Imobiliário O Banco Pinto Leite, o Titanic e o Embaixador: A história de uma venda no Porto

O Banco Pinto Leite, o Titanic e o Embaixador: A história de uma venda no Porto

Vai ser convertida em apartamentos de luxo a antiga casa bancária da família Pinto Leite, que fez fortuna no Porto, em Lisboa, no Brasil e em Inglaterra, de onde um seu funcionário partiu a bordo do Titanic, tendo sido um dos quatro portugueses que aí perderam a vida.
O Banco Pinto Leite, o Titanic e o Embaixador: A história de uma venda no Porto
O edifício onde funcionou no Porto a agência bancária da família Pinto Leite vai ser transformado em casas de luxo, mantendo-se no rés-do-chão o Café Embaixador.
Rui Neves 28 de novembro de 2018 às 18:10

José Joaquim de Brito trabalhou no Brasil, depois viajou para Itália, mais tarde para Inglaterra. Em 1912, após dois anos a trabalhar em Londres, na agência bancária Pinto Leite & Nephews, da família portuguesa Pinto Leite, decidiu regressar para junto dos seus pais, que viviam em São Paulo.

 

Para fazer a viagem de regresso ao Brasil, nada mais natural do que embarcar num dos navios da Mala Real Inglesa, que fazia a ligação entre Southampton e o Rio de Janeiro e cujos bilhetes eram comercializados pela Pinto Leite.

 

Mais eis que sabe que o "inafundável" Titanic iria ter a sua viagem inaugural, de Southampton para Nova Iorque, a 10 de Abril de 1912. Decide então fazer um desvio na rota de regresso ao Brasil, tendo comprado um bilhete de 2.ª classe no Titanic, pelo qual pagou 13 libras, que equivaleriam actualmente a 1.212 euros.  

 

Cinco dias depois, na véspera de José Joaquim de Brito festejar os seus 42 anos, o Titanic colide com um iceberg e afunda-se.

 

José Joaquim de Brito foi um dos quatro portugueses que perderam a vida no mais conhecido naufrágio da história. Os outros eram agricultores madeirenses - Domingos  Fernandes Coelho (20 anos), José Neto Jardim (21 anos) e Manuel Gonçalves Estanislau (38 anos) -, que seguiam na 3.ª classe.

 

A casa bancária Pinto Leite & Nephews viria a contribuir para o fundo de socorro às vítimas do naufrágio do Titanic, onde morreram mais de 1.500 pessoas, com 105 libras, que equivaleriam hoje a cerca de 10 mil euros.

 

Esta história dos quatro portugueses que morreram no naufrágio foi contada pela revista Sábado, em Abril de 2016, e é hoje recuperada pelo Negócios por causa de uma transacção imobiliária ocorrida agora no Porto. Mas já lá vamos.

 

Uma das famílias mais influentes do Porto de meados do século XIX

 

Voltemos à agência bancária onde trabalhou José Joaquim de Brito. Os Pinto Leite notabilizaram-se como negociantes no Porto, em Lisboa, no Brasil e em Inglaterra.

 

Proprietários da Quinta da Gandarinha, em Cucujães, Oliveira de Azeméis, António Pinto Leite e Teresa Angélica Bernardina da Assunção Correia tiveram muitos filhos, muitos dos quais zarparam cedo para o Brasil, onde fizeram fortuna.

 

Um dos mais velhos, Joaquim Pinto Leite, regressou a Portugal em 1930, instalando-se no Porto, onde viria a abrir um estabelecimento de tecidos no Largo dos Lóios, que ficava no rés-do-chão do prédio em que residia.

 

Começou então a diversificar os negócios, dedicando-se também ao empréstimo de capital. Com muitos familiares em Inglaterra, as movimentações de capital eram intensas. Decidiu então criar a casa bancária Pinto Leite, inicialmente em sociedade com os irmãos.

 

Em 1855 entrou no capital do recém-constituído "Banco do Porto", tendo ainda sido fundador do Banco Comercial, Industrial e Agrícola, em 1861.

 

Viria a falecer em 27 de Fevereiro de 1880. A inventariação dos seus bens atingiu a soma de 538.375 escudos, uma fortuna nessa altura.

 

Apesar de Portugal não ter entrado na II Guerra Mundial, a casa bancária Pinto Leite, que tinha passado para o seu filho homónimo, não sobreviveu a esses tempos.

 

A 30 de Janeiro de 1940, a Inspecção do Comércio Bancário comunicou à Joaquim Pinto Leite & Filhos que "o exame (…) efectuado à situação económica e financeira" da firma revelava que "alguns créditos concedidos [eram] excessivos em relação ao capital", relatando uma série de outras situações que obrigava a que "o capital e o fundo de reserva da firma" deviam ser "reforçados".

 

A solução chegaria dois anos depois: em Setembro de 1942 funde-se com o Banco Ferreira Alves, tendo a firma Joaquim Pinto Leite & Filhos sido dissolvida a 7 de Setembro desse ano.

 

O Banco Ferreira Alves e Pinto Leite viria, em 1965, a fundir-se com o Banco Nacional Ultramarino (BNU), que foi nacionalizado em 1974 e incorporado em 2001 na Caixa Geral de Depósitos (CGD).

 

Casas de luxo por cima do Café Embaixador

 

Alguns anos antes, em 1957, nos dois primeiros pisos do edifício de cinco andares onde funcionava a agência bancária Pinto Leite no Porto, no número 119 da Rua de Sampaio Bruno, junto à Praça da Liberdade, abria o Café Embaixador, um dos raríssimos a contrariar a tendência natural da época de converter cafés emblemáticos em grandes bancos.

 

Assumidamente um café de elite, era frequentado quase exclusivamente por homens, sobretudo de negócios, e apenas era permitido o acesso de clientes com gravata. Um porteiro permanente controlava as entradas no estabelecimento.

 

Entretanto, avizinham-se grandes mudanças para todo o restante edifício que acolhe o Embaixador.

 

A Quantico e a Albatross, principais investidores e assessores do Fundo Vesta Real Estate, que ainda recentemente compraram o palacete Montevideu, na Foz do Douro, onde vão investir 18 milhões de euros na sua reconversão em habitação de luxo, adquiriram o chamado edifício do Café Embaixador com o mesmo objectivo.

 

A venda do imóvel a esta sociedade de investidores, que agrega três fracções, pisos 1 a 4, foi intermediada pela consultora imobiliária Predibisa, que comunicou a transacção.

 

O projecto assenta na reconversão deste edifício histórico, que tem uma área total de 1.500 metros quadrados, num conjunto habitacional de 15 apartamentos T1 e T2, com áreas médias de entre 60 e 130 metros quadrados.

 

"Este edifício prima pela singularidade, que lhe permite, por exemplo, estar à altura de um hotel de cinco estrelas", enfatizou Joana Lima, responsável da Predibisa pelo negócio.

 

"Além do forte simbolismo do edifício, acresce uma localização prime, numa das zonas da Baixa do Porto onde se concentra maior actividade turística e que tem permitido que a maioria dos edifícios na sua envolvente estejam a ser remodelados para habitação, hotelaria e comércio", sintetizou a mesma consultora.

 

O Café Embaixador, que passou pelas mãos de vários proprietários, vai continuar aberto. Mas o fiel porteiro, que fazia parte da imagem de marca do café, há já muitos anos que foi dispensado.




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