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IA vai provocar "choque doloroso" nos empregos, alerta CEO da Anthropic

Dario Amodei voltou a demonstrar preocupações sobre a adoção de IA e o que a tecnologia pode fazer ao futuro dos humanos. O fundador da Anthropic garante que esta revolução não é igual às outras e que está a ser simpático quando dá cinco anos para uma mudança radical.

Fundador da Anthropic não está confiante na manutenção do emprego.
Fundador da Anthropic não está confiante na manutenção do emprego. Markus Schreiber/AP
27 de Janeiro de 2026 às 22:39

Dario Amodei criou a Anthropic com a irmã Daniela em 2021, após abandonarem a OpenAI, mas mostra ter algum receio do que está para vir na inteligência artificial (IA). "Acredito que estamos a entrar num rito de passagem, turbulento e inevitável, que testará quem somos como espécie", começa por escrever Amodei num texto partilhado no seu diário digital, onde aborda os riscos com que a IA se apresenta, como os podemos ultrapassar, e ainda alguns medos, no que refere o mercado de trabalho e em quem se concentra o poder económico.

"Qual será o efeito da injeção de incrível capital 'humano' na economia? Claramente, o efeito mais óbvio será um grande aumento no crescimento económico", destaca o tecnológico, apontando que há outros sistemas, como a pesquisa científica, manufaturação, cadeia de fornecimento, eficiência no sistema financeiro, que "garantem uma taxa de crescimento económico muito mais rápida". Ainda assim, estima que "uma taxa de crescimento anual sustentada do PIB de 10% a 20% seja possível". 

Mas o criador do "chatbot" Claude - um dos concorrentes do ChatGPT - não se deixa convencer com o próprio discurso. "Esta é uma faca de dois gumes: quais as perspetivas económicas para a maioria dos humanos num mundo assim? As novas tecnologias trazem, frequementemente, choques no mercado de trabalho, e no passado os humanos recuperaram-se sempre, mas preocupa-me que isso só tenha acontecido porque os choques anteriores afetaram apenas uma pequena fração de habilidades humanas possíveis, deixando espaço para que os humanos assumissem novas tarefas", escreve. 

"A IA terá efeitos muito mais amplos e ocorrerá muito mais rapidamente e, portanto, temo que será muito mais desafiador fazer com que as coisas funcionem", destaca. Assim, Dario Amodei assume duas preocupações marcantes: "o deslocamento do mercado de trabalho e a concentração do poder económico". Remetendo para um alerta de 2025, Amodei recorda a previsão de que a IA poderia substituir metade dos empregos em escritórios nos próximos cinco anos, mesmo que isso significasse crescimento económico e progresso científico. 

Dando como exemplo a revolução industrial, uma vez que a introdução das máquinas permitiu um aumento de produtividade e de salários, Amodei faz o passo a passo: uma máquina pequena reduziu a carga horária, uma "debulhadora" fracionou ainda mais e as máquinas mais modernas levaram ao declínio acentuado do emprego humano no setor agrícola. "Há 250 anos, 90% dos americanos viviam em quintas; na Europa, 50 a 60% do emprego era agrícola . Agora, essas percentagens estão na casa de um dígito, porque os trabalhadores migraram para empregos industriais (e, posteriormente, para empregos de conhecimento). A economia consegue fazer o que antes exigia a maior parte da força de trabalho com apenas 1% a 2% dela, libertando o restante da força de trabalho para construir uma sociedade industrial cada vez mais avançada", lê-se no seu texto. 

E Amodei continua a sua linha de pensamento, explicando como a IA vai ser a exceção à adaptação que foi verificada em anos anteriores, fornecendo quatro tópicos: velocidade, amplitude cognitiva, segmentação por capacidade cognitiva e capacidade de preencher lacunas. 

"O ritmo do progresso da IA é muito mais rápido do que em revoluções tecnológicas anteriores. Por exemplo, nos últimos dois anos, os modelos de IA passaram de mal conseguirem completar uma única linha de código para escrever todo ou quase todo o código para algumas pessoas — incluindo engenheiros da Anthropic. Em breve, poderão realizar todas as tarefas de um engenheiro de software do início ao fim", sustenta, lembrando que as pessoas têm dificuldade em adotar este ritmo acelerado. "Para ser claro, a velocidade em si não significa que os mercados de trabalho e o emprego não se recuperarão eventualmente, apenas implica que a transição a curto prazo será excecionalmente dolorosa em comparação com tecnologias anteriores, visto que os seres humanos e os mercados de trabalho são lentos para reagir e se equilibrarem".

Recuperando o pensamento da agricultura, o cofundador da Anthropic recorda que houve possibilidade de adaptação, com muitos empregos a passarem para o mundo fabril, mas a IA é diferente devido aos conhecimentos que a tecnologia possui. "A IA está cada vez mais próxima do perfil cognitivo geral dos humanos, o que significa que também será eficiente nos novos empregos que normalmente seriam criados em resposta à automação dos antigos. Outra forma de dizer isto é que a IA não substitui funções humanas específicas, mas sim o trabalho humano em geral".

E outro fator de preocupação reside também nas capacidades cognitivas que as "máquinas" têm vindo a aprender, ao integrar conhecimento. "Corremos o risco de uma situação em que, em vez de afetar pessoas com habilidades específicas ou em profissões específicas (que se podem requalificar), a IA esteja a afetar pessoas com certas propriedades cognitivas intrínsecas, ou seja, menor capacidade intelectual (que é mais difícil de mudar). Não está claro o que essas pessoas irão fazer, e receio que possam formar uma 'subclasse' de desempregados ou com salários muito baixos", sublinha.

Contrariando a ideia de uma difusão económica lenta - embora assumindo que há setores onde isso será uma realidade - Amodei mantém a visão de que metade dos postos de trabalho não especializados vão desaparecer em cinco anos. "Os efeitos da difusão apenas nos dão tempo. Não estou confiante de que serão tão lentos quanto estão a prever. A adoção da IA nas empresas está a crescer a um ritmo muito mais rápido do que qualquer tecnologia anterior, em parte devido à força da própria tecnologia". 

E o alerta continua: "mesmo que as empresas tradicionais demorem a adotar novas tecnologias, startups vão servir como 'elo' e facilitar essa adoção. Se isso não funcionar, as startups podem simplesmente desestabilizar as empresas diretamente. Isso poderia levar a um mundo onde nem tantos empregos são afetados, mas grandes empresas são substituídas por startups com muito menos mão de obra".

É então que surge aquilo que chama de "desigualdade geográfica" e posterior concentração de poder económico. Grande fração do poder económico irá, segundo Amodei, continuar a concentrar-se em Silicon Valley, "que se vai tornar uma economia própria, operando a um ritmo diferente do resto do mundo e deixando-o para trás".

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