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Wirecard processa Financial Times e é alvo de buscas em Singapura. Ações afundam 14%

A fintech alemã que superou o Deutsche Bank em valor de mercado está a ser investigada pelas autoridades de Singapura depois de uma série de artigos do FT que apontam para irregularidades financeiras. A fintech vai processar o jornal.

Reuters
Rita Faria afaria@negocios.pt 08 de Fevereiro de 2019 às 13:23
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As ações da Wirecard estão a registar fortes perdas na bolsa de Frankfurt, depois de as autoridades de Singapura terem anunciado que fizeram buscas nos escritórios da fintech alemã naquela região.

Os títulos estão a descer 7,09% para 102,90 euros, depois de terem chegado a afundar um máximo de 13,77% para 95,50 euros, o valor mais baixo desde o início de abril do ano passado.

As buscas foram confirmadas também pela própria Wirecard que, num email citado pela Bloomberg, refere que responsáveis da empresa encontraram-se com as autoridades na sede da companhia em Singapura e "forneceram à polícia material de apoio abrangente em relação à sua investigação".

Em causa estão suspeitas de fraude e lavagem de dinheiro na fintech alemã, práticas que foram denunciadas numa investigação da firma de advocacia Rajah & Tann, cujas conclusões têm sido divulgadas pelo Financial Times. Desde o final de janeiro que o jornal está a "desconstruir" a história de sucesso desta fintech, com a publicação de uma série de artigos sobre a forma como a empresa usou esquemas fraudulentos para expandir a sua atividade na região Ásia-Pacífico.

Num outro comunicado divulgado esta sexta-feira, a Wirecard anunciou que vai processar o Financial Times, que acusa de divulgação de "notícias antiéticas" sobre as suas práticas contabilísticas.

"No artigo publicado ontem (quinta-feira), os funcionários da Wirecard são prejudicados por alegações não comprovadas e falsas. Usaremos todos os meios legais disponíveis para proteger a empresa e, em particular, os nossos funcionários e os seus direitos pessoais", refere o comunicado.

"Viagem de ida e volta"

O artigo a que se refere o comunicado explica o esquema que foi utilizado por um executivo sénior da empresa, Edo Kurniawan, responsável pela contabilidade do grupo na região Ásia-Pacífico, de forma a criar números que convencessem os reguladores da autoridade monetária de Hong Kong a emitirem a licença que permitiria à Wirecard distribuir cartões bancários pré-pagos no território chinês. O grupo procurava assumir as operações de pagamento do Citigroup, cobrindo 20.000 retalhistas em 11 países, da Índia à Nova Zelândia.

As aprovações regulatórias em todos os territórios eram cruciais, mesmo que isso significasse inventar números para serem usados no pedido de licença de Hong Kong. Segundo o artigo do FT, Kurniawan desenvolveu então uma prática conhecida como "viagem de ida e volta": uma quantia de dinheiro saía do banco que a Wirecard detém na Alemanha, aparecia no balanço de uma subsidiária inativa em Hong Kong, daí saía para surgir nos registos de um "cliente" externo, e for fim regressava à Wirecard na Índia, onde aparecia aos olhos dos auditores locais como uma receita comercial legítima.

O que poderia parecer um esquema isolado de Kurniawan revelou-se, porém, um método padrão da empresa nas suas operações asiáticas, como foi demonstrado num relatório preliminar sobre a investigação de uma das empresas de advocacia mais importantes da Ásia.

A primeira investigação do FT, publicada a 30 de janeiro, contava como Edo Kurniawan usou contratos falsos para inflacionar as receitas da Wirecard. Um documento citado pela publicação descreve, por exemplo, contratos com um valor de 13 milhões de euros, datados de 2017 e 2018, entre quatro subsidiárias da Wirecard e a Flexi Flex, uma empresa de tubagens e sistemas hidráulicos com escritórios em Singapura e na Malásia.

O FT também viu faturas com o logótipo da Flexi Flex e um acordo de vendas que indica que a empresa forneceu 3 milhões de euros em software à Aprisma, uma subsidiária indonésia da Wirecard. Contudo, um diretor da Flexi Flex disse ao FT que nunca ouviu falar da Wirecard, e que a sua empresa não vende software, não tem clientes indonésios e nem sequer recorre a uma empresa de pagamentos.

O CEO da Wirecard, Markus Braun – que é também o maior acionista da empresa com uma participação de 7% - garantiu, na segunda-feira, que não foi encontrada qualquer evidência de más práticas nem por parte da firma Rajah & Tann nem pela equipa de compliance da fintech.

 

Fundada em 1999, a Wirecard tem sido um alvo preferencial dos short-sellers, que têm questionado os seus métodos contabilísticos e rápida expansão internacional, já tendo levantado dúvidas sobre as demonstrações financeiras do grupo em 2008, 2015 e 2016, devido a aparentes inconsistências.

Contudo, sublinha a Reuters, a empresa tem mantido o suporte da comunidade financeira, com 24 dos 28 analistas que acompanham as ações a atribuírem-lhes uma recomendação de "comprar". O seu preço-alvo médio é de 210 euros, mais do dobro da sua cotação atual.

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