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China está a montar um perigoso jogo de sedução e de provocação, dizem analistas

A China está a montar um perigoso e delicado jogo de sedução e de provocação, envolvendo aliados e adversários, para se afirmar como a grande potência do século XXI, dizem analistas consultados pela Lusa.

Jason Lee
Lusa 10 de Julho de 2020 às 13:55
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A aplicação da nova lei de segurança nacional em Hong Kong - que levou alguns jovens ativistas a fugir da antiga colónia britânica e redes sociais digitais a cortarem os seus serviços nesse território semi-autónomo -- está a deixar a China sob críticas e sanções da comunidade internacional.

Mas, ao mesmo tempo, a China procura desafiar adversários e parceiros para o seu ambicioso projeto de expansão económica, fazendo avultados investimentos junto de países em desenvolvimento e difundindo discursos diplomáticos de diálogo e abertura.

Alguns analistas consultados pela Lusa consideram que a China está a tentar aproveitar uma janela de oportunidade provocada pela pandemia de covid-19 e pela instabilidade política a ocidente, para procurar afirmar-se como a grande potência do século XXI, desafiando aliados e adversários numa estratégia de sedução e provocação.

"Este é um momento crucial para a China, cuja sabedoria milenar ensina que o ataque é a melhor defesa", disse à Lusa Todd Gitlin, professor de Comunicação Política da Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque.

Gitlin explica assim a aprovação da nova lei de segurança nacional em Hong Kong, ao fim de mais de um ano de manifestações pró-democracia naquela antiga colónia britânica e apesar da forte contestação da comunidade internacional.

"Não há nada de surpreendente neste comportamento. Embora eu admita o risco de, a curto prazo, a China ficar mais isolada, para o longo prazo ficam as sementes de uma nova ordem que pretende impor. E a China pensa sempre a longo prazo", afirmou à Lusa o professor da Universidade de Colúmbia.

Para Michael Swaine, investigador do Carnegie Endowment for International Peace, este comportamento insere-se no que designa por "estratégia calculativa", uma linha de conduta "híbrida", que joga no tabuleiro de "força e fraqueza".

"Nas últimas décadas, esta estratégia híbrida tornou-se uma estratégica 'calculativa', ou seja, uma estratégia calculada para proteger a China de ameaças externas ao mesmo tempo que procura uma ascensão geopolítica", explica Swaine.

A guerra comercial com os Estados Unidos, que dura há mais de dois anos, é um bom exemplo desta estratégia híbrida, em que a China procura salvaguardar os seus interesses económicos ao mesmo tempo que desafia politicamente a maior potência mundial.

A Casa Branca parece ter compreendido bem essa linha de pensamento e, num documento estratégico, divulgado em maio passado, intitulado "A abordagem estratégica dos Estados Unidos perante a República Popular da China", reconhece que "o Partido Comunista Chinês escolheu (...) explorar a livre e aberta ordem das leis e tentar reorganizar o sistema internacional a seu favor".

A picardia entre os dois países agravou-se com a pandemia de covid-19, com acusações mútuas de má gestão da crise sanitária e com o reforço de ameaças de cortes de relações diplomáticas, em que o caso de Hong Kong se tornou instrumental para ambos os lados.

"A competição entre os EUA e a China pela supremacia global não vai parar por aqui, mas intensificar-se com esta crise (sanitária)", conclui José Pedro Teixeira Fernandes, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa.

Na passada semana, numa conferência telefónica em que a Lusa participou, o chefe da diplomacia norte-americana, Mike Pompeo, apontou o investimento que a China está a fazer em África, como um exemplo da estratégia de afirmação de soberania chinesa.

Referindo-se aos elevados investimentos que a China está a fazer nesse continente, Pompeo lembrou os intuitos "nada altruístas" do Governo chinês, dizendo que cada yuan aplicado é recuperado em triplo, sob a capa de "ajuda humanitária".

Na verdade, a China continua ambíguo sobre o discutido perdão de dívida aos países africanos, numa altura em que o Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que a pandemia de covid-19 vai fazer afundar o crescimento económico deste continente nuns sem precedente 1,6%.

Até agora, a China fez apenas duas promessas sobre a ajuda a África em tempos de pandemia: que se incluiria na suspensão que o G20 fará relativamente aos pagamentos de dívida, em 2020; que ofereceria cerca de dois mil milhões de euros, nos próximos dois anos.

"A China começou a preocupar-se em 'ficar bem nas fotografias', em tornar apelativa a sua imagem", explica Todd Gitlin, concordando com a tese de Michael Swaine de "estratégia calculativa", de comportamento híbrido.

Ao mesmo tempo que procura "ficar bem nas fotografias", a diplomacia chinesa "mostra os seus dentes", como o prova a nova lei de segurança em Hong Kong ou os repetidos episódios de hostilidade militar contra forças navais dos EUA no mar da China ou a pressão sobre territórios disputados.

Os cidadãos de Taiwan andam preocupados com a possibilidade de a sua ilha ser o próximo alvo da imposição chinesa sobre territórios que procura controlar, depois da draconiana lei de segurança nacional em Hong Kong.

"Eles (República Popular da China) prometeram que não iriam interferir em Hong Kong durante 50 anos. Inquieta-me ver que Hong Kong de hoje pode ser a Taiwan de amanhã", dizia na terça-feira da semana passada Sylvya Chang, uma estudante de 18 anos de Taiwan.

Nesse mesmo dia, o partido do primeiro-ministro japonês apelava ao Governo para cancelar uma visita ao Japão do Presidente chinês, Xi Jinping, condenando a aprovação da nova lei de segurança em Hong Kong.

Na véspera, o Governo das Filipinas tinha avisado a China de que daria "a mais dura resposta diplomática", se os exercícios militares no disputado mar da China invadissem a sua zona marítima.

Apesar destes factos de conturbada hostilidade e receio, do lado chinês chegam sinais de tranquilidade e de diálogo.

Na passada quinta-feira, o chefe da diplomacia chinesa, Wang Yi, pedia uma "reconciliação" entre a China e os EUA, propondo que se elaborasse uma lista para identificar e resolver as disputas que estão a abalar a relação entre os dois países.

"A China está pronta para falar se os Estados Unidos quiserem. Somente o diálogo pode evitar mal-entendidos", escreveu Want Yi, num discurso publicado no portal do seu Ministério.

Mas o diálogo com a China parece ser mais difícil, à medida que se vão multiplicando os boicotes e sanções por causa da nova lei de segurança em Hong Kong.

A rede social TikTok disse que os residentes de Hong Kong vão deixar de poder usar os seus serviços de partilha de vídeos, ao mesmo tempo que Facebook, Google e Twitter anunciaram que deixarão de responder aos pedidos do Governo chinês de informações sobre os utilizadores dessas plataformas digitais.

Ou então, são as próprias autoridades chinesas que contribuem para atitudes de isolamento, como aconteceu no início deste mês, quando o Governo de Hong Kong ordenou hoje a retirada de todos os materiais didáticos e livros escolares que possam violar a lei de segurança nacional, imposta por Pequim.
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