Empresas Colecção Miró vai ficar no Porto até 2044

Colecção Miró vai ficar no Porto até 2044

Nos próximos 25 anos, as polémicas obras do pintor catalão, herdadas pelo Estado após a nacionalização do BPN, terão morada permanente na Fundação de Serralves. A autarquia paga obras na Casa até um milhão, num projecto de Siza Vieira, e 100 mil euros por ano pelo “depósito e promoção cultural”.
Colecção Miró vai ficar no Porto até 2044
A Casa de Serralves vai sofrer obras de remodelação para acolher a colecção de obras do catalão Joan Miró.
António Larguesa 24 de outubro de 2018 às 16:54

O Estado vai ceder as 85 obras de arte de Joan Miró ao município do Porto durante 25 anos, "dado o manifesto interesse público subjacente a todas as iniciativas de descentralização do acesso à cultura, bem como no desenvolvimento e fomento do turismo cultural do Norte do país". A autarquia portuense, pela outra parte, compromete-se a "garantir a protecção, a valorização e a divulgação cultural das obras", num esforço financeiro que vai ascender a 3,5 milhões de euros neste período.

 

O protocolo para a cedência gratuita desta colecção, que pertencia ao Banco Português de Negócios (BPN) antes da nacionalização da instituição financeira em 2008, foi assinado esta tarde pelo autarca, Rui Moreira, e pelo primeiro-ministro, António Costa. Um documento que obriga o município do Porto "à prática de todos os actos necessários à protecção, conservação, divulgação e promoção cultural".

 

Considerando a Fundação de Serralves "a única entidade na cidade do Porto com capacidade" para assegurar esta obrigação, a Câmara firmou um protocolo de depósito e de promoção cultural destas obras de arte com esta instituição cultural, válido também até 2044, pagando anualmente 100 mil euros à fundação presidida por Ana Pinho, que expressou "entusiasmo e sentido de responsabilidade" com esta nova missão.

 

Numa conferência de imprensa em que a nova ministra da Cultura, Graça Fonseca, sublinhou que "estas parcerias são fundamentais para a política pública", foi ainda anunciado que a autarquia nortenha vai financiar, "até um milhão de euros", as obras de remodelação da Casa de Serralves, que receberá a exposição permanente e que será intervencionada pelo arquitecto Álvaro Siza Vieira. 

 

"É preciso diversificar o acesso à cultura em todo o território nacional. (...) Há mais país para além de Lisboa. E é importante que num momento de grande projecção económica e turística do Porto, que reforcemos a base cultural" desta cidade, resumiu o primeiro-ministro, António Costa. Notando que "não era necessária uma nova instituição para acolher estas obras", justificou a escolha de Serralves pela sua relevância internacional, competências de curadoria e uma rede de parcerias estabelecidas que favorece a "triangulação com outras instituições". 

 

Polémica desagua na Invicta

 

A colecção de Joan Miró ficou na posse do Estado Português após a nacionalização do BPN em 2008, tendo transitado com uma avaliação de 64,4 milhões de euros. É composta por desenhos e outras obras sobre papel, pinturas com suportes distintos, além de seis tapeçarias de 1973, uma escultura, colagens, uma obra da série "Telas queimadas", e várias pinturas murais.

 

A colecção esteve envolta numa grande polémica em 2014, quando o Governo de coligação liderado por Pedro Passos Coelho decidiu vendê-la num leilão, em Londres, através da Christie's. Uma decisão que seria invertida por iniciativa do Ministério Público, que impediu a saída das obras do país. Em Setembro de 2016, dois meses após o Executivo do PS ter dito que o destino permanente seria a cidade do Porto, o município decidiu que a colecção de arte permaneceria na Fundação de Serralves.

 

Numa solução temporária, estes quadros já foram exibidos na Casa de Serralves entre Outubro de 2016 e Junho de 2017, numa mostra intitulada "Joan Miró: Materialidade e Metamorfose", que recebeu mais de 240 mil visitantes. Em Setembro do ano passado, a colecção viajou até Lisboa para ser exibida pela primeira vez na totalidade, com as 85 obras de arte, no Palácio Nacional da Ajuda, e rumou depois ao Palácio Zabarella, da Fondazione Bano, em Itália. 

"Muitos diziam que esta era uma colecção menor, mas provou-se que não é. Percebeu-se que não era uma amálgama de quadros", reclamou Rui Moreira, completando que a ideia é que os quadros possam viajar pelo país. Estes acordos vão agora ser submetidos à aprovação da Assembleia Municipal e do Tribunal de Contas, com o autarca reeleito no ano passado como independente a agradecer o empenho do Governo e de Serralves na negociação deste dossiê, concluída há cerca de um mês. 

Censura em Serralves? "Faz parte da vida cultural haver polémica"

A Fundação de Serralves, que vai acolher esta colecção de obras de Joan Miró, atravessou um período de turbulência nas últimas semanas, depois de o director do museu, João Ribas, apresentar a demissão do cargo, acusando a administração liderada por Ana Pinho de interferir na montagem da exposição de Robert Mapplethorpe e "violação continuada da autonomia artística". Questionado esta tarde sobre como acompanhou essa polémica, António Costa respondeu de forma lacónica: "Acho que faz parte da actividade cultural e da vida cultural haver polémica. A polémica é, em si própria, um acto de cultura". Perante a insistência dos jornalistas, e mesmo crendo que o caso "está devidamente esclarecido" depois da audição parlamentar da semana passada e das explicações dadas pela administração da instituição de arte contemporânea, o primeiro-ministro acabou por acrescentar que "qualquer ameaça de censura, seja numa televisão, numa rádio, num museu ou num espaço expositivo, para qualquer democrata é um motivo de preocupação".




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