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Neste Natal, oferecer livros será mais caro

Para muitos portugueses, oferecer livros no Natal é uma tradição. A época é muito importante para o setor, porque representa cerca de metade das vendas do total do ano. Mas com a quebra do poder de compra das famílias e o aumento dos preços dos livros - devido a uma forte subida dos custos de produção -, os operadores já sentem uma retração no consumo. Sem medidas de incentivo do Governo à compra de livros e à leitura, 2023 será muito difícil, antecipam.
Filipa Lino 26 de Novembro de 2022 às 12:00

Estão a chegar às prateleiras das livrarias os livros que as editoras guardaram para lançar como grandes apostas para a época do Natal. Este período é vivido com particular entusiasmo pelo setor porque se trata da chamada "época alta" do livro.

 

Tipicamente, entre outubro e dezembro, as vendas representam entre 50% e 60% do total do ano por causa do mercado das prendas. "Portugal é o segundo país da Europa que tem o maior peso sazonal do Natal nas vendas de livros, logo a seguir à Grécia", aponta Pedro Sobral, presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL).

 

O ano 2022 até estava a correr bem. Os dados da empresa de estudos de mercado GfK, referentes ao período entre janeiro e outubro, revelam que o setor cresceu 20% face ao mesmo período do ano passado, tendo movimentado quase 132,5 milhões de euros. O preço médio dos livros fixou-se nos 13,56 euros, o que significa um aumento de 3,5% em termos homólogos.

 

Mas esta subida nas vendas não corresponde a um crescimento do mercado, esclarece o presidente da APEL. É antes "uma recuperação daquilo que foi perdido nos dois anos de pandemia".

 

A trajetória de crescimento foi entretanto interrompida, há cerca de três semanas. Pedro Sobral acredita que essa quebra nas vendas é já uma consequência da diminuição do poder de compra das famílias. "O livro está bastante dependente da evolução do índice de consumo privado que, a partir de setembro/outubro, fruto da inflação e também da subida abrupta das taxas de juro, sofreu um abrandamento."

 

Por esse motivo, as expectativas para este Natal são agora mais cautelosas. "Se até há três semanas eu podia dizer com muita confiança que ia ser um bom Natal para os editores e os escritores, neste momento já não o digo com tanta certeza. Vamos ver como é que o consumo privado vai evoluir e se os portugueses vão escolher oferecer livros."

 

A subida dos custos de produção

 

Ao facto de muitas famílias terem agora menos rendimento disponível junta-se uma outra agravante – o preço dos livros subiu. Pedro Sobral explica que os editores estão muito pressionados pelo lado dos custos. "Estamos a falar do papel, das cartolinas, das tintas, das colas, mas também dos serviços de gráfica e de todos os restantes serviços adjacentes. Toda a estrutura de custos aumentou substancialmente."

 

Só este ano, o papel teve um aumento médio na ordem dos 50% e, "mantendo-se as mesmas condições que temos agora – a guerra na Ucrânia e a disrupção das cadeias logísticas –, no final do próximo ano deverá aumentar outro tanto. Contudo, apesar de o livro "não ter uma margem muito grande", os editores não estão já a fazer refletir nos preços a totalidade do agravamento dos custos. O que significa que "estão a absorver esse aumento". A questão que se coloca é se para o ano terão ainda essa capacidade.

 

"Temos de ser cuidadosos", afirma Teresa Matos, diretora editorial do Clube do Autor. Isto porque estamos a falar de "um bem cultural sensível que tem hoje muitas ameaças". Um forte aumento dos preços poderia "afastar as pessoas" dos livros.

 

As obras com tiragens menores e com maior número de páginas acabam por ser as mais impactadas. "Nalguns casos tivemos mesmo de adiar algumas edições e reedições, porque iriam chegar ao mercado a um preço que consideramos proibitivo".

 

Também a Porto Editora está a fazer contas. Mas, para já, ainda não avançou para uma subida generalizada dos preços de venda ao público. O grupo "tem reavaliado permanentemente esta situação, de forma a prognosticar necessidades e antever diferentes cenários", diz Joana Branco, responsável pelo gabinete de comunicação do grupo editorial.

 

Em busca de soluções

 

A APEL fez várias propostas ao Governo para dinamizar a venda de livros e promover a leitura em Portugal no próximo ano. Entre elas, a criação de um "cheque-livro", que consistiria na "atribuição de 100 euros a cada jovem que habite em Portugal, para gastar em livros". Outra proposta foi reduzir o IVA dos livros dos atuais 6% para 0%, de modo a permitir "um alívio da pressão de custos sem que os preços aumentem muito para o consumidor".

 

E, por fim, a associação sugeriu ao Ministério da Cultura o reforço do orçamento das bibliotecas públicas para aquisição de livros. Nenhuma destas medidas foi incluída no Orçamento do Estado para 2023. Mas Pedro Sobral garante que "existe uma linha de diálogo muito profícua" entre a APEL e a tutela. "Estamos a trabalhar ativamente com o Ministério da Cultura para encontrar medidas que possam ajudar na procura e na compra de livros." Medidas essas que podem ou não estar contempladas no Orçamento.

 

Contactado pelo Negócios, o gabinete do ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, confirma que "está a dialogar com os diversos agentes do setor na procura de soluções que permitam dinamizar as diversas áreas ligadas a esta atividade". E garante que "o Orçamento do Estado para 2023 prevê um conjunto de medidas na área do livro, com impacto nas diversas atividades ligadas à cadeia do livro, como os autores, as editoras e as livrarias".

 

Entre essas medidas está o programa de bolsas de criação literária e, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), constam diversas linhas de apoio na área do livro e das bibliotecas. O Governo refere ainda que "mantém uma aposta significativa na internacionalização dos autores de língua portuguesa".

 

Apesar de tudo, o setor está a olhar para 2023 com preocupação. "Será um ano muito difícil", antecipa o presidente da APEL. "Vamos estar perante um cenário macroeconómico de uma enorme complexidade", e isso será "um grande desafio para os editores". Teresa Matos, diretora editorial do Clube do Autor, também teme que o mercado se possa contrair, "especialmente nos segmentos mais sensíveis ao fator preço". Se isso acontecer, diz, "seremos forçados a diminuir a nossa produção e a evitar edições menos populares".

 

Uma das razões que fazem o presidente da APEL manter algum otimismo é o facto de, dentro do mercado de entretenimento e de ocupação de tempos livres, o livro "ser uma opção barata e duradoura", que acaba por ter uma relação custo-benefício melhor em comparação com outras situações "como viagens, idas a restaurantes, ao cinema ou até com a compra de um jogo ou de uma consola".

 

Joana Branco, da Porto Editora, acrescenta ainda que os dados dos últimos anos, nomeadamente os referentes ao período do confinamento, "mostram-nos que a leitura é, muitas vezes, utilizada como um ‘escape’ e como ferramenta de desenvolvimento pessoal e profissional". Por outro lado, "existe uma nova geração de leitores muito entusiasmada com várias obras" que chegaram às livrarias.

 

Pedro Sobral confirma que "quem está a comprar mais livros são as gerações mais novas". De facto, "as categorias que estão a mostrar maior dinamismo são a novela gráfica, a manga, a BD ou as chamadas ‘TikTok novels’, que são livros divulgados nesta rede social sobre, por exemplo, temáticas LGBT ou ‘bullying’". Uma tendência que já se tinha percebido na Feira do Livro de Lisboa e que traz alguma esperança para o comportamento do mercado no próximo ano.

 

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