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Turismo nas urgências

O verão no hemisfério norte, época alta para o turismo, está comprometido. O setor sofrerá uma contração sem precedentes. Depois de severamente penalizadas, agora as empresas serão uma oportunidade de compra?

Deco Proteste 18 de Agosto de 2020 às 12:30
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Setor em tumulto
De acordo com a Organização Mundial do Turismo (OMT), a nível global, as chegadas internacionais de turistas caíram 44 % nos primeiros quatro meses do ano, face ao mesmo período de 2019, o que já inclui uma queda de 97 % em abril. Com o verão e o desconfinamento, iniciou-se a recuperação, mas há pouca confiança. Mesmo na Europa e na Ásia, persistem surtos. Noutras regiões, o vírus continua a ganhar terreno. Portanto, não é surpresa que a OMT espere que 2020 seja um ano sombrio. Mesmo quando o mundo reabrir plenamente as fronteiras, o número de chegadas de turistas deverá cair entre 58 % e 78 %, em comparação com 2019. As perdas do setor rondarão, no mínimo, 900 mil milhões de euros. Podem perder-se entre 100 e 120 milhões de postos de trabalho.

Recuperação em bolsa
As ações de empresas ativas no setor do turismo, lazer e viagens estão a recuperar 38 % face ao nível mais baixo do ano, graças à reabertura gradual das economias, aos apoios com dinheiro público que evita falências, à compra de obrigações por parte dos bancos centrais e ao recente maior apetite dos investidores por empresas mais cíclicas. No entanto, ainda estão a perder 22 % nos últimos 12 meses. Não há dúvida que a pandemia irá prejudicar a atividade nos próximos meses. Mas será interessante expor-se ao setor, numa perspetiva de longo prazo?

Impacto assimétrico
Como o peso do turismo difere bastante de país para país, o impacto será diferente. Para os seus detratores, o setor vai finalmente vender os ativos que não lhe pertencem. Vai beneficiar as cidades, monumentos, locais com paisagens únicas, onde deixa poucas contrapartidas. As suas consequências ambientais são bem visíveis, nomeadamente no transporte aéreo e nos navios de cruzeiro. E em algumas cidades, o boom do alojamento local esvaziou os centros da cidade dos seus habitantes. Em suma, o turismo não é universalmente apreciado. Contudo, é inegável a transferência de riqueza dos países mais ricos (origem da maioria dos turistas) para os mais pobres que oferecem serviços de turismo e lazer. Um fenómeno que se observa dentro da própria da Europa. Se os governos dos países do Sul da Europa se apressaram a abrir as fronteiras, é porque as suas economias dificilmente poderão ficar sem as receitas do setor turístico para equilibrar as contas externas. No précovid, o peso do turismo cresceu a nível global e Portugal é um dos países da UE onde o setor tem um maior peso no PIB. Algumas estatísticas apontam para 1,2 milhões de empregos direta e indiretamente dependentes do turismo em Portugal.

Piores, pior
A situação do turismo é mais preocupante porque afeta particularmente os países que dispõem de poucos meios financeiros, como no sul da Europa e em inúmeros mercados emergentes. O setor exige taxas de IVA reduzidas e auxílio para poder pagar as suas dívidas (empréstimos hipotecários para os hotéis, locação financeira para autocarros e carros de aluguer, etc.). Além disso, a nível global, o turismo emprega direta e indiretamente cerca de 340 milhões de pessoas, muitas vezes pouco qualificadas e, portanto, difíceis de reintegrar no mundo do trabalho. Mas, evidentemente, a maioria dos Estados não dispõem de meios para prestar essa ajuda. Mais cedo ou mais tarde, surgirão problemas de endividamento excessivo, especialmente nos mercados emergentes.

Exemplo aéreo
O exemplo desta (in)capacidade de apoiar as empresas mais afetadas pela pandemia está no setor dos transportes aéreos. Os Estados Unidos vieram em auxílio das suas companhias aéreas, bem como a Alemanha e a França, que não hesitaram em ajudar a Lufthansa e a Air FranceKLM, respetivamente. Itália e Portugal, dois países com uma margem orçamental reduzida, fazem o mesmo para ajudar a Alitalia e a TAP. O mesmo acontece na África do Sul e na Tailândia, onde os governos estão a ajudar a South African Airways e a Thai Airways. Noutros locais, empresas como a Latam (Chile/Brasil) e a Avianca (Colômbia) não tiveram outra escolha senão entrar no regime de falência dos EUA (Capítulo 11) numa tentativa de se reestruturarem ao abrigo dos credores. Não é, portanto, o mais forte que sobreviverá, mas sim aquele que pode beneficiar do país mais generoso financeiramente.

Automóvel sem aluguer
Com o levantamento gradual das medidas de confinamento e a chegada das férias de verão, as cotações das empresas especialistas em aluguer de automóveis têm melhorado. No entanto, pode ser prematuro. Com efeito, uma segunda vaga de coronavírus no outono, bem como o tradicional declínio das receitas após o verão, poderiam prejudicar as ações do setor. Além disso, já fragilizadas, a pandemia atingiu as empresas no pior momento, o período em que recebem grande parte da receitas e têm pouco dinheiro em caixa. - Com uma perda de quase 80 % e repleta de dívidas, a Hertz colocou-se recentemente sob o regime de falência dos Estados Unidos (Capítulo 11). Fique afastado ou venda se tiver o título. Embora, neste momento, não paire a mesma ameaça de falência sobre os seus concorrentes diretos, a realidade é que não estão tranquilos para o futuro. - Ao reduzir drasticamente a sua frota, a Avis Budget Group já alertou que só tem disponibilidades financeiras para o ano em curso. Dado os riscos, não compre. - A situação também é precária para a Europcar, mas o grupo conseguiu evitar o pior graças ao apoio financeiro de vários Estados. De acordo com rumores de aquisição não confirmados, a Volkswagen poderá vir a resgatar a sua antiga subsidiária. O título está mais bem posicionado do que os seus concorrentes americanos e pode ser mantido, mas apenas especulativamente.

Aviões em terra
O setor europeu dos transportes aéreos recuperou dos mínimos graças à reabertura de fronteiras e à ajuda pública a empresas em dificuldades, como a Air France KLM ou a Lufthansa. As cotações continuam longe dos níveis pré-crise, mas não é uma oportunidade de investimento. A situação no transporte aéreo, altamente competitivo, continuará a ser difícil. O setor espera perdas de 84 mil milhões de dólares para 2020 (não é surpresa) e 2021 ficará novamente no vermelho. A forte concorrência limita a capacidade de aumentar os preços dos bilhetes. Uma aeronave só é rentável se for preenchida pelo menos a 70-75 %, mas a nível mundial, os aviões serão preenchidos com 63 % da capacidade, em 2020, e 74 % em 2021, de acordo com a Associação Internacional de Transportes Aéreos. Muitas viagens internacionais de longo curso, mais lucrativas, ainda não foram retomadas. Fique afastado deste setor. Se tem ações destas empresas não hesite em vender.




Cruzeiros nas docas

As ações das linhas de cruzeiros, única atividade turística ainda paralisada, recuperou dos seus mínimos. Muito influenciadas pelo mercado nos Estados Unidos (mais de 60 % dos passageiros da Royal Caribbean Cruises, Carnival Cruise e Norwegian Cruise são americanos), estão a evoluir ao ritmo da situação de saúde. Como resultado, as cotações perderam fôlego após a recuperação. Financeiramente, o setor consome muito dinheiro sem qualquer receita no horizonte. A curto prazo, foram encontradas soluções de financiamento, mas a incerteza e as perdas persistem para 2021, o que pode levar a previsões de resultados mais baixas. Se é quase certo que o setor parece condenado à paragem por mais alguns meses, o ritmo de recuperação também levanta questões. De facto, os cruzeiros estão associados aos excessos do turismo de massas e poluição, dois problemas ainda sem solução. Este setor é mais arriscado do que a média do mercado acionista: fique afastado.

Hotéis semi-vazios
A crise da saúde e o lockout em grande parte do mundo paralisaram a indústria hoteleira. O rendimento por quarto deverá cair 35-50 %, em 2020, e a taxa de ocupação caiu a pique. O desconfinamento e a recuperação económica estão a conduzir a uma pequena recuperação, mas a normalização será muito lenta e antes de 2023 não voltará aos níveis précrise. Além disso, o regresso das viagens individuais iniciouse, mas os grupos e as viagens de negócios continuarão adiados por muitos meses. Gigantes da indústria como Hilton, Accor e Marriott estão a adaptar-se, reduzindo custos e mantendo dinheiro suficiente para enfrentar as dificuldades. - A norte-americana Hilton parece-nos estar entre os protagonistas mais fortes e rentáveis no setor hoteleiro de luxo (fidelização de clientes, viagens de negócios, desenvolvimento da oferta). Estamos confiantes na capacidade a longo prazo do grupo. Apesar da queda da cotação da Hilton a colocar a níveis atrativos, preferimos manter-nos cautelosos. Não está imune a más notícias nos próximos meses que podem pesar mais sobre a cotação. Em suma, não é chegado o momento de investir.

Conselhos da PROTESTE INVESTE
O setor permanece bastante arriscado para os investidores. Perante os efeitos da pandemia, é difícil prever a evolução futura e poucos setores são tão afetados por esta falta de visibilidade como o turismo. Mesmo a longo prazo há muitas dúvidas sobre a sustentabilidade das empresas. Assim, investir neste momento no setor representaria correr riscos elevados sem uma justificação em termos de rentabilidade esperada. Aliás, encontra oportunidades de compra em setores que são mais atrativos e menos arriscados, nomeadamente entre os semicondutores e as farmacêuticas. Veja os conselhos de investimento da PROTESTE INVESTE no portal financeiro em www.deco.proteste.pt/investe.
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