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Maroco: Paços de Ferreira ganha estofo a inativar vírus de tecidos

A empresa fundada por Marçal Rodrigues da Costa contrariou a “tendência a morrer” com a investigação em nanotecnologias e já está a entrar em hospitais e hotéis com um tratamento inovador que evita a propagação de doenças nos tecidos.

Paulo Duarte
António Larguesa alarguesa@negocios.pt 30 de Maio de 2021 às 22:30
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Capital do Móvel, anos 1980. Marçal Rodrigues da Costa decide começar um negócio de comercialização de materiais para estofos – desde tecidos e espumas até aos mecanismos internos dos sofás –, que em 2001, no virar do milénio, acaba por passar para as mãos dos filhos Miguel e Pedro. Rebatizar a empresa com as letras iniciais do nome do fundador – Maroco – foi uma das primeiras decisões. Outra foi que não podiam estar apenas dedicados à compra e venda destes artigos e precisavam de apostar na inovação para contrariar a "tendência a morrer" nesta atividade. Uma reinvenção que chegou em várias etapas até 2021.

"Começámos por entrar num caminho de produção, ao transformar determinados produtos para gerar algum valor. Hoje em dia, as cadeias de distribuição são cada vez mais curtas e os distribuidores e armazenistas, como nós, têm tendência a perder espaço. Tivemos a necessidade de entrar por novas áreas para ter um valor acrescentado", recorda o atual CEO, Miguel Costa. Os forros dos caixões, a pequena espuma colocada na ponta das mangueiras da gasolina ou a que acompanha os estojos dos relógios foram alguns dos produtos que começaram a fabricar há cerca de seis anos em Paços de Ferreira.

Dois anos depois, em parceria com o centro tecnológico da indústria têxtil (Citeve) e o CeNTI - Centro de Nanotecnologia e Materiais Técnicos, Funcionais e Inteligentes, entra nos tecidos técnicos. O tratamento antifogo para os sofás e outro para que, por exemplo, os sintéticos das esteiras colocadas junto às piscinas não aqueçam ao sol, foram os principais resultados. Um sucesso que, em janeiro de 2017, levou a Maroco, em conjunto com os mesmos centros de investigação, a entrar como parceiro industrial num projeto europeu (Horizonte 2020) liderado pela Faculdade de Medicina da Catalunha com o objetivo de desenvolver tratamentos, através de nanotecnologias, para aplicar em tecidos e em membranas de filtros de água para combater bactérias multirresistentes.

Os resultados chegaram no final do verão passado, ao comprovarem que este novo tratamento conseguia evitar a propagação de dois dos tipos de vírus que mais infeções causam atualmente nos hospitais e que obrigam muitas vezes a encerrar os blocos operatórios: o E.coli e o Staphylococcus aureus. Alguns hospitais portugueses já estão a enviar os lençóis para o Vale do Sousa e também na sequência de uma reunião com o presidente do SUCH, organização tutelada pelos Ministérios da Saúde e das Finanças e dedicada à oferta de serviços partilhados em saúde, está agora em estudo a adaptação desta solução para impregnar as roupas usadas pelos profissionais de saúde, mantendo as propriedades antivíricas e antibacterianas após centenas de utilizações. No setor privado, já fizeram testes com a TMG Automotive. Miguel Costa fala em "oportunidades brutais". Outra é um ambicioso projeto da União Europeia para criar bebedouros públicos em África, estando a empresa portuguesa a fazer os tratamentos para os filtros de água com um cliente italiano.

Meter a covid na máquina
O principal símbolo deste projeto que pode transformar a Maroco e levá-la para outro patamar, inclusive a nível internacional, é a máquina que permite fazer estes tratamentos à escala industrial. Tem 16 metros de comprimento e foi construída de raiz em Portugal, com peças provenientes de vários países, de Israel aos Estados Unidos. Representou um investimento de meio milhão de euros e tem capacidade para fazer o tratamento de dez metros de tecido por minuto. E continua a ser alvo de atualizações.

Em termos resumidos, o processo é feito em quatro fases: primeiro são colocados num tapete rolante e entram numa secção de pulverização em que é criada uma nuvem enorme; depois passam por uns fornos convectores que podem atingir temperaturas de 250 graus, em função da composição; a seguir passam para uma central de luzes ultravioleta, onde é feita a selagem do tecido; por último, dois computadores com microscópios verificam a regularidade do tratamento que foi dado. Em funcionamento, o consumo energético ronda os 35 euros por hora, o que obrigou primeiro a alugar um gerador para uma das secções da máquina e depois a aumentar a potência nas instalações industriais.

Com a investigação das bactérias em fase adiantada e esta máquina já em construção, quando surge a pandemia de covid-19, a Maroco volta a juntar-se com o CeNTI e agora com o Instituto Nacional de Engenharia Biomédica (INEB) para repetir a fórmula e "inibir quase a 100%" também o novo coronavírus, em particular nos tecidos dos colchões, nos lençóis e nas toalhas de banho. O projeto Safety4Guest arrancou há sete meses e foi concluído com sucesso a 5 de março de 2021. Agora é a fase de "colocar isto no mercado" e rentabilizar o investimento. A área hospitalar e as grandes cadeias internacionais de hotelaria voltam a estar na mira, tal como os fabricantes de colchoaria, de mobiliário e de têxteis-lar.

"Já fizemos testes com o hotel Hilton no Algarve. Eles mandam os lençóis, fazemos a impregnação e têm a garantia de que não há propagação da covid depois da lavagem, mesmo sem temperaturas altas. O tratamento faz com que o vírus fique inerte e não seja transmitido ao cliente seguinte. Neste preciso momento em que abrimos o turismo, é importante conseguirmos dar uma segurança acrescida aos hóspedes. Não basta ter lá um autocolantezinho ‘clean não sei das quantas’", sublinha Miguel Costa.

Outro objetivo de curto prazo é oferecer este tratamento dos tecidos "ao comum dos mortais", até porque os testes foram feitos com o pressuposto de resultar após lavagens na máquina de casa, a mais baixas temperaturas. Para chegar diretamente ao consumidor final, a Maroco está a criar uma página online em que explicará todo o processo, desde a recolha dos tecidos até ao tratamento a que são sujeitos e à devolução. Após ter aumentado ligeiramente a faturação de 3,8 para 4 milhões de euros no ano da chegada da pandemia, em que a indústria do mobiliário parou, o empresário conta aproveitar esta nova área de negócio para sustentar o crescimento nos próximos anos.
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