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Em Hong Kong, a luta pró-democracia faz-se nas bancas e na bolsa: Next Digital já sobe 1.120%

Num sinal de solidariedade e apoio ao presidente da Next Digital, crítico de Pequim, os apoiantes do movimento pró-democracia estão a comprar ações da dona do Apple Daily e milhares de exemplares do jornal.

Rita Faria afaria@negocios.pt 11 de Agosto de 2020 às 11:12
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Uma subida de mais de 1.120%. É este o balanço de dois dias de negociação da maior empresa de media cotada em Hong Kong, desde que o seu presidente e fundador foi detido pelas autoridades, esta segunda-feira.

É que depois de terem marchado pelas ruas, ocupado o distrito financeiro e protagonizado confrontos violentos com a polícia, os apoiantes do movimento pró-democracia encontraram agora uma nova forma de protesto: comprar ações.

A iniciativa, que tem sido incitada nas redes sociais e em fóruns online começou logo no início da semana, depois de Jimmy Lai, crítico de Pequim e presidente da Next Digital – dona de uma dos mais importantes jornais da região, o Apple Daily – ter sido detido e as instalações do jornal alvo de buscas.

De imediato, as redes sociais e fóruns como o LIHKG encheram-se de mensagens a incitar a compra de ações da empresa, como forma de protesto contra a detenção de Lai e a repressão da liberdade por parte das autoridades. Resultado? Uma valorização de mais de 1.120% em dois dias, que levou os títulos da empresa de media para o valor mais alto em sete anos.

"Há um grande número de investidores de retalho a comprar", afirmou Castor Pang, diretor de research da Core Pacific-Yamaichi, citado pela Bloomberg. "Se olharmos para o preço de compra e de venda, e a dimensão das compras individuais, a maioria é super pequena".

A Lusa conta que o antigo colunista financeiro do jornal Stanley Wong anunciou ontem no Facebook, que gastou 95 mil dólares de Hong Kong (10.434 euros) para comprar 1,2 milhões de ações da empresa, vendendo-as com ganhos ao final do dia, com os lucros a serem aplicados em bolsas de estudo para alunos universitários no território.

Também o presidente honorário da Federação de Tecnologia de Informação de Hong Kong, Francis Fong, disse ter comprado 50 mil acções da Next Digital, por 8.800 dólares de Hong Kong (cerca de 966 euros), afirmando que considerava o investimento como o equivalente a uma assinatura do jornal durante dez anos, de acordo com o Apple Daily.

"A liberdade de imprensa não tem preço. As organizações dos meios de comunicação social precisam do nosso apoio. O valor na bolsa é uma indicação de que a empresa é saudável e está a funcionar", disse Fong, citado pelo diário.

A forte subida das ações elevou em 2,6 mil milhões de dólares de Hong Kong (cerca de 290 milhões de euros) a capitalização bolsista da Next Digital, controlada em 71% por Jimmy Lai, de acordo com os dados compilados pela Bloomberg.

De acordo com alguns analistas citados pela agência noticiosa, para a subida acentuada poderá estar a contribuir também a convicção de que Lai terá de vender a empresa, pelo que os ganhos poderão revelar-se de curta duração.

"Os investidores devem evitar a ação, porque há um grande risco de reversão", adianta Stevan Tam, diretor de research da Fulbright Securities Ltd, citado pela Bloomberg. "Antecipo que a subida acabará dentro de um ou dois dias".

Além da compra de ações, os apoiantes do movimento pró-democracia também estão a mostrar a sua solidariedade promovendo a compra do jornal mais importante do grupo, o Apple Daily, que aumentou a tiragem de cerca de 70 mil exemplares para 550 mil, esta terça-feira.

A Lusa descreve que os habitantes de Hong Kong fizeram filas, esta terça-feira, para comprar o jornal, que tem na capa uma foto de página inteira de Lai, escoltado pela polícia, com o título "O Apple [Daily] vai continuar a lutar".

Jimmy Lai é descrito nos meios de comunicação oficiais chineses como "um traidor", que inspirou as manifestações pró-democracia realizadas na região chinesa, e o líder de um grupo de personalidades acusadas de conspirar com nações estrangeiras para prejudicar a China.

Em junho, duas semanas antes de ser aprovada a nova lei de segurança nacional, Jimmy Lai disse à AFP que já esperava ser detido. "Estou pronto para ir para a prisão. Se isso acontecer, terei a oportunidade de ler livros que ainda não li. A única coisa que posso fazer é ser positivo", afirmou.

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