Banca & Finanças Líder do Novo Banco admite que divulgação de devedores possa ocorrer em "algumas circunstâncias"

Líder do Novo Banco admite que divulgação de devedores possa ocorrer em "algumas circunstâncias"

António Ramalho não tem uma resposta definitiva sobre a divulgação de grandes devedores, mas assume que a banca tem de reconquistar confiança. E um dos passos pode ser, em casos "muito excepcionais", revelar o que causou os problemas no sector.
Líder do Novo Banco admite que divulgação de devedores possa ocorrer em "algumas circunstâncias"
António Ramalho lidera um banco que tem um devedor com uma exposição superior a 500 milhões de euros.
David Martins 
Diogo Cavaleiro 30 de agosto de 2018 às 12:55

O presidente do Novo Banco, António Ramalho, admite que há "algumas circunstâncias" em que a divulgação de grandes devedores pode justificar-se. Ainda assim, recusa ter uma posição definitiva em relação ao tema. "Essa é talvez a pergunta moralmente mais difícil de responder", é o que começa por responder quando a pergunta lhe é feita numa entrevista ao Observador.

 

"O valor do sigilo profissional – que é uma coisa que percebe, porque também vive com ele – e que faz parte do que é o centro da minha ética bancária. Mas não deixo de reconhecer que temos de fazer uma séria reflexão sobre se esse valor não cede em casos muito excepcionais, e excepcionais, a um valor mais elevado: o reconhecimento perante a sociedade de debilidades que globalmente custaram caro", respondeu o líder da instituição financeira, detida em 75% pela Lone Star e em 25% pelo Fundo de Resolução.

 

Daí que António Ramalho, no cargo há dois anos, diga ao Observador que, "em algumas circunstâncias, o valor da transparência reputacional do sistema pode justificar que haja alguma clareza neste tipo de informação".

 

Ramalho lidera o Novo Banco, instituição financeira criada em 2014 com a capitalização de 4,9 mil milhões de euros, 3,9 mil milhões dos quais de injecção de dinheiros públicos. Uma injecção que tem sido prejudicada por grandes créditos que foram concedidos. Por exemplo, em entrevista ao Negócios e à Antena 1, em Abril, Ramalho adiantou que o grosso dos problemas da instituição estava em "44 créditos fundamentais", e que actualmente há um devedor com uma exposição superior a 500 milhões de euros. Não se sabe quem.

 

O presidente da instituição tem reiterado que a recuperação do banco é uma "maratona" e que ainda vai custar tempo e dinheiro. Neste momento, o banco está sob um mecanismo de capitalização contingente, que cobre uma carteira dos seus activos, e pelos quais o Fundo de Resolução (que tem sobrevivido devido a empréstimos estatais) assumiu a possibilidade de vir a injectar 3,89 mil milhões de euros – já colocou 792 milhões.

 

Ainda que dizendo que o seu coração balança neste tema, o banqueiro acredita que essa divulgação poderá ser uma forma de a banca se reconstruir. "O nosso negócio é um negócio de confiança e também tem de se reconstruir na confiança não só dos seus clientes, mas também da sociedade", respondeu ao jornal digital. Contudo, recusou que se siga um caminho persecutório desses clientes.

 

Apoios e oposições

Ramalho junta-se assim ao seu antigo colega no Santander, António Horta Osório, que defende que o princípio do sigilo bancário "colide" com o facto de o dinheiro público ter sido usado para salvar vários bancos. "Parece-me de elementar justiça que os portugueses saibam como é que esse dinheiro foi aplicado e acho muito bem que o Parlamento esteja a legislar no sentido de os bancos que tiveram ajudas públicas terem de ser obrigados a divulgar a lista dos maiores devedores"", disse, em Maio.

 

O Parlamento aprovou legislação, que tem de ser trabalhada na especialidade, para a exposição pública dos grandes devedores da banca, mais concretamente dos bancos que receberam ajudas estatais, ainda que o conceito não esteja estabelecido na totalidade. O Governo, por Ricardo Mourinho Félix, já se mostrou favorável a uma iniciativa transversal à banca.

 

Por sua vez, a Associação Portuguesa de Bancos veio mostrar-se contra esta intenção. "O segredo bancário é pedra angular entre banco e cliente", declarou o seu presidente, Fernando Faria de Oliveira, ex-presidente da Caixa Geral de Depósitos. No banco público, Paulo Macedo também é contra a possibilidade de vir a ser obrigado a divulgar os maiores devedores, tendo em conta, aliás, a legislação actual. "Não há possibilidade de haver essa informação em termos públicos", já afirmou.

 




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