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Banco de Portugal avisa para risco de queda nos preços das casas

O supervisor alerta para múltiplos riscos e vulnerabilidades que podem afetar a estabilidade financeira, como os preços da habitação, aumento de imparidades na banca ou redução do rendimento disponível.

Esta foi a primeira vez que Mário Centeno, ex-ministro das Finanças, apareceu publicamente na pele de governador do Banco de Portugal.
Duarte Roriz
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O contexto difícil — em que uma guerra se juntou a uma "tempestade perfeita" — leva o Banco de Portugal a elaborar uma longa lista de riscos e vulnerabilidades que podem ameaçar a estabilidade financeira.

Desde logo,"o risco de uma redução dos preços no mercado imobiliário residencial, decorrente de alterações nas condições de financiamento", pode ler-se no Relatório de Estabilidade Financeira, publicado esta sexta-feira pelo Banco de Portugal.

O regulador avisa que, "no contexto do recente maior crescimento observado no crédito à habitação, é fundamental assegurar que este não passe a assumir um papel determinante para a evolução dos preços no mercado imobiliário".

"Apesar da incerteza originada pela crise pandémica", até aqui, tal como acontece lá fora, os preços das casas "continuaram a aumentar em Portugal", refletindo "a procura de habitação por não residentes, que se manteve, e a escassez de oferta". Não foi o crédito bancário de portugueses a puxar pelos preços da habitação, lembra o supervisor.

Já para o sistema bancário, “a evolução do enquadramento económico nos últimos meses aumenta a probabilidade de materialização dos riscos de mercado e de crédito, bem como um aumento da margem financeira dos bancos”, afirma também o Banco de Portugal. 

Se, por um lado, “o aumento das taxas de juro, em particular, deverá traduzir-se, nos próximos anos, numa melhoria da margem financeira dos bancos", há também que contar com o "aumento do reconhecimento de imparidades e de perdas potenciais decorrentes da desvalorização dos títulos de dívida a justo valor”. O impacto destes fatores “é condicionado pela evolução da atividade económica e deverá ser diferenciado conforme o horizonte temporal”.


A redução do rendimento disponível

Na extensa lista de riscos elencados no relatório do Banco de Portugal destaque ainda para "a redução do rendimento disponível real devido à inflação e o efeito do aumento das taxas de juro sobre o serviço de dívida são riscos relevantes para a situação financeira dos particulares". Uma circusntância a que se junta "a incerteza relativa à evolução da atividade económica e, em consequência, do emprego". Ainda assim, o Banco de Portugal entende que "as medidas de apoio, o aumento da poupança e a constituição de depósitos em 2020 e 2021 poderão mitigar o impacto destes choques". Vai depender "do rendimento e do alcance das referidas medidas de apoio".

A entidade liderada por Mário Centeno sublinha ainda "o risco de uma reavaliação adicional dos prémios de risco, não obstante a correção já ocorrida". O supervisor entende que "o aumento da incerteza tem-se materializado numa maior volatilidade dos mercados financeiros internacionais, o que condiciona as perspetivas dos investidores e poderá conduzir a um aumento da sua aversão ao risco".

"Apesar da correção já ocorrida, nas taxas de rendibilidade da dívida soberana e corporate e em alguns mercados acionistas, o risco de correções adicionais mantém-se. Uma reavaliação de risco significativa poderá interagir com as vulnerabilidades acumuladas na pandemia e levar a uma quebra adicional dos preços dos ativos, com impacto no sistema financeiro, sobretudo na valorização de carteiras", avisa o supervisor.

E há ainda as vulnerabilidades financeiras de algumas empresas, "a recuperação incompleta da atividade e da rendibilidade de alguns setores no pós-pandemia" e "o enquadramento macroeconómico e financeiro atual". Em conjunto, deverão "impactar de forma mais acentuada um subconjunto de empresas, aumentando a sua probabilidade de incumprimento no crédito".

Mas qual será o impacto final do aumento dos custos nas finanças dessas sociedades não financeiras? "Irá depender não só da respetiva estrutura de custos e dos apoios públicos recebidos, mas também da persistência dos choques e da capacidade das empresas para refletir estes aumentos nos preços dos produtos finais". Há ainda que contar com "os custos de financiamento mais elevados, cujo impacto dependerá do grau de alavancagem das empresas".

Outro risco prende-se com “o aumento dos custos de financiamento e a incerteza quanto à evolução da atividade económica”, que é um desafio para a redução da dívida pública. As últimas projeções internacionais indicam que “deverá continuar a reduzir-se nos próximos anos, mantendo-se, contudo, elevado” e o Banco de Portugal destaca “a incerteza associada à projeção dos determinantes desta tendência”. No entanto, “o custo médio, historicamente reduzido, e a maturidade média residual da dívida (sete anos) mitigam parcialmente este risco”.

"Resiliência do mercado de trabalho" trava incumprimentos
 
O que não deverá acontecer, segundo Mário Centeno, é uma escalada dos incumprimentos. Em conferência de imprensa esta sexta-feira de manhã, o governador do Banco de Portugal considerou que os incumprimentos, "em especial de crédito à habitação, estão profundamente relacionados com o mercado de trabalho, sendo que "o mercado de trabalho tem demonstrado uma capacidade de resiliência que poucos antecipavam", afirmou.

“O comportamento muito positivo do mercado de trabalho tem sido uma âncora importante na manutenção do rendimento disponível das famílias”

A questão coloca-se num contexto em que as taxas de juro estão num ciclo de subida — o que, em si mesmo, Centeno considera ser “positivo”, por entender que a manutenção de taxas de juro negativas não seria saudável para as economias europeias.

Notícia atualizada às 13h40.
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