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O cachimbo da paz

“O que faria eu se estivesse no meu lugar?” é um conjunto de 10 conversas que o subdirector do Negócios, Celso Filipe, teve com o escritor António Lobo Antunes. O livro é uma espécie de cachimbo da paz, depois uma conversa dura que os dois tiveram ao telefone por causa de uma entrevista.

Filipa Lino flino@negocios.pt 24 de Fevereiro de 2017 às 12:00
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Celso Filipe
O que eu faria se estivesse no meu lugar?
Planeta
223 páginas, 2017


Este livro nasceu com uma zanga. A história é contada logo nas primeiras páginas. António Lobo Antunes ficou furioso com o título de chamada na primeira página de uma entrevista que deu ao Negócios em Janeiro de 2016. Celso Filipe, um dos entrevistadores, ouviu palavras duras ao telefone. Nesse mesmo dia, o escritor voltou a ligar. Desta vez para pedir desculpa. Disse que a entrevista "estava bastante boa" e propôs ao subdirector do Negócios escreverem um livro juntos. "O que faria eu se estivesse no meu lugar?" é, assim, uma espécie de cachimbo da paz. Em 10 conversas, o escritor deixa ideias sobre vários temas. Aqui ficam alguns excertos.






Eu tive dois cancros muito complicados, acho que dei muito trabalho a Santo António. Nunca lhe rezei, nunca lhe pedi nada. Sabe o que me aproximou de Deus? Foi quando comecei a ler os físicos e os matemáticos do século XX, que eram todos profundamente crentes: Einstein, Eisenberg, etc., etc. Todos eles eram homens profundamente crentes em Deus e escreveram sobre isso. Era miúdo e pensei: se eles são profundamente crentes porque é que eu hei-de ser um pateta de um ateu? O Einstein, por exemplo, dizia que sempre tinha ficado admirado por os filhos terem de Deus a ideia de uma espécie de vertebrado gasoso. Quando não é nada disto. O Deus deles não é um senhor de barbas. Para acabar, perto da morte do meu pai nunca se falou de Deus em casa. Os meus pais não iam à missa, à Igreja, a nada disso. E o meu pai era um anatomopatologista, trabalhava com cérebros. Eu perguntei-lhe: "Acredita em Deus?" Foi preciso tomar coragem, porque nunca se faziam perguntas íntimas. Ele fez um silêncio comprido e depois disse-me, sem olhar para mim: "O nada não existe em biologia."

Surdez
A surdez é horrível. O Torga, que era otorrino, tinha razão quando dizia que a surdez é pior do que a cegueira. Quando fica surdo, a sua vida de relação acaba. Um cego ainda pode falar e ouvir. Mas acho que quando fiquei surdo passei a escrever melhor. Estava mais atento ao que se passava por dentro e dispersava-me menos com o que se passava cá fora. O Celso lê o testamento do Beethoven, que é um documento espantoso sobre todos os pontos de vista - é tão amargo, tão cheio de dor, pela surdez. A surdez foi uma fonte de sofrimento imensa para ele. Imensa. (...) Faz-me sofrer muito. Far-me-á sofrer até ao fim. É horrível. (...) Porque hei-de ser um ser aleijado? Para todos os efeitos sou um aleijado. Tenho muita pena. (...) Este ouvido [o esquerdo] morreu de repente, como uma luz que se apaga. Foi horrível. O outro foi mais lento, e mesmo com aparelho oiço muito mal.







Infidelidade
Na amizade não a aceito. Sabe, o amor está ligado ao sexo e compreendo que um homem ou uma mulher possam ocasionalmente ir para a cama. Pode não me agradar, até agora não dei que isso me tivesse acontecido e talvez isso faça com que eu fale tão à vontade disso. Na amizade, não. Tive um amigo que me foi infiel, aos 30 anos, e cortei a relação por completo. Não compreendo a infidelidade na amizade.

Psiquiatria
Ninguém entra na cabeça do outro. Isso é uma ilusão que as pessoas têm, como dizer que os psiquiatras são malucos. Podem ser, alguns são desequilibrados, mas não entram dentro de ninguém. Quando são honestos, tentam ajudar as pessoas a sofrer menos, como fazem os médicos.

Felicidade
Acho que a felicidade não existe. Conhece alguém que seja feliz? Não conheço ninguém. Talvez haja alturas, como dizia o Almada [Negreiros], em que não haja mal-entendidos entre nós e a vida. A felicidade não existe. Há um provérbio árabe muito antigo: não procuremos a felicidade porque a felicidade é fumo. Não existe. Como não existe a grande infelicidade. Nunca pensei nesses termos.

Amizade
Quando conhece um homem, ou uma mulher, a corrente passa ou não passa. E há alturas em que a corrente passa e ficamos amigos de infância. De repente temos um passado juntos, por estranho que isso possa parecer. (...)
O Jorge Amado é que dizia: "Lembra-te filho que só há duas coisas no mundo que valem a pena, o amor e a amizade, o resto não vale nada." E o meu avô dizia, "um homem pode não ter dinheiro, pode não ter trabalho, pode não ter mulher, pode não ter casa, se tiver amigos nunca é pobre". (...) Tenho muito poucos amigos, mas os que tenho são a valer. (...)
A amizade masculina para mim sempre foi muito importante. Ter amigos. E infelizmente tive poucos. Gostava de homens mais velhos. Era muito amigo do Eugénio [de Andrade], o poeta. Tenho aí várias fotografias com dedicatórias dele e cartas lindas e poemas. Fez-me um poema cheio de amizade e ternura, mas é uma ternura que se manifesta sem festinhas, sem beijocas, não é preciso. Eu beijo os meus amigos quando os encontro, beijo porque sou amigo deles e porque gosto de lhes tocar.







Ingratidão
Uma vez estava a falar com um dos meus irmãos, acho que era o João, que me dizia: o defeito mais horrível que um homem pode ter é a ingratidão. Acho que tem razão. A ingratidão é um defeito horrível. Tenho muita pena dos ingratos. [Pena porquê?] Porque é um aleijão, como não ter um braço ou ser marreco, ou ser surdo como eu. Sou um aleijado. Não consigo suportar a ingratidão.

Cobardia
Há um outro defeito horrível para mim que é a cobardia. O espectáculo da cobardia é hediondo. O termo borrar de medo é verdadeiro, eu vi. [Na guerra?] Sim, em situações extremas. Mas nós, homens, somos muito mais cobardes do que as mulheres. Já viu a dignidade com que elas vivem a doença, muito maior do que a nossa. Era uma coisa que eu admirava quando estava a fazer quimioterapia, que era feita numa sala com muita gente: a dignidade e a coragem das pessoas.

Guerra
Uma guerra só é inteligível por quem esteve na guerra. Uma vez, há uns bons anos já, fui a uma reunião onde estavam veteranos do Vietname, da Coreia, da guerra da Argélia - eu estava ali com irmãos e podia falar. Com pessoas que não estiveram lá, não falo. Não falo porque não compreendem. É impossível explicar. E ainda bem que não compreendem, é sinal de que não tiveram necessidade de passar por aquilo. Porque aquilo continua sempre dentro de si. Não se desce vivo de uma cruz.







Mulheres
(...) As mulheres tornam o mundo habitável. Nós não, nós somos muito estúpidos. Como dizia a minha mãe, não há nada mais estúpido do que um homem inteligente. Ela olhava para mim: "Tanta inteligência, tanta inteligência e não te serve para nada." E tinha razão. Mas nunca falámos de livros, do meu trabalho nunca falámos. Só uma vez, quando fui receber uma condecoração a Paris, ao lado do Presidente da República, e apareci no jornal de camisola e jeans. Foi uma editora italiana que me veio dizer: "Vai lá comprar uma gravata, não podes ir assim." Mas apareceu uma fotografia qualquer num jornal português e a minha mãe ficou muito chocada: "Vão pensar que eu não te soube educar. Não tens um casaco?" (...)
Quando eu era médico no [Hospital Miguel] Bombarda, uma mulher que estivesse doente ia sempre sozinha à consulta, quando era um homem, a mulher ia sempre com ele. Nós não fazemos isto. Era raríssimo aparecer uma doente com o marido ou namorado, como era raríssimo aparecer um homem sozinho. Se calhar é por isso que elas têm os filhos e não nós. Também, se fôssemos nós a ter os filhos, a humanidade acabava num instante, porque as dores são horríveis. A minha mãe teve oito gravidezes e media um metro e meio, e era magra.

Morte
Ninguém está preparado para morrer, ninguém aceita a morte. Ninguém se liberta da lei da morte, ao contrário do que diz o Camões, com todo o respeito, admiração e orgulho que tenho em pertencer ao mesmo país e à mesma língua que ele. Não fica nada. É fantasia que nos libertamos da morte. É pateta. Simplesmente, ninguém consegue aceitar a própria morte. Dito por um amigo meu, que foi professor na Faculdade de Medicina e trabalhava no Instituto Português de Oncologia, ninguém está preparado para morrer. Nunca conheci ninguém que o estivesse. Portanto, não há imortalidade de espécie alguma.







Política
Fui candidato num lugar não elegível à Câmara de Lisboa [em 1980, integrou uma lista da APU (Aliança Povo Unido)] e jurei para nunca mais. O Partido Comunista foi uma grande desilusão para mim. Eu nunca pertenci ao partido, nem a esse nem a nenhum outro, mas claro que tenho o coração à esquerda, porque sou normal. Mas olhe: os meus dois avós eram de direita, salazaristas, e eram as pessoas mais democratas e tolerantes que eu conheci. Portanto, isso não é um apanágio da esquerda. E na esquerda que eu frequentei mais havia na altura, espero que as coisas estejam diferentes, uma intolerância total. A comunicação era vertical, a liberdade era muito pequena, foi para mim um grande desencanto.

Ser Português
O Vergílio Ferreira, de quem eu não gosto, dizia: "Da minha língua vê-se o mar." E vê-se. Tenho o maior orgulho em ser português. Não conheço ninguém que o não o tenha. (...) Somos o país mais antigo da Europa, o país mais antigo do mundo, com as mesmas fronteiras, uma só língua. Somos um dos quatro países do mundo onde todas as pessoas têm o mesmo cromossoma. Os outros são a Islândia, o Japão e mais um de que não me lembro. Somos um país único.






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