Mundo Morreu aquele que toda a gente queria imitar

Morreu aquele que toda a gente queria imitar

O homem que achava que deveria morrer aos 20 anos, que se transformou numa estrela aos 40 e viu a felicidade chegar-lhe aos 50 com o nascimento da filha saiu de cena aos 61 anos e por vontade própria. Desaparece o bad boy gastronómico mais livre que alguma vez a televisão produziu.
Morreu aquele que toda a gente queria imitar
Reuters
Edgardo Pacheco 09 de junho de 2018 às 14:42

Eu não via o Anthony Bourdain por causa da comida, das receitas nunca detalhadas ou sequer da narrativa e da edição disruptivas para programas de gastronomia em televisão (embora tudo fosse genial). Eu via o Anthony Bourdain porque, nos meus sonhos, gostaria de ser como ele quando fosse grande.

 

Gostaria de ser mais livre para dizer o que o penso sobre alguns produtores de vinho, restaurantes que criam "conceitos", chefes que saem de máquinas fotocopiadoras, burocratas da administração do Estado, indústrias agro alimentares, múmias que estão por detrás de bancas nos mercados municipais e, claro, essas coisas lindas que se chamam hipermercados.  Viveu na corda bamba, mas foi sempre um tipo livre, cativante, curioso e desbragado. Afinal de contas, é preciso tê-los no sítio para dizer que o hambúrguer de frango de uma famosíssima cadeia de fast food "é o que de mais parecido existe com o ânus mal lavado de um javali".

 

Anthony Bourdain disse o que quis, quando quis e com quem quis. Foi um "chefe mediano" (palavras dele) no inferno das cozinhas de Nova Iorque onde a heroína era ingrediente de base e tornou-se, mais tarde, num brilhante narrador de televisão em matéria de gastronomias mundiais, mas aproveitou sempre a fama para atirar contra essa praga crescente da xenofobia. Quando os muçulmanos passaram a ser alvos a abater, ele andou a filmar em países árabes ou no norte de África (onde comia coisas como testículos de carneiro pouco ou nada cozinhados) ; quando Israel carregava na faixa de Gaza ele lá descobria tascos e gente com muitas histórias na Palestina; e quando a direita radical americana demonizou os mexicanos ele ora ia ao México ora filmava com a comunidade mexicana nos Estados Unidos. Aliás, foi no México e no Brasil (numa favela) que filmou os programas que mais vezes revi. Que o México é rico em comida todos sabemos, mas creio que nunca antes se havia mostrado tanta variedade de marisco e vegetais com num dos últimos episódios do No Reservations.

 

Curiosamente, um dos programas menos interessantes que fez foi o de Lisboa. Ainda gostava de saber quem teve a brilhante ideia de meter o americano à conversa com um escritor macambúzio e que vive obcecado pelo facto dos portugueses não se chicotearem todos os dias por causa da guerra colonial e à conversa com uma fadista cheia de clichés sobre a alma portuguesa.  Se eu fosse estrangeiro e estivesse com ideais de vir a Portugal, mudava a viagem para a Albânia.

 

E em matéria de comidas, um primor! Levar o homem a uma marisqueira (Anthony Bourdain nunca na vida tinha comido marisco) e metê-lo depois, com ar enfadado, num barco à pesca no Tejo (no Tejo!, valha-nos Deus) para apanhar um polvito mal amanhado, nada mau para o país que diz ter peixe do outro mundo. E já nem falo da história do chefe famoso ter tido que a morcela de arroz é típica do norte de Portugal porque, vá lá, eles têm é de ser bons com os tachos e não com a geografia.

 

A coisa safou-se com os Dead Combo, que de uma hora para a outra, passaram a ser ouvidos por gente de muito bom gosto por este mundo fora. Se bem avalio, terá sido mesmo o que de mais original Bourdain levou de Lisboa.                 

 

Ontem, às 12h33, estava eu a falar de azeites na Feira Nacional de Agricultura em Santarém quando o WatsApp disparou a notícia. Um tipo fica com o discurso arrastado, desconexo e com uma sensação estranha de frio no corpo. Será que foi o próprio a gozar com mais uma valente tempestade etílica? Tento continuar o raciocínio, mas a dada altura peço desculpa para comunicar a notícia. Fica tudo em silêncio.

 

O tempo ensina-nos a não fazer perguntas sobre as razões que levam alguém com aparente sucesso, aparente riqueza e aparente gozo pelo que faz a sair mais cedo desta vida. Não nos devemos meter em assuntos alheios, dizem. Pois, mas é tudo tanga.           

 

Consulto sites, leio que estava de mau humor nos últimos dias, recebo telefonemas de amigos estupefactos, olho para minha biblioteca, saco um livro dele, revejo episódios do No Reservations e do Parts Unknown e só me apetece berrar porquê, seguido da palavra que começa por ‘ca’ e acaba ‘lho’.      

 

É certo que Bourdain disse que "a principal causa do todos os problemas na vida é o facto de procurarmos pela merda de uma resposta simples", mas isso não ajuda. 

 

Contento-me com a ideia de que ele, eventualmente, gostará de saber que, em sua memória, vou preparar uns focinhos de porco asados para os meter inteiros numas sandes (à moda da Badalhoca de Matosinhos), acompanhados por umas cervejas artesanais Bótima (variante Porter) do meu amigo João Papa. Tenho a certeza de que ele apreciaria o repasto.         




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