Vinhos Cinco sentidos: Aprender e rir

Cinco sentidos: Aprender e rir

Aqui não há taninos, barricas de meia tosta, aromas minerais, macerações e outras minudências. Só histórias com vinho lá dentro. Aprendemos e rimos à brava.
Cinco sentidos: Aprender e rir
Edgardo Pacheco 17 de setembro de 2016 às 12:30
Apesar dos progressos, o mercado editorial não se interessa lá muito por livros que resumam uma vida dedicada a esta ou àquela profissão a partir de escritos passados. A não ser, claro está, que o autor seja uma sumidade e/ou uma figura pública. Como João Paulo Martins cai na categoria de sumidade em matéria de vinhos (em círculo mais fechado é tratado como "Papa"), tem agora direito a uma pequena publicação de duzentas e poucas páginas, com crónicas que publicou por todo o lado desde 1989. E dizemos pequena publicação (66 crónicas) porque em 27 anos dedicados ao vinho coleccionou 450 textos, coisa que daria para engrossar outro Vinhos de Portugal – o guia que publica há décadas.

O título "Histórias com Vinho & outros condimentos" diz tudo, sendo que os condimentos se referem a uma faceta nem sempre conhecida do autor: o humor. Pelo que este é daqueles livros que ensina e põe-nos bem dispostos. Com um copo por perto e alguém para comentar as histórias, melhor ainda.

Um aprendiz de crítico de vinhos, iniciado via Facebook ou blog , tem sempre aquele desejo de "quando eu for grande quero ser como o João Paulo Martins". Ou, já agora, como o Luís Lopes. Ou, como o José Bento dos Santos. Ou, ainda, como a Maria de Lurdes Modesto. Onde é que está o problema? É que esta gente dedicou a vida ao estudo metódico dos assuntos, pelo que, por via da memória, do treino e das teses que produziram, adquiriram uma capacidade analítica inigualável. E isso dá um jeitão para se perceber o que está a acontecer hoje em matéria de vinhos, comida e assuntos adjacentes. Apanhá-los é impossível. Eu até tenho o privilégio de, volta não volta, sentar-me à mesa com eles, mas fico quase sempre com aquela sensação de que entrei num jogo a perder por 5 a zero, sendo que sou obrigado a recuperar. É o recuperavas. Uma desgraça.

Os assuntos do livro são variadíssimos. A partir da revolução que se deu no sector do vinho nos anos 70, o jornalista vai e vem no tempo. O vinho do Porto é fértil (sabia lá eu que, no início do séc. XX, o conceito de "Novidade" era o mesmo que "Vintage"), mas uma rua, um café ou as memórias do pai também dão boas histórias.

E a crónica que mais me divertiu foi publicada em 1997, na Revista de Vinhos. Por causa da popularização da internet, da ignorância dos americanos sobre Portugal e do sistema de pontuação que criaram (de zero a 100 pontos), João Paulo Martins inventou e publicou um texto sobre Portugal, atribuído a um crítico anónimo e naturalmente americano, onde escreveu coisas como estas. "Os tintos não se comparam aos nossos tintos da Califórnia (98 pontos) e os brancos são claramente inferiores aos da Nova Zelândia (90). A excepção será o vinho do Porto. Mesmo neste tipo de vinho, semelhante ao nosso Port (94), há que fazer distinções. Os ingleses consomem vintage velhos (93), enquanto os americanos optam e, bem, pelos vintage novos (95)".

Consta que houve gente que levou a coisa a sério. Um produtor ligou ao jornalista a agradecer-lhe uma nota atribuída a um vinho seu (92 pontos) e um crítico muito famoso da praça quis armar uma zaragata pública para peitar o tal americano ignorante. João Paulo Martins é que ficou "encavacado e sem coragem" para desmontar a história. Não sabemos se já se retratou perante o crítico. Em caso afirmativo é possível que tenha ouvido como resposta uma sonora gargalhada.

Acabo de ler parte do livro e dá-me para pensamentos tristonhos e em forma de pergunta. Quando gente como João Paulo Martins se reformar (está longe mas lá chegará), quem o substitui? Daqui por 10 anos, haverá directores de jornais ou de revistas que acolham, pagando - atenção ao detalhe -, gente que queira dedicar-se a estes assuntos de forma séria e consistente?

Hum! Com as minhas dúvidas, fico-me por aqui a beber mais um trago e à espera das outras 384 histórias que ficaram na gaveta. 




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