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Porque é que os preços do ouro não estão mais altos?

Apesar de uma queda no consumo de ouro no primeiro semestre, a procura por moedas e barras de ouro para investimento foi a mais alta desde 2013. E os bancos centrais também aumentaram o volume de compras. Mas porque não estão os preços do metal precioso a subir mais? O UBS aponta três fatores.

O metal amarelo tem brilhado mais do que nunca, numa altura em que os inves    tidores procuram um refúgio para os seus ativos, num contexto de maior risco no plano económico e geopolítico.
Leonhard Foeger/Reuters
Carla Pedro cpedro@negocios.pt 01 de Agosto de 2021 às 17:29
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O consumo de metal amarelo totalizou 1.833 toneladas nos primeiros seis meses do ano, o que correspondeu a uma queda de 10% face ao mesmo período de 2020. No entanto, no segundo trimestre já se começou a observar uma retoma firme da procura pelo metal precioso, até pelos Exchange-Traded Funds, se bem que não tenha sido suficiente para contrabalaçar o desinvestimento dos ETF – que armazenam ouro para os investidores – entre janeiro e março, segundo os dados mais recentes do Conselho Mundial do Ouro.

 

No que diz respeito aos Exchange-Traded Funds (produtos negociados em bolsa, cujo principal objectivo é replicar o desempenho de um determinado índice, commodity ou cabaz de ativos) de ouro, a entrada de 40,7 toneladas no segundo trimestre apenas compensou parcialmente as saídas registadas no primeiro trimestre. No conjunto dos seis meses, a saída de ouro dos ETF ascendeu a 129,3 toneladas – a maior desde 2014.

 

No entanto, a procura por ouro para joalharia no primeiro semestre disparou 60% em termos homólogos. Por outro lado, a procura por moedas e barras para investimento aumentou 56% (594 toneladas) face ao período de janeiro a junho de 2020, o crescimento mais alto desde 2013.

 

Também as compras por parte dos bancos centrais permaneceram elevadas no segundo trimestre, com a entrada nas suas reservas de 199,9 toneladas. O aumento das reservas auríferas mundiais no total do semestre foi de 333,2 toneladas – 39% mais do que a média dos últimos cinco anos para o período de janeiro a junho. E as compras de maior escala foram operadas pela Tailânda, Hungria e Brasil, refere o Conselho Mundial do Ouro.

 

Mas então, com esta perceção de um aumento da aposta no ouro, porque é que os preços do metal precioso não estão mais altos, atendendo até a que os juros reais da dívida soberana dos EUA a 10 anos (que correspondem às "yields" nominais, sem as expectativas para a inflação) caíram para um mínimo histórico de 1,12%? Esta é a pergunta feita pelos analistas de matérias-primas do UBS num relatório de análise a que o Negócios teve acesso.

 

Quando os juros da dívida caem, não ficam tão atrativos em termos de remuneração. Como o ouro não remunera juros, normalmente é preterido quando as "yields" das obrigações estão em alta – e o facto de os juros estarem agora em queda devia alimentar mais o preço do metal amarelo, mas não é isso que está a acontecer.

 

Para o UBS, há três fatores que levam a que a cotação do ouro não esteja mais alta. E o primeiro prende-se com o facto de os "drivers" técnicos – e não fundamentais – estarem a pesar indevidamente nos juros das obrigações do Tesouro dos EUA. "Ou seja, a recente descida das ‘yields’ da dívida norte-americana não é um reflexo de fracas perspetivas de retoma da economia do país [que justificaria a maior aposta na dívida e consequente queda dos juros], um facto reforçado por uma volatilidade relativamente baixa do índice S&P 500", explica Giovanni Staunovo, estratega de matérias-primas do UBS, um dos autores do relatório.

 

Já o segundo fator reside no facto de o posicionamento dos investidores no dólar, que é de aposta a longo prazo na nota verde, refletir a expectativa de uma robustez da moeda norte-americana (que constitui um revés para o ouro, já que os ativos denominados em dólares, como é o caso, ficam assim menos atrativos para quem negoceia com outras moedas).

 

E, por fim, sublinha o banco suíço, o mercado continua a antecipar que a Fed irá começar a retirar gradualmente os seus estímulos [o chamado ‘tapering’] em inícios de 2022 devido ao bom andamento da economia.

 

Como tal, com a Fed a reduzir os programas de compras de ativos, a retoma pós-pandemia a prosseguir e o dólar a valorizar, deixa de haver tanto apetite por valores-refúgio, como é o caso do ouro, e há uma maior aposta em ativos de risco – como as ações, com as bolsas nos EUA e na Europa a atingirem máximos históricos.

 

"Estamos convictos de que os preços do ouro não estão mais altos devido ao facto de o panorama para os ativos de risco [há agora um maior apetite] estar completamente diferente de há um ano. Assim, mantemos a nossa estimativa de uma queda da cotação do ouro para 1.700 dólares por onça no final deste ano, devendo depois descer ainda mais em 2022 à medida que o ‘tapering’ começar", salienta a análise do UBS.

 

O ouro negoceia atualmente em torno dos 1.815 dólares por onça, tanto no preço spot em Londres como nos contratos de futuros em Nova Iorque.

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