Investidor Privado Gestores em ponto pequeno

Gestores em ponto pequeno

Dinheiro para o lanche, idas ao cinema ou para poupar: ajude as crianças a gerirem o seu mini-orçamento. Primeiro semanalmente, depois mensalmente. O que interessa é que pais e filhos participem desta nova experiência. E não se esqueça: você é o seu maior exemplo.
Ana Pimentel 21 de outubro de 2010 às 09:00
Simão tem 10 anos e 10 euros para gerir por semana. O irmão mais velho, Vasco, 12 anos, tem a mesma quantia: dois euros por cada dia útil. O início das aulas trouxe novos hábitos à família de Graça Figueiredo, 44 anos. Agora, as crianças vão de autocarro para a escola e são responsáveis pela gestão do seu dinheiro. E nem precisam de andar com moedas ou notas: a semanada serve para carregar o cartão escolar.

"O facto das crianças terem acesso a um montante fixo num determinado período de tempo irá ajudá-las a aprender a gerir o dinheiro e, naturalmente, a forma como o gastam", frisa Catarina Rivero, psicóloga e terapeuta familiar. Assim, tenderão a ganhar uma maior consciência dos custos e possibilidades, ajudando a gerir os impulsos para o consumo. Regra geral, a semanada destina-se aos gastos diários de lanche, revistas, jogos ou colecções que a criança goste de fazer. Se os pais quiserem considerar também uma actividade que a criança frequente ou o dinheiro despendido com o telemóvel, "poderá ajudar a ganhar consciência do ser valor e custo".

As semanadas do Simão e do Vasco servem para pagar o lanche da escola, cerca de 1,30 euros, e podem utilizar o dinheiro que sobra como quiserem. Graça está atenta. No site da escola, tem acesso aos movimentos do cartão e sabe o que é que os filhos andaram a consumir. "Assim, sinto-me mais segura, porque consigo ver se estão a gastar o dinheiro naquilo que é suposto, e eles sabem", diz.

A opção de carregar o cartão partiu das crianças. "Acho que eles se sentem mais seguros do que se tivessem de andar com o dinheiro. O mais velho acha que já é muito importante e tenta orientar um bocadinho o irmão mais novo. Sentem-se independentes e que os pais confiam neles", adianta. Graça considera que este passo foi importante. "Agora, eles têm de gerir um orçamento. É um orçamento pequenino mas não deixa de ser a gestão de um orçamento."

É num mealheiro que os irmãos juntam dinheiro para compras de maior valor. Com o dinheiro que alguns familiares vão dando, já compraram uma Play Station 3. "Temos a preocupação de lhes incutir a ideia de que os pais não podem comprar tudo, de que 'o dinheiro não cresce nas árvores'", comenta Graça.

Simão e Vasco vão continuar a receber uma semanada de 10 euros durante o resto do ano - lectivo. Até porque Graça já lhes explicou que 10 euros vezes quatro semanas, dá 40 euros por mês, "o que não é assim tão pouco". E eles já sabem: se só tem aquele dinheiro para 5 dias, têm de o gerir bem.

Regular os desejos
Susana Albuquerque, secretária-geral da ASFAC - Associação de Instituições de Crédito Especializado, diz que é importante atribuir uma semanada às crianças desde tenra idade. "Assim, aprendem o valor do dinheiro, reflectindo sobre o produtos que necessitam realmente de comprar e percebendo que, muitas vezes, é necessário fazer escolhas", explica.

Os pais devem utilizar estes instrumentos para regular os desejos dos filhos e incutir-lhes a responsabilidade de decisão. Mas alerta: a mesada não é uma obrigação, nem sequer um presente. "É preciso haver um compromisso mútuo e monitorização (não controlo) por parte dos pais, caso contrário, tem o efeito contrário", comenta. Natália Nunes, do Gabinete de Apoio ao Sobreendividado da Deco concorda: os pais têm de ser activos na gestão da semanada. "O seu papel não se esgota no 'dar dinheiro'.". Devem estar atentos e acompanhar a gestão, para que as crianças efectuem os seus gastos de forma racional. "Para os jovens, é importante gerirem uma determinada quantia. Podem poupar, investir e planear gastos maiores a longo prazo", acrescenta.

Pedro Carrilho, autor do livro "O seu primeiro milhão" e fundador da Kash, escola de finanças pessoais, explica que é natural que as crianças cometam erros na gestão da mesada, mas isso faz parte da experiência de aprendizagem. "Uma mesada garante uma maior independência, que deverá ser respeitada nos gastos mais extravagantes, mas bem definida em termos de regras", adianta. Os gastos que deve cobrir variam consoante a idade e o contexto sócio-económico em que vive. Há pais que optam por dar quantias mais pequenas para as despesas correntes das crianças, como fez Graça. Para Carrilho, esta é uma boa forma de se começar, pois a aprendizagem dos mais novos deve ser gradual.

"É importante que estimule a compreensão da necessidade de escolher, optando por umas coisas em detrimento de outras", explica Sandra Lopes, do Gabinete de Orientação ao Endividamento dos Consumidores. Natália acrescenta que deve sobrar dinheiro para que a criança tenha de escolher se vai poupar ou investir.

Há determinados produtos que podem ser comprados a meias. Se a criança pedir uma mochila de marca, os pais podem fazer-lhe ver que uma mais barata servirá o mesmo objectivo. Se a criança insistir, pode sugerir que, com a sua semanada, pague a diferença, aconselha Natália.





Semanada versus mesada: Qual a idade certa?

Avalie a maturidade da sua criança e decida se é a altura indicada para começar a gerir o seu orçamento sozinha. Importante é que não o faça antes de ela compreender os conceitos básicos de cálculo.

"É a partir dos sete anos que a semanada começa a ganhar mais relevância", explica Pedro Carrilho. As responsabilidades financeiras devem crescer com a idade e, segundo Carrilho, esta é uma fase" óptima para ensinar os processos de escolha". Catarina Rivero concorda: a partir dos sete anos, a criança é capaz de ter noção dos gastos, ganhos e como estes podem ser afectados pelas suas opções. "Contudo, é a partir da pré-adolescência (10-11 anos) que as crianças começam a ter uma maior independência e a pedir dinheiro com maior regularidade."

Para Sandra Lopes, varia consoante a maturidade da criança, mas nunca deve atribuir uma semanada antes de ela compreender os conceitos básicos de cálculo. "Talvez entre os oito e 10 anos, pois é nessas idades que terão de gastar algum dinheiro na obtenção de alguns materiais escolares e nas refeições", comenta. Susana Albuquerque vai mais além: entre os dois e os três anos já é possível ensinar às crianças várias questões relacionadas com o dinheiro, porque é a partir dessa idade que começam a pedir coisas. Mas este valor deve ser baixo, pois nesta idade só tem um objectivo: ensinar o valor do dinheiro. Às crianças com menos de dez anos, Natália Nunes recomenda as semanadas: "Elas ainda não compreendem bem o valor das coisas e podem gastar o dinheiro todo de uma só vez."

"A melhor forma de decidir quanto dar passa por analisar quais os factores económicos e sociais da escola ou zona de residência das crianças", segundo Carrilho. É importante que os pais estabeleçam quais os gastos cobertos pela semanada. "Aconselhar a gerir a mesada que lhes é dada revela-se importante para saberem como e quando podem gastá-la", acrescenta Sandra Lopes.

Não se esqueça de negociar o valor com a própria criança, para que perceba quais as suas necessidades diárias, bem como as possibilidades da família. "É importante ajudar a criança a perceber que o valor atribuído não depende apenas dos seus desejos, mas das limitações reais da família, pelo que terá de haver uma adaptação dos gastos a essa realidade financeira", explica Catarina Rivero.

A partir da adolescência, a semanada pode transformar-se em mesada para estar mais alinhada com a forma como as crianças terão de gerir o dinheiro na vida adulta. "As responsabilidades da criança vão aumentando à medida que têm de gerir o dinheiro por mais tempo", refere Carrilho. Susana Albuquerque acrescenta que é arriscado dar uma mesada a uma criança com menos de 10, 11 anos, porque ainda não tem uma noção realista do tempo. E alerta: os pais devem dar um valor ligeiramente superior ao que é necessário, para incentivarem a criança a poupar.



Passo a Passo

Saiba que comportamentos deve adoptar em cada fase do crescimento do seu filho.


• A partir dos dois anos
Ensine a diferença entre desejos e necessidades, explicando-lhes a importância e as consequências do desperdício de dinheiro. Comece por apresentar-lhe moedas e notas, para que conheçam o seu valor.

• A partir dos três anos
Comece a fazer a lista de compras com o seu filho e leve-o ao supermercado. Aproveite para lhe mostrar o que é caro e barato. Susana Albuquerque sugere que aproveite para lhe dar um euro por semana, se sentir que tem maturidade.

• A partir dos sete anos
Segundo Pedro Carrilho, dos 7 aos 13 o conceito de semanada começa a ganhar mais relevância. As idas ao supermercado continuam a ser excelentes locais para ensinar o valor do dinheiro. É importante que as crianças percebam que o dinheiro é limitado.

• A partir dos 10 a 11 anos
Para Susana Albuquerque, esta é a altura certa para atribuir uma mesada. "Não desanime se o seu filho gastar o dinheiro antes do prazo estipulado. O importante é que vá aprendendo com os seus próprios erros."

• A partir dos 14 anos
A adolescência é um alvo perfeito para o marketing. "Se não forem alertados para os riscos de gastar dinheiro de forma descontrolada, esta idade pode arrasar as poupanças feitas até aqui", diz Carrilho.



O que deve evitar

Dar mesadas a crianças muito pequenas
Crianças com menos de 10 anos ainda não têm noção do tempo e não compreendem o valor das coisas. Podem gastar tudo de uma única vez e acabar por pedir mais dinheiro aos pais.

Estabelecer um valor muito alto ou baixo
Uma criança com muito dinheiro pode ver-se estimulado para um consumismo excessivo. Por outro lado, um valor irrisório pode fazer com que o não se sinta capaz de gerir correctamente o seu próprio dinheiro.

Ceder facilmente aos extras
Se os pais cederem aos pedidos extra sistematicamente, os filhos não aprendem a controlar os seus impulsos. "Quando isso acontece, a mesada perde a sua função", diz Susana Albuquerque.

Fazer da mesada um prémio
A criança não deve estudar para receber prémios financeiros, nem deve sofrer um corte na mesada por ter tido maus resultados escolares. O estudo é uma tarefa a que se devem dedicar pela importância que tem nas suas vidas.

Esconder a realidade
Evite que as limitações económicas da família sejam escondidas da criança, partilhando as estratégias que utilizam para superá-las.
Não envolva demasiado os filhos em situações de endividamento, se for essa a situação dos pais.



O que deve fazer

Distinguir as despesas
Defina em conjunto com o seu filho quais as despesas abrangidas pelo dinheiro da semanada ou mesada e as que serão cobertas pelos pais.

Escolher um dia
Escolha o dia da semana mais adequado e cumpra sempre com a data do pagamento. O cumprimento do acordado entre a família é uma boa forma de dar o exemplo e ensinar a criança a ser responsável.

Incentivar a poupança
Dê uma folga monetária ao seu filho para que aprenda a economizar, sem que se sinta pressionado. "Exigir poupança ou investimento de uma criança ou adolescente com orçamento apertado pode gerar conflitos, passando a associar o dinheiro a conflitos", diz Susana Albuquerque.

Saber negociar
Quando os filhos pedirem um aumento ou um "extra", analise o motivo do pedido. Se houver uma boa causa, não veja isso como um problema. Mas se ocorrer por gastos desnecessários, é mais saudável que sintam as consequências dos seus exageros.

Valorizar e promover
Esteja atento à forma como o seu filho gasta o dinheiro e demonstre que apoia o seu esforço para gastar dentro das possibilidades.
A semanada ou mesada é uma óptima oportunidade de aprendizagem para toda a família e aumenta a confiança dos pais.