Os realizadores de sonhos
De 40 em 40 minutos, um desejo manifestado por uma criança em risco de vida é concretizado. Esta é a missão da Make-a-Wish Foundation International, sedeada nos Estados Unidos e com filiais em mais 33 países. O VER entrevistou Katie Feuer, directora de marketing da Fundação, que traça as origens e os feitos inimagináveis de uma rede que possui 7500 voluntários em todo o mundo. Eduarda Napoleão conta também a história, ainda curta mas promissora, da filial portuguesa
De 40 em 40 minutos, um desejo manifestado por uma criança em risco de vida é concretizado. Esta é a missão da Make-a-Wish Foundation International, sedeada nos Estados Unidos e com filiais em mais 33 países. O VER entrevistou Katie Feuer, directora de marketing da Fundação, que traça as origens e os feitos inimagináveis de uma rede que possui 7500 voluntários em todo o mundo. Eduarda Napoleão conta também a história, ainda curta mas promissora, da filial portuguesa
“Ao longo de toda a sua curta vida Christopher James Greicius sempre desejou ser polícia. Mas o que ele nunca poderia imaginar é que o seu desejo viria a dar origem à maior organização de realização de sonhos do mundo. Corria o ano de 1980 e Christopher, de sete anos, sofria de leucemia e nem os tratamentos rigorosos a que se submetia o faziam esquecer do seu sonho. Tommy Austin, um oficial aduaneiro norte-americano e amigo de Chris e da sua mãe, prometeu ao miúdo que o levaria a dar uma volta no helicóptero da polícia.
Quando o estado de saúde de Chris piorou, Austin contactou o departamento de polícia do Arizona e planeou um dia no qual o miúdo poderia satisfazer todos os seus desejos. A 29 de Abril de 1980, Austin e um grupo especializado em cuidados de saúde levaram Chris a sobrevoar a cidade de helicóptero, para além de uma visita ao quartel-general da polícia do Arizona, onde Chris foi nomeado o primeiro agente da polícia honorário daquela instituição. Contudo, a sua experiência não tinha terminado. Faltava-lhe um uniforme e, durante uma noite inteira, três colaboradoras da loja que costurava os fatos dos agentes policiais, trabalharam sem parar para fazer um uniforme à medida de Chris. No dia 1 de Maio, os oficiais da polícia ofereceram-lhe o fato e proporcionaram a Chris um teste de condução das motas que utilizavam nas suas patrulhas, no qual passou com distinção, tendo por isso ganho um pin com as “asas” para prender no fato. No dia 2 de Maio, Chris estava de volta ao hospital, tendo pedido que, da cama onde estava, pudesse sempre ver o seu uniforme, o seu capacete de mota e as famosas “asas” que atestavam a sua “competência” enquanto polícia. No dia seguinte, Chris faleceu, mas não antes de ver todos os seus desejos realizados.” Depois da história de Christopher, como é que a realização de um único desejo deu origem à maior fundação do mundo que transforma sonhos em realidades? Depois do desejo de Chris Greicius ter sido formulado, todos os que estiveram envolvidos na sua realização reflectiram profundamente na experiência mágica que tinham vivido. O impacto que a realização do desejo teve em Chris e na sua mãe fê-los pensar na felicidade e esperança que tinham conseguido imprimir, mesmo que apenas por um dia e questionaram-se de imediato se não seria possível fazer o mesmo a outras crianças. A ideia de conceder desejos a outras crianças doentes foi apresentada a muitas das pessoas que contribuíram para dar uns momentos de felicidade a Chris. A sua mãe, Linda e os demais envolvidos abraçaram o plano de continuar a conceder desejos a crianças que precisassem de esperança, força e de alguma alegria durante os tempos de incerteza que pautam a vida destas crianças. E foi assim que nasceu o Memorial Make-a-Wish de Chris Greicius – hoje conhecido por Make-a-Wish Foundation. Trinta anos depois, a Make-a-Wish Foundation tem presença em 33 países do mundo, tendo concedido mais de 220 mil desejos. Quais são as condições necessárias para que um desejo seja concedido?Existem quatro passos fundamentais. O primeiro diz respeito a uma espécie de “candidatura”, que pode ser feita por médicos, família, amigos ou até pela própria criança. Miúdos dos três aos 18 anos e que não realizaram nenhum desejo por parte de outra instituição, podem ser elegíveis para a realização do desejo. A elegibilidade médica é igualmente fundamental e é determinada com a ajuda do médico responsável pelo tratamento da criança. Ou seja, para se propor à realização de um desejo, a criança terá de ser diagnosticada com uma doença progressiva, degenerativa ou maligna, que possa colocar a sua vida em perigo. Encontrar o desejo certo é a terceira fase do processo. Um “realizador de sonhos” visita de seguida a criança para saber exactamente o que esta mais desejaria, explorando o seu imaginário. Por último, e depois de identificado o desejo, este é realizado, o que dá origem a uma experiência incrível que enriquece não só a vida da criança e da sua família mas, na maioria dos casos, de toda a comunidade na qual esta está inserida. De que forma é articulado o trabalho realizado na vossa Fundação para que um desejo se torne realidade? A Make-a-Wish Foundation e todos os seus afiliados recebem apoio de um conjunto variado de fontes. Os contributos são provenientes de pessoas individuais, de empresas, de donativos privados ou de outras fundações, sem esquecer o importante trabalho que é feito pelos nossos colaboradores e voluntários. Temos o privilégio de possuir doadores e patrocinadores apaixonados e dedicados à nossa causa, dos mais diferentes tipos e dimensões, e que são essenciais para dar corpo à nossa missão. Contudo, são os voluntários que mais contribuem para a “espinha dorsal” da nossa missão. É graças ao empenho e apoio de voluntários em todo o mundo que conseguimos realizar os sonhos das nossas crianças. Actualmente, a Fundação conta com 7500 voluntários a nível global. Qual foi o pedido de desejo mais difícil de concretizar? Apesar dos desejos que recebemos poderem variar entre um simples pedido de um brinquedo até uma viagem para um destino exótico, cada pedido é tratado como verdadeiramente importante. E enquanto a logística de certos desejos é mais complexa do que outros, cada experiência é discutida e planeada por forma a conceder o mais acalentado desejo da criança e oferecer-lhe uma experiência que dotará a sua vida de um maior significado. É possível definir o trabalho da Make-a-Wish em números?A visão da Make-a-Wish Foundation International é continuar a crescer de forma a poder conceder o maior número de desejos possível a crianças de todo o mundo. Desde o seu início, já conseguimos realizar 220 mil desejos. Só em 2008, o número ascendeu aos 13425 nos Estados Unidos e a 7165 nos demais 33 países onde a Make-a-Wish tem filiais (Portugal incluído, v. Caixa). E quais as principais fontes de financiamento? A Make-a-Wish International financia as suas iniciativas através de contributos individuais, de donativos empresariais [só a Disney e a Macy’s contribuem com mais de cinco milhões de dólares anualmente], de subsídios e outro tipo de apoios. A organização conta igualmente com o apoio de outro tipo de contributos mais específicos para diminuir o custo dos bens e serviços [por exemplo, determinadas companhias aéreas estão ligadas ao programa oferecendo as viagens]. E, pelo quinto ano consecutivo, a nossa fundação recebeu a mais alta apreciação - quatro estrelas – fornecida pela Charity Navigator, a maior entidade independente de avaliação de projectos de caridade, pela nossa capacidade de gerir e aumentar as nossas receitas da forma mais fiscalmente responsável. Apenas quatro por cento das caridades avaliadas pela Charity Navigator receberam até agora esta “nota excepcional”, sendo que 84% dos nossos fundos são investidos directamente na realização dos sonhos. Apesar de, inevitavelmente, todas as histórias vos tocarem, existe alguma que vos tenha marcado especialmente? Sim, é verdade que cada história é uma história. Mas há uma que, por ser singular, nos marcou profundamente: a de Wang Soo, um jovem de 15 anos, da Coreia, cujo maior desejo era oferecer um casamento digno ao pai e ...à madrasta. Quando tinha oito anos, a sua mãe biológica divorciou-se do pai e, há cinco anos que Wang vive com o pai e com a madrasta, uma mulher extraordinária perfeitamente devotada a Wang e à sua irmã mais nova. Com um rendimento mensal muito reduzido, a família vive da ajuda governamental e nunca teve dinheiro para fazer uma cerimónia de casamento. Wang Soo é um jovem tímido e sossegado que nunca expressou o seu agradecimento à madrasta que, nos últimos dois anos, altura em que lhe foi diagnosticado leucemia, tem sido a sua maior companhia e apoio no hospital. Assim, quando os voluntários da Make-a-Wish Coreia visitaram Wang Soo, ele perguntou muito a medo se o seu desejo especial poderia ser concretizado: a preparação de toda a cerimónia de casamento do pai com a madrasta. Todos os colaboradores ficaram surpreendidos com o pedido atípico, mas extremamente empenhados em poderem satisfazê-lo. E, graças a uma coincidência, este seria o desejo número 1000 a ser concedido na Coreia. A equipa esmerou-se, transportando 40 convidados em limusinas até Seul, onde os noivos estavam vestidos a rigor. Para tornar a cerimónia ainda mais especial, a Make-a-Wish Coreia convidou um menino, contemplado com o 900º desejo da Fundação, para tocar ao piano a marcha nupcial. Depois da cerimónia, o casal seguiu para o Grand Hyatt Hotel para a sua lua-de-mel. Mas antes, uma chorosa madrasta manifestou o seu agradecimento ao seu enteado: “Enquanto adolescente, o Wang Soo poderia ter escolhido muitas coisas que gostaria de ter ou fazer para ver realizado o seu mais precioso desejo, mas optou por desistir dos seus próprios sonhos para me fazer feliz a mim”. Contudo e como Wang Soo sublinhou, “não havia nada que me fizesse mais feliz”.
Esta é a história que deu início à Make-a-Wish Foundation, cuja missão é realizar os sonhos de crianças e jovens que têm a sua vida em risco com doenças progressivas, degenerativas ou malignas e que é hoje a maior do mundo. Em entrevista, Katie Feuer, directora de marketing da Make-a-Wish Foundation International, traça a história da Fundação e os seus feitos ímpares.
Depois da história de Christopher, como é que a realização de um único desejo deu origem à maior fundação do mundo que transforma sonhos em realidades?
Depois do desejo de Chris Greicius ter sido formulado, todos os que estiveram envolvidos na sua realização reflectiram profundamente na experiência mágica que tinham vivido. O impacto que a realização do desejo teve em Chris e na sua mãe fê-los pensar na felicidade e esperança que tinham conseguido imprimir, mesmo que apenas por um dia e questionaram-se de imediato se não seria possível fazer o mesmo a outras crianças. A ideia de conceder desejos a outras crianças doentes foi apresentada a muitas das pessoas que contribuíram para dar uns momentos de felicidade a Chris. A sua mãe, Linda e os demais envolvidos abraçaram o plano de continuar a conceder desejos a crianças que precisassem de esperança, força e de alguma alegria durante os tempos de incerteza que pautam a vida destas crianças. E foi assim que nasceu o Memorial Make-a-Wish de Chris Greicius – hoje conhecido por Make-a-Wish Foundation. Trinta anos depois, a Make-a-Wish Foundation tem presença em 33 países do mundo, tendo concedido mais de 220 mil desejos.
Quais são as condições necessárias para que um desejo seja concedido?Existem quatro passos fundamentais. O primeiro diz respeito a uma espécie de “candidatura”, que pode ser feita por médicos, família, amigos ou até pela própria criança. Miúdos dos três aos 18 anos e que não realizaram nenhum desejo por parte de outra instituição, podem ser elegíveis para a realização do desejo. A elegibilidade médica é igualmente fundamental e é determinada com a ajuda do médico responsável pelo tratamento da criança. Ou seja, para se propor à realização de um desejo, a criança terá de ser diagnosticada com uma doença progressiva, degenerativa ou maligna, que possa colocar a sua vida em perigo. Encontrar o desejo certo é a terceira fase do processo. Um “realizador de sonhos” visita de seguida a criança para saber exactamente o que esta mais desejaria, explorando o seu imaginário. Por último, e depois de identificado o desejo, este é realizado, o que dá origem a uma experiência incrível que enriquece não só a vida da criança e da sua família mas, na maioria dos casos, de toda a comunidade na qual esta está inserida.
De que forma é articulado o trabalho realizado na vossa Fundação para que um desejo se torne realidade?
A Make-a-Wish Foundation e todos os seus afiliados recebem apoio de um conjunto variado de fontes. Os contributos são provenientes de pessoas individuais, de empresas, de donativos privados ou de outras fundações, sem esquecer o importante trabalho que é feito pelos nossos colaboradores e voluntários. Temos o privilégio de possuir doadores e patrocinadores apaixonados e dedicados à nossa causa, dos mais diferentes tipos e dimensões, e que são essenciais para dar corpo à nossa missão. Contudo, são os voluntários que mais contribuem para a “espinha dorsal” da nossa missão. É graças ao empenho e apoio de voluntários em todo o mundo que conseguimos realizar os sonhos das nossas crianças. Actualmente, a Fundação conta com 7500 voluntários a nível global.
Qual foi o pedido de desejo mais difícil de concretizar?
Apesar dos desejos que recebemos poderem variar entre um simples pedido de um brinquedo até uma viagem para um destino exótico, cada pedido é tratado como verdadeiramente importante. E enquanto a logística de certos desejos é mais complexa do que outros, cada experiência é discutida e planeada por forma a conceder o mais acalentado desejo da criança e oferecer-lhe uma experiência que dotará a sua vida de um maior significado.
É possível definir o trabalho da Make-a-Wish em números?A visão da Make-a-Wish Foundation International é continuar a crescer de forma a poder conceder o maior número de desejos possível a crianças de todo o mundo. Desde o seu início, já conseguimos realizar 220 mil desejos. Só em 2008, o número ascendeu aos 13425 nos Estados Unidos e a 7165 nos demais 33 países onde a Make-a-Wish tem filiais (Portugal incluído, v. Caixa).
E quais as principais fontes de financiamento?
A Make-a-Wish International financia as suas iniciativas através de contributos individuais, de donativos empresariais [só a Disney e a Macy’s contribuem com mais de cinco milhões de dólares anualmente], de subsídios e outro tipo de apoios. A organização conta igualmente com o apoio de outro tipo de contributos mais específicos para diminuir o custo dos bens e serviços [por exemplo, determinadas companhias aéreas estão ligadas ao programa oferecendo as viagens]. E, pelo quinto ano consecutivo, a nossa fundação recebeu a mais alta apreciação - quatro estrelas – fornecida pela Charity Navigator, a maior entidade independente de avaliação de projectos de caridade, pela nossa capacidade de gerir e aumentar as nossas receitas da forma mais fiscalmente responsável. Apenas quatro por cento das caridades avaliadas pela Charity Navigator receberam até agora esta “nota excepcional”, sendo que 84% dos nossos fundos são investidos directamente na realização dos sonhos.
Apesar de, inevitavelmente, todas as histórias vos tocarem, existe alguma que vos tenha marcado especialmente?
Sim, é verdade que cada história é uma história. Mas há uma que, por ser singular, nos marcou profundamente: a de Wang Soo, um jovem de 15 anos, da Coreia, cujo maior desejo era oferecer um casamento digno ao pai e ...à madrasta. Quando tinha oito anos, a sua mãe biológica divorciou-se do pai e, há cinco anos que Wang vive com o pai e com a madrasta, uma mulher extraordinária perfeitamente devotada a Wang e à sua irmã mais nova. Com um rendimento mensal muito reduzido, a família vive da ajuda governamental e nunca teve dinheiro para fazer uma cerimónia de casamento.
Wang Soo é um jovem tímido e sossegado que nunca expressou o seu agradecimento à madrasta que, nos últimos dois anos, altura em que lhe foi diagnosticado leucemia, tem sido a sua maior companhia e apoio no hospital.
Assim, quando os voluntários da Make-a-Wish Coreia visitaram Wang Soo, ele perguntou muito a medo se o seu desejo especial poderia ser concretizado: a preparação de toda a cerimónia de casamento do pai com a madrasta. Todos os colaboradores ficaram surpreendidos com o pedido atípico, mas extremamente empenhados em poderem satisfazê-lo. E, graças a uma coincidência, este seria o desejo número 1000 a ser concedido na Coreia. A equipa esmerou-se, transportando 40 convidados em limusinas até Seul, onde os noivos estavam vestidos a rigor. Para tornar a cerimónia ainda mais especial, a Make-a-Wish Coreia convidou um menino, contemplado com o 900º desejo da Fundação, para tocar ao piano a marcha nupcial. Depois da cerimónia, o casal seguiu para o Grand Hyatt Hotel para a sua lua-de-mel. Mas antes, uma chorosa madrasta manifestou o seu agradecimento ao seu enteado: “Enquanto adolescente, o Wang Soo poderia ter escolhido muitas coisas que gostaria de ter ou fazer para ver realizado o seu mais precioso desejo, mas optou por desistir dos seus próprios sonhos para me fazer feliz a mim”. Contudo e como Wang Soo sublinhou, “não havia nada que me fizesse mais feliz”.
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