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ES Oeste: Os novos filhos da fruta do Oeste

Começaram com panfletos no correio, passaram para grupos de amigos no Whatsapp e, dentro de semanas, chegarão ao país inteiro. Os cabazes de fruta e legumes da ES Oeste nasceram no confinamento e tornaram-se na principal atividade da empresa.

Mariline Alves
Ana Sanlez anasanlez@negocios.pt 31 de Maio de 2021 às 13:00
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Vítor Almeida é engenheiro civil e sempre tentou "escapar" à agricultura e ao negócio da família. Mas, em 2017, as origens falaram mais alto. Hoje, Vítor e Cátia Branco, que é enfermeira, são os responsáveis pela nova vida da ES Oeste. O negócio tradicional de exportação de pera-rocha e maçã de Alcobaça mantém-se, mas é aos cabazes de fruta e legumes que criaram no confinamento que dedicam toda a atenção.


Não estava nos planos de Vítor vir a ser agricultor. Os pomares de maçã de Alcobaça e pera-rocha estão na família há três gerações, mas o Almeida mais jovem tinha outras aspirações. Estudou Engenharia Civil e rumou a Lisboa. O plano até deu frutos, mas Vítor acabou por ceder ao chamamento da terra. Em 2017, juntamente com Cátia Branco, enfermeira, começou a semear a nova vida da ES Oeste.

Cabe hoje a Vítor Almeida e Cátia Branco dar a cara e o corpo ao manifesto pelos mais de dez hectares de pomares da empresa da família, dos quais brotam entre 450 e 500 toneladas de fruta por ano. A exportação tem sido desde sempre a vocação da ES Oeste, e França o destino onde o fruto é mais apetecido. "Abastecemos o mercado da saudade", revelam. Apenas uma pequena parte da produção permanece na terra de origem, em "dois ou três supermercados locais".

No início de março de 2020, ainda respondiam às encomendas gaulesas, com algumas toneladas de fruta guardadas nas câmaras frigoríficas. Mas a pandemia veio complicar a logística. "Os camiões não tinham retorno, voltavam vazios, e começaram a parar", recorda Vítor. "Nas primeiras semanas de março, ficámos em suspenso, a pensar no que poderíamos fazer para dar a volta à situação."

Até que Vítor percebeu que não estava sozinho. "Em conversa com outros agricultores da região, dei conta de que eles estavam a deitar fora as colheitas", lembra. Com as praças fechadas, os produtores invadiram os campos com tratores para destruir couves, alfaces, brócolos e alho-francês, algo que a ES Oeste não chegou a fazer. Perante a calamidade e o desperdício, Vítor viu surgir a oportunidade para uma joint venture. Os caixotes de fruta que tinham deixado de ir para França rapidamente ganharam uma nova utilidade: viraram cabazes de fruta e legumes para vender na região.

Foram os vizinhos do condomínio de Vítor e Cátia que, sem querer, serviram de cobaias de um negócio que está prestes a tornar-se nacional. Quando a pandemia parou os camiões, a primeira ideia de Vítor foi imprimir panfletos e distribuí-los pelas caixas de correio da vizinhança. Os caixotes que até há poucas semanas seguiam carregados de fruta para França passaram a ser entregues porta a porta, repletos de peras, maçãs e legumes frescos do Oeste. "Era uma coisa muito local e, no momento, não gerou quase nada", reconhece Vítor Almeida, que na altura estava longe de imaginar que o negócio da família estava prestes a levar uma volta.

25Crescimento
A faturação da ES Oeste aumentou 25% no ano passado graças aos cabazes, apesar da quebra das exportações. 

A primeira entrega fora do radar foi feita em Queijas, no concelho de Oeiras. "Uma cliente encomendou cinco cabazes, para a família toda. Fui lá eu, entregar com o meu carro." O boca a boca e, sobretudo, os grupos de amigos no Whatsapp fizeram o resto. "Tirei umas fotografias aos cabazes e mandei a amigos", que por sua vez partilharam com amigos, e por aí adiante. "De cinco entregas passámos para 40. Em vez de entregarmos apenas à terça-feira, começámos a ir também à quarta. Quando demos conta, estávamos a fazer entregas das oito da manhã até às 22h."

O que começou por ser um negócio para "desenrascar" a pandemia acabou por se tornar na atividade principal da ES Oeste em 2020, e mais do que compensou a falta de exportações. No ano passado, a faturação aumentou 25% face a 2019, apesar de o volume de negócios com as vendas para o exterior ter sido praticamente nulo.

Efeito Cristina sobe vendas

Logo nos primeiros meses da operação, Vítor e Cátia fizeram um "rebranding" à ES Oeste, e criaram oficialmente a Box, nome dado aos cabazes que, entretanto, foram crescendo à base de parcerias. "Criámos sinergias com várias empresas da região", explica o fundador. Além de fruta e legumes, os cabazes passaram a incluir pão, queijo, mel, ovos, compotas e até bolas de Berlim. A operação, desde a encomenda às entregas, é centralizada pela ES Oeste, através de uma plataforma online. As oito pessoas que trabalhavam na área de exportações, e que entretanto tinham ido para casa, regressaram para novos postos de trabalho. Agora, era preciso dar resposta às encomendas recebidas pelo Whatsapp e pelo Instagram.

300Entregas
A empresa entrega, em média, entre 250 e 300 cabazes de fruta e legumes por semana. No confinamento, chegaram aos 400.

Ainda com a Box a dar os primeiros passos, Vítor e Cátia receberam uma encomenda que viria a impulsionar o negócio quase de um dia para o outro. "Fomos entregar um cabaz a um repórter do programa da Cristina, na SIC. Ela partilhou e o projeto chegou mesmo a ser apresentado no programa." A partir daí, foi só colher os frutos da fama. Em média, a ES Oeste passou a distribuir entre 250 e 300 cabazes por semana. Já no segundo confinamento, chegou a entregar 400.

"Surpreendentemente, o ano acabou por correr bem", desabafa Vítor. "Saímos da nossa zona de conforto e tivemos muito trabalho, só não foi da forma a que estávamos habituados. Detetámos uma falha no mercado e conseguimos abrir um canal direto com o consumidor."

Entre outras lições, Vítor e Cátia aprenderam que "os clientes gostam de interagir e saber como é feito o maneio da fruta". Pelo que um dos próximos projetos da ES Oeste passa por abrir os pomares a curiosos, que poderão participar nas colheitas.

Até ao momento, as entregas da ES Oeste chegavam apenas à zona compreendida entre Lisboa e Leiria. Graças a "algum investimento", dentro de poucas semanas estarão disponíveis em todo o país, promete Vítor.

Quando o mundo regressar ao "normal", a ES Oeste vai passar a entregar o grosso das colheitas a uma organização de produtores, que passará a tratar da parte da exportação. Vítor e Cátia vão dedicar-se a 100% ao comércio eletrónico da Box, para o qual ficarão com cerca de 50 toneladas de peras e maçãs. Querem firmar mais parcerias com produtores, mas também diversificar a produção própria. "Pensámos em couve romanesca e curgete branca. São produtos muito procurados e pouco disponíveis", explica Vítor, sem nunca perder ainda um ligeiro tom de incredulidade. "Nunca pensei que esta seria a evolução da empresa. Acreditava que a Box ia ajudar-nos a atravessar a pandemia e que ficaria por aí". Com o negócio dos cabazes, a ES Oeste vai continuar a colher o que semeou.

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