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Parabéns Sr. Draghi!

O presidente do BCE faz hoje 65 anos. Não terá muito tempo para festejos. É sobretudo tempo de mostrar o que pode e o que manda.

Eva Gaspar egaspar@negocios.pt 03 de Setembro de 2012 às 16:18
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Mário Draghi completa hoje 65 anos, atingido a idade mínima legal que, em boa parte dos países europeus, lhe daria acesso à reforma. Mas o italiano rompe essa barreira etária na semana em que enfrenta, porventura, o maior teste de liderança desde que assumiu a presidência do Banco Central Europeu (BCE), em Novembro do ano passado.

Sem muito tempo para festejos – hoje estará reunido à porta fechada com eurodeputados da comissão de assuntos financeiros –, Draghi consumirá os próximos dias a preparar a decisão – e a respectiva comunicação – sobre o novo modelo de intervenção do BCE no mercado de dívida.

São várias as frentes a que Draghi tem de fazer frente. Há largas semanas que trava uma dura batalha com o presidente do Bundesbank que não vê com bons olhos a possibilidade de serem retomadas as compras de dívida no mercado secundário que, no passado, serviram de meras aspirinas no alívio da febre dos juros de Espanha e de Itália.

Rompendo com a aura de circunspecção que tradicionalmente envolve os banqueiros centrais, Mário Draghi e Jens Weidmann têm exposto as suas divergências e argumentos na praça pública.

Weidmann adverte que a medida poderá "ser viciante como uma droga", alegando que distorcerá os mercados (podendo inclusive gerar mais inflação, se as compras de dívida não forem neutralizadas com retirara de liquidez) e adormecerá os incentivos para que os Governos façam as reformas estruturais necessárias.

O presidente do banco central alemão acusa ainda o BCE de estar a ir além do seu mandato, argumentando que não são bancos centrais, mas os Governos do euro (e respectivos parlamentos, igualmente eleitos) que têm a legitimidade para decidir se e como ajudam um parceiro soberano.

Bundesbank isolado?

O presidente do banco central alemão (na foto ao lado) terá sido o único membro do conselho do BCE a votar contra a possibilidade de compra de dívida na reunião no início de Agosto.

Aliados tradicionais do Bundesbank, como os dirigentes dos bancos centrais da Finlândia e da Holanda, terão votado ao lado do presidente do BCE. Nem Jörg Asmussen, o alemão que integra a comissão executiva (órgão máximo) do BCE e que em tempos trabalhou lado a lado com Weidmann no Governo de Angela Merkel, tem apoiado o seu compatriota.

Draghi concede pertinência aos argumentos do Bundesbank, mas tem sublinhado que a defesa do euro exige no imediato “medidas excepcionais”, porque é preciso pôr cobro aos “medos irracionais” que grassam nos mercados sobre a possibilidade de a união monetária acabar - e que tornam insustentáveis os custos de financiamento de Espanha e de Itália. Ainda assim, o italiano tem garantindo que as intervenções respeitarão os limites do mandato do BCE, que está expressamente impedido de financiar países do euro e cuja primeira missão é controlar o
crescimento dos preços.

Porque no te callas?

Pelos motivos opostos, Mariano Rajoy, primeiro ministro de Espanha, tem sido outra pedra no sapato de Draghi.

Pela insistência com que tem pedido publicamente a intervenção do BCE no mercado de dívida, e pela veemência com que se tem recusado a que uma eventual assistência seja acompanhada de novas exigências às políticas de Madrid, Rajoy tem sido uma sombra quase diária sobre a propalada independência do BCE.

Na expectativa da generalidade dos analistas, esta quinta-feira será o “Dia D” e será então que Draghi terá de mostrar o que pode e manda, e o que quis dizer em Agosto quando afirmou que o BCE faria o necessário para salvar o euro.

A reunião mensal do Conselho de Governadores deverá definir o novo modelo de intervenção do BCE que, ao contrário do que sucedeu no passado, exigirá o pedido formal de assistência de um país ao fundos de resgate (FEEF/MEE). Resta saber que tipo de condições e de mecanismos de acompanhamento ficarão atrelados a este expediente.

Alguns analistas antecipam ainda que o BCE poderá voltar a descer os juros de referência (actualmente em 0,75%), esperando-se que no encontro desta quinta-feira se proceda a uma discussão mais profunda sobre se, a caminho da tal união bancária, Frankfurt ficará encarregue da supervisão de todos os cerca de seis mil bancos da Zona Euro (como parece ser a preferência da Comissão Europeia), ou apenas dos maiores, como defende o Governo alemão.

Existe, porém, a probabilidade de o BCE adiar o anúncio de decisões até que seja conhecida a posição do Tribunal Constitucional alemão. Na próxima semana, 12 de Setembro, os juízes irão determinar se o novo fundo de resgate – o Mecanismo Europeu de Estabilidade (sucessor do actual Fundo Europeu de Estabilidade) – viola ou não as competências do Bundestag. A expectativa é que aprovem o MEE, ainda que com "ses". Mas se sair um "nein", é toda a estratégia que defesa do euro que cairá por terra.
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