Eventos extremos: “Poderá haver investimento justificável ao abrigo dos 5% do PIB em defesa”
Com fenómenos climáticos mais frequentes e de maior intensidade, Gonçalo Moura Martins e António Ramalho explicam o que esta nova realidade vai mudar em termos económicos, de engenharia e financiamento e realçam os 3 “pês” que vão distinguir a nossa capacidade ou incapacidade de resposta. Novo episódio do podcast Partida de Xadrez vai para o ar esta segunda-feira-
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Os fenómenos extremos climáticos a que temos assistido, como a recente depressão Kristin ou os grandes incêncios do verão, “vão ter um impacto brutal não só na nossa vida social, mas também na estrutura de execução de infraestruturas, de planeamento e prevenção e de resposta a estas crises”, avisa Gonçalo Moura Martins no 47.º episódio do podcast Partida de Xadrez, que vai para o ar esta segunda-feira no site do Negócios e nas principais plataformas.
Em seu entender, “esta nova realidade climática vai alterar as regras económicas, porque vai se impor uma necessidade de reforçar os investimentos, novos materiais e resistências”. Vai também “reconfigurar os mercados financeiros e de seguros porque os bancos vão ter em conta estas realidades”. Vai implicar ainda que “a prevenção tenha que ser repensada e o investimento tenha que ser muito maior”. E vai igualmente “obrigar a repensar a engenharia e o planeamento, porque é importantíssimo que se criem muito mais sistemas redundantes”.
No caso da rede elétrica, e depois da depressão Kristin ter provocado a queda de mais de 60 torres e cerca de 650 quilómetros de linhas, Gonçalo Moura Martins sublinha que já há quem defenda o seu enterramento “ao abrigo dos 5% do PIB que temos que gastar na defesa”. Em seu entender, para enfrentar estes eventos extremos, “poderá haver investimento em infraestruturas críticas justificável” a ser inscrito nessa rubrica, já que “claramente tem um impacto brutal na defesa porque a maneira do isolar e de causar dano num território é atacar o setor energético”.
Sobre a crescente gravidade dos eventos extremos, cada vez mais frequentes e com maior intensidade, António Ramalho defende que “para atingir um nível de resposta e uma matriz de risco diferente é preciso sobretudo apostar no planeamento, na prevenção e na prontidão para que estes eventos sejam controlados”. Três “pês" que “vão distinguir a nossa capacidade ou incapacidade de responder a esta nova realidade”, diz.
Do ponto de vista do planeamento, o gestor salienta o dos meios humanos, dos meios técnicos e dos meios financeiros, defendendo designadamente que se volte a recuperar os planos civis de emergência, que já existiram no âmbito da Proteção Civil, que são "a deteção de todos os meios existentes, quer públicos, quer privados, que sejam capturáveis no momento de necessidade extrema”.
Já o segundo “pê”, de prevenção, diz, “vai obrigar a muito maior investimento do que aquele que foi feito até hoje e muito maior custo operacional assumido”. “Essa lógica seguradora vai ser muito diferente daquela que existe hoje e vai exigir uma enorme coragem dos políticos”.
Por fim, sobre a prontidão, sublinha que “não vale a pena pensarmos que vamos prevenir tudo e vamos anular esta matriz de risco”, já que “vamos ter fenómenos extremos, imprevisíveis e, por isso, com elevado impacto”, o que “vai exigir um modelo de coordenação diferente daquele que temos”. Isso pressupõe “um mecanismo de informação e avaliação que não existe ainda e vai ter que ser construído”, assim como “uma capacidade de comando muito treinada”, além de obrigar “a uma disponibilidade enorme para esta imprevisibilidade”.
“Para trabalhar em imprevisibilidade, hierarquia e em 'intelligence', não conheço outro organismo tão bem preparado como as Forças Armadas”, diz, considerando que “o princípio técnico de serem as Forças Armadas os dominantes da Proteção Civil representa a inevitabilidade para conseguirmos responder a esta nova realidade”.
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