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Tiago Cadete: O corpo brasileiro está a questionar a forma como foi olhado pelos outros

Tiago Cadete estudou dança. Mudou-se para o Brasil, regressou a Portugal, vai voltar para o Rio. “Eu vou enfrentar o que é esse Brasil agora”. Criou um espectáculo, Alla Prima, que está na Rua das Gaivotas, em Lisboa

Miguel Baltazar
Susana Moreira Marques 29 de Julho de 2016 às 15:00
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É sempre difícil saber de onde vêm os clichés. Também não é fácil perceber como desconstruí-los. Tiago Cadete pegou na ideia de corpo e de identidade, e de como a identidade do corpo brasileiro está ainda tão marcada pelo olhar do outro: do europeu, do colonizador. Criou um espectáculo, "Alla Prima", que está hoje e amanhã na Rua das Gaivotas, em Lisboa, e no dia 6 no festival Citemor, em Montemor-o-Velho. Tiago Cadete mudou-se para o Brasil quando atravessou um período sem trabalho em Portugal e concorreu a uma bolsa para estudar no Rio de Janeiro. Estudou dança, e agora está a fazer um mestrado em artes visuais. Tinha começado por estudar teatro em Lisboa. Descobriu que era mais interessante ter uma trilogia em palco: teatro, dança e imagem como pontos que se unem. Vai voltar para o Rio. Não é o mesmo Rio para o qual se mudou há três anos, mas não queria ser o tipo que abandona o barco quando começa a correr mal. E mesmo quando corre mal, há sempre tanta gente que corre bem.


1. Este espectáculo, o "Alla Prima", é quase um trabalho "site-specific" do lugar onde tenho vivido nos últimos três anos: o Rio de Janeiro. Toda a influência de imagens, de textos, foi-me chegando por uma vivência no espaço. Comecei a pensar como é que poderia explorar, acima de tudo, imagens que estão associadas a uma ideia de Brasil. Ou como é que um olhar exterior conseguiu criar uma identidade do que é o Brasil. Comecei a fazer investigação em museus. Na produção de imagens do século XIX, vê-se a história toda do Brasil: episódios da escravatura, episódios sociais, os príncipes e os reis, a negritude, o indígena, a mestiçagem. Interessava-me pensar como é que podemos olhar para essas imagens hoje.

Fiz também uma recolha de textos, que aparecem num dos momentos do espectáculo, entre eles a carta do Pêro Vaz de Caminha, que é icónica. Curiosamente, essa carta só foi descoberta mais tarde. Há uma teoria que diz que os portugueses não produziam demasiada informação sobre o Brasil, não por ignorância, mas por saberem que tinham uma pedra preciosa e que quanto menos a divulgassem por essa Europa fora, menos pessoas iriam tentar ir lá roubar aquilo que eles, de alguma forma, já estavam a roubar.

2. Pergunto-me muito como é que se criam os clichés. Os clichés não vêm do nada.
Realmente, o Brasil é violento, mas as pessoas acham que vão ser assaltadas a toda a hora e não é verdade. As pessoas imaginam que é como se fosse Carnaval o ano todo, mas não é assim. Há pessoas que acham que o Brasil não tem louros, mas há até japoneses, o "melting pot" é ali mesmo.

Acho que já há um esforço em Portugal para nos actualizarmos em relação ao Brasil. Há muitos artistas que vão e vêm e trazem outra perspectiva. Acho que hoje as pessoas têm uma visão mais clara do Brasil, mas não sei se positiva, com toda esta história de a Dilma estar a ser julgada por uma coisa que, em princípio, não aconteceu, com o facto de haver este golpe de Estado, que, sim, é um golpe. Não houve uma manutenção do país, mas sim uma imposição de uma nova visão do país. A Dilma agora está a ser julgada, mas pode voltar a ser Presidente. Tudo isto cria uma instabilidade e um descrédito em relação ao país. E o Brasil precisa, tanto quanto Portugal e outros países, de passar no exterior uma imagem boa, positiva. É muito grave porque quem sofre com isso são os brasileiros, são as pessoas que vivem lá.

3. No último ano do meu curso na Escola Superior de Teatro e Cinema, o [coreógrafo] Francisco Camacho foi convidado para fazer connosco o exercício final, para ser apresentado na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II. O Francisco olhou para mim e entendeu que, além de apetências para um teatro de texto, em que a personagem é pensada através do texto, eu tinha qualquer coisa ao nível do corpo que a ele lhe interessava que eu explorasse. Passado pouco tempo, convidou-me para trabalhar com ele e a partir daí fiz um caminho que mistura teatro, dança, e também artes visuais.
Fui para o Brasil para fazer uma pós-graduação em dança. Decidi concorrer a uma bolsa para ir para o Rio de Janeiro numa época em que fiquei quatro meses sem trabalho. Durante vários anos trabalhei demais para me sustentar e depois, de repente, deparei-me com quatro meses em que não tinha trabalho e foi muito difícil. Eu tinha formação em teatro, mas tinha passado já vários anos a trabalhar em dança e queria especializar-me um pouco mais.

Depois, quando terminei a pós-graduação em dança, inscrevi-me num mestrado em artes visuais, que estou a fazer agora na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Não com a intenção de fechar um ciclo de formação, mas com a intenção de continuar a pensar este triângulo entre o teatro, a dança e as artes visuais. É o que me interessa trabalhar.

4. Vou voltar para o Rio de Janeiro logo depois das Olimpíadas. Às vezes, penso que vai ser difícil voltar com o que se passa agora e depois de ter estado na Europa vários meses, mas depois penso que não posso descartar aquele país, como se tivesse ido só porque na altura era moda.... Eu vou enfrentar o que é esse Brasil agora. Não quero sentir que o meu tempo lá foi uma coisa de saque.

Eu fiz este espectáculo e agora quero devolvê-lo, mostrá-lo lá e debatê-lo com as pessoas de lá.

O corpo brasileiro está a questionar a forma como foi olhado e construído pelos outros. Ele está a querer ter o seu ponto de vista sobre o Brasil e sobre a sociedade. Está a querer ter as suas regras. Neste momento, no Brasil, existe uma dinâmica muito interessante. Existem muitos movimentos sociais, movimentos feministas, uma vaga enorme de defesa de direitos LGBTQ. Tudo isso é fascinante e é muito bonito de ver.

5. O Estado do Rio de Janeiro está em recessão, está em estado de emergência. Há uma sensação de haver uma espécie de relógio-bomba a contar para os dias que começam com os Jogos Olímpicos.

É estranho como é que um atleta consegue pensar que vai para um espaço como se fosse uma nave espacial. Aquela Vila Olímpica é tipo uma nave espacial que caiu ali. E caiu em pessoas que têm uma vida precária, muito mais precária do que aquilo que nós achamos que é precário. São pessoas que, se calhar, se safam porque têm uma mini-horta, têm umas árvores que dão frutos. Se calhar tomam banho só de água fria, mas tomam banho. Têm uma forma de viver diferente da nossa.

Os Jogos Olímpicos são uma espécie de invasão. Disseram que ia trazer benefícios para a população, mas as pessoas não estão a ver isso. O que é vai ficar? Os Jogos Olímpicos até podiam ser como um "alien", mas um "alien" que trouxesse coisas boas. 
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