente pobre das artes. Nunca tivemos um Shakespeare ou um Molière, é verdade. Mas será que isso realmente interessa quando os Teatro Praga se juntam para “celebrar o mau”?
Isto é do piorio
Wilson Ledo 04 de novembro de 2018 às 19:00
"Worst of"
O novo espectáculo dos Teatro Praga está no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, até 18 de Novembro. Com Cláudia Jardim, Diogo Bento, Márcia Breia, Patrícia da Silva, Pedro Penim, Rogério Samora, São José Correia e Vítor Silva Costa. Ruma ao Porto e a Faro no próximo ano.


"Faz favor de entrar. Vou já chamar a senhora, que está a acabar de almoçar…" É Conceição quem faz as honras da casa. Conceição, a criada, porque nesses tempos o termo ainda se usava. Fala-se de "A Maluquinha de Arroios", senhores. Nunca desconfiaria a desbocada Conceição o carimbo que a peça de André Brun haveria de ganhar: uma das piores do teatro português.

Sim, leu bem: das piores. É palavra de honra, é palavra de Teatro Praga. Neste "top" 10 do piorio teatral português, o adjectivo não vive da carga negativa, mas antes do potencial de celebração que pode transportar. Se festejamos sempre o melhor, porque não inverter a lógica e aplaudir também o pior? "Worst of" é isso mesmo: uma celebração do mau.

"Há uma ideia generalizada de que o teatro português não é muito interessante nem bom. Não tem autores, peças, referencial ou densidade. Ao contrário da literatura, o teatro português aparece como um parente pobre", explica Pedro Penim, um dos membros da companhia. Tão pobre que hoje ainda paga as dívidas do passado. Nele, ainda não se encontrou alguém digno de comparação a Shakespeare ou Molière. A Almeida Garrett ou Gil Vicente faltou-lhes sempre o reconhecimento internacional.

A ideia surgiu em 2006 e o espectáculo até chegou a estar agendado para o Teatro Nacional D. Maria II. "Na altura não era mais do que um título e poucas linhas", relembra o criador ao telefone. A direcção do teatro mudou e "Worst Of" foi cancelado. Parecia ter ficado pelo caminho: "Não voltámos a pensar no espectáculo nestes 12 anos. Ficou um pouco congelado no tempo." Até que Tiago Rodrigues, que agora assume as lides do D. Maria II, propôs aos Praga voltar à Sala Garrett depois de "Tropa Fandanga". A carta-branca acabou por se escrever com as linhas de um passado ainda por concretizar.

A proposta de refazer um texto de repertório clássico misturou-se com "uma vontade de reflexão sobre a herança teatral portuguesa". Um exercício que não deixa de questionar o próprio lugar dos Teatro Praga nesta linha do tempo, sobretudo quando muitas são as vozes que procuram encaixá-los nas (não por isso menos honrosas) gavetinhas do "para-teatral" ou do "teatro pós-dramático".

E drama há muito por estes lados, desenganem-se os menos susceptíveis. Bastam os títulos das peças escolhidas pelo grupo para o confirmar. "Frei Luís de Sousa", "Felizmente Há Luar!", "Fígados de Tigre", "O Lodo", "Português, Escritor, 45 Anos de Idade". Ainda não lhe chega? Então junte "Teatro Novo", "A Maluquinha de Arroios", "A Ceia dos Cardeais" e "Monólogo do Vaqueiro". Com a garantia de que não há falsas modéstias: o próprio "Worst Of" termina a lista dos piores espectáculos de sempre em Portugal. "Se é mau, se é considerado anacrónico, se há um atraso em relação a outras artes", então tem lugar neste espectáculo.

O elenco apresenta-se dividido em duas partes complementares: os membros do Teatro Praga a interpretarem as peças antigas e os actores convidados (Márcia Breia, Rogério Samora, São José Correia e Vítor Silva Costa) a trazerem o lado mais crítico e (des)construtivo a que o grupo já habituou o público nos últimos anos. "Esses actores fazem a parte dos Praga e dizem o que seriamos nós a trazer. Precisávamos de pessoas que tivessem reconhecimento público mas com carreira teatral", justifica Pedro Penim.

Neste quadro geral do teatro português, procura-se ir à matriz, ser-se fiel ao modo como as peças eram apresentadas no seu tempo. Cronologias e estéticas diferentes que se cruzam em palco e que, no trabalho de preparação, obrigaram a longas pesquisas para apurar os gestos, as entoações, o mobiliário ou os figurinos.

"Tentámos fazer uma espécie de suspensão crítica", resume o criador. Agora vamos lá ver se eles se saem tão mal como apregoam.



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