O que há de novo nos azeites

O Douro teima em ser reconhecido como região demarcada para a produção de azeite. Paciência. O importante é que os agricultores insistem em cuidar dos seus olivais. Os concursos nacionais e internacionais agradecem. Aqui ficam três novidades
Jornal de Negócios
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Edgardo Pacheco 04 de agosto de 2018 às 13:00

O Casa Afonso Borges custará entre 12€ e 13€.
O Zabodez, 14€ e o Quinta do Portal 12,5€.
Se dividirmos uma garrafa de meio litro por 25 utilizações, cada vez que usarmos estes azeites de qualidade gastamos à volta de 50 cêntimos por refeição. Donde, o azeite é caro?
O território do país que mais surpreende pela dinâmica de produção e pela qualidade final dos seus azeites - aferida em concursos nacionais e internacionais - é o Douro. E, todavia, estamos perante um terroir que tarda em ver reconhecida essa qualidade excepcional numa Indicação Geográfica Protegida (IGP). Quem conheça o país, o seu emaranhado burocrático e os pequenos interesses que nascem atrás de cada fraga não se espantará muito, mas quem anda há vários anos a provar azeites do Douro e a desenhar mentalmente um mapa do perfil dos azeites da região entre Baião e Barca d´Alva só pode sentir uma certa azia pelo facto de, como de costume, não estarmos à altura de valorizar um produto nobre.
E o curioso é que todos os agentes do Douro concordam que - vinho do Porto e DOC Douro à parte - este é um território com aptidão para produzir bens alimentares únicos e ricos de sabor. Mas, por causa desse desporto nacional que é o encolhimento de ombros, chuta-se para canto. Nisso, somos campeões. O azeite é bom? Mas é claro que sim, que pergunta. E o tomate coração de boi? Ora essa, rico, aveludado e cheio daquela doçura viciante? E o figo pingo de mel? Esse até arrepia. E as amêndoas? Coisas que encantariam qualquer chefe em qualquer parte do mundo. Ia falar das laranjas, mas fico-me por aqui.
Perante inúmeros tratados académicos sobre a promoção integrada das produções primárias dos produtos de excelência dos territórios continuamos a olhar para o Douro apenas como destino de vinho e paisagem. Ponto final. Na Régua já temos, e bem, lojas especializadas em vinhos, mas, vamos agora imaginar que algum turista queira fazer uma prova de azeites do Douro num único espaço. Pois, é o fazias. Vai ter de ir ao Google sacar os prémios que alguns produtores receberam nos últimos tempos e, depois, ir de quinta em quinta comprar garrafas, o que, não sendo necessariamente mau, nem sempre é prático quando o tempo é curto. De resto, nem se percebe por que razão as lojas de vinhos não promovem provas de azeite. Não são estes dois produtos nobres da cultura gastronómica mediterrânica?
Ora, enquanto tal não acontece, apresentemos hoje três novos azeites do Douro: O Casa Afonso Borges Primis, o Zabodez e o Quinta do Portal. O primeiro é feito pela Agrifiba, um novo lagar instalado no Regia Parque Douro, em Vila Real, que começou a laborar na colheita passada. O seu proprietário, Ivo Borges, não é um especialista em azeite, mas teve rasgo para criar um lagar com tecnologia de ponta, capaz de receber chefes que queiram fazer experiências com os azeites aqui produzidos (coisa raríssima cá na pátria), azeites que ou resultam da compra de azeitonas a olivicultores do Douro/Trás-os-Montes ou resultam da laboração de azeitonas de pequenas quintas vinhateiras do Douro e que serão posteriormente engarrafas com a chancela dessas mesmas quintas. A meter literalmente a mão na massa está João Azeredo, o jovem técnico que começou neste mundo do azeite ao lado de Francisco Pavão - homem que meteu o Douro e Trás-os-Montes na rota mundial dos azeites de excelência.
Logo no primeiro ano João Azeredo consegui criar azeites destinados às medalhas, a começar pelo Casa Afonso Borges Primis, que é uma homenagem de Ivo Borges ao pai. Com uma medalha de ouro no Concurso Nacional dos Azeites de Portugal, aqui vamos sentir, curiosamente, algumas notas mais associadas a Trás-os-Montes do que ao Douro, coisa que acontece à medida que subimos o rio em direção a nordeste. Donde, aromas de folha de oliveira verde, casca de amêndoa verde e alguma rama de tomate verde, com um amargo pronunciado e um picante moderado. Bem feito e a pedir uma carne grelhada de cabrito.
Feito no mesmo lagar temos o Zabodez, que é o nome de um rio que passa junto à Quinta dos Lagares (Vale de Mendiz, próximo do Pinhão). Pedro Lencart e Isabel Sarmento tratam de um projecto de vinho que tem associado cerca de 12 hectares de olival com variedades que nunca mais acabam. E é justamente por isso que temos um azeite com complexidade aromática, que tanto nos leva para a maçã como para amêndoa amarga e demais ervas aromáticas. Na boca, um azeite mais tranquilo do que o Casa Afonso Borges, mas harmonioso. Este azeite que ganhou uma medalha de ouro em Nova Iorque fica bem a temperar um arroz de pato devidamente tostado.
O Quinta do Portal é outra novidade que vinca bem o perfil duriense, visto que além das folhas de oliveiras verdes detectamos frutos secos verdes, casca de banana verde (dá sempre muita elegância), erva cortada e especiarias doces. Na boca ficamos com a sensação de termos comido nozes. É um fantástico azeite de estreia, neste caso feito por Francisco Pavão, autor de dezenas de azeites medalhados no norte do país. Aliás, se lhe colocassem ao pescoço todas as medalhas que ganha num só ano era capaz de ficar com as costas em estado deplorável.
De maneira que se os nossos leitores quiserem perceber quanto vale o Douro em matéria de azeites, faça o favor de se servir.

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