João Sousa Andrade 02 de Fevereiro de 2015 às 21:10

A política monetária do "quantitative easing"

A política do "quantitative easing" (QE) pode ser designada por política monetária do desespero. Se dissermos ao não economista, ou a alguém não muito interessado em assuntos de economia, que com esta política os bancos centrais procuram desesperadamente colocar moeda em circulação na economia e que em paralelo desejam que as pessoas se convençam de que os preços vão subir num futuro próximo, estas pessoas ficariam surpreendidas.

 

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Porque não distribuem simplesmente o dinheiro pelas pessoas? O efeito não será o desejado? Mas se não se trata de aumentar a despesa pela despesa, mas antes aumentar a despesa que pode criar emprego, porque não dar o dinheiro às empresas?

 

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Nos casos do Japão e dos EUA, as autoridades monetárias praticaram e praticam formas de QE, procurando desta forma responder ao marasmo da procura global. Mas o caso europeu será uma novidade. Tidos em conta acontecimentos num passado recente, a medida não será revolucionária. Mario Draghi tem desenvolvido acções numa continuidade natural. Há pouco mais de dois anos, num efeito anúncio de grande sucesso, declarou que o BCE tudo faria para defender o euro; ou seja, não permitiria taxas de juro de dívida pública nacional de natureza especulativa. O BCE estabilizou estas taxas de longo prazo e para isso não gastou 1 euro. Longe estávamos da concepção de política que levou Jean-Claude Trichet a aumentar as taxas de juro no início da crise financeira porque os "astrólogos" do BCE previam a subida da inflação. Há uns meses, o BCE, numa acção original impõe um encargo aos bancos sobre reservas excedentárias. Esta medida era sugerida por economistas americanos para o seu país, mas foi Draghi quem a decidiu para a Europa.

 

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Vejamos o que tem acontecido nos EUA. De meados de 2008 a meados de 2014, a base monetária constituída pela nota e moeda divisionária mais as reservas dos Bancos junto da Autoridade Monetária foi multiplicada por praticamente 5. Um aumento brutal. Este aumento traduziu-se em meios de pagamento (M1) na economia? Para o mesmo período os meios de pagamento duplicaram.

 

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Ainda há poucos meses os economistas americanos faziam esforços a propor medidas para que os meios de pagamento aumentassem na economia em proporção mais próxima do que aconteceu à base monetária. A política de QE não estava a ter todos os efeitos que se pretendiam. Economistas americanos desdobravam-se em medidas imaginativas de política, tais como: a autoridade monetária emprestar directamente dinheiro a empresas com necessidades de financiamento; lançar um imposto sobre as reservas excedentárias dos bancos; instituir regime de créditos bonificados; ou, a mais citada, pôr o Governo a fazer despesas sem qualquer racionalidade que não fosse "gastar dinheiro" para que as famílias aumentassem o dinheiro de que dispunham.

 

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O principal problema do QE é fazer com que os meios de pagamento em circulação na economia aumentem. De nada serve as autoridades monetárias "fazerem compras" aos bancos se estes ficarem com o dinheiro parado limitando-se a aumentar as reservas.

 

Vamos ter um QE europeu como o norte-americano? Logo à partida existem grandes diferenças. No actual sistema europeu os bancos serão penalizados se tiverem reservas excedentárias, pelo que não se está a prever que se "encham" de moeda que só lhes trará custos. Isto significa que a moeda que obtêm junto do BCE dará origem a crédito a empresas? Para isso é necessário que estas o queiram e que os bancos avaliem em conformidade o risco associado. Não sendo assim, o BCE até pode ser original e dar vida ao helicóptero de Friedman que distribuirá a moeda no heliporto dos bancos, não na cidade. Como esta terá custos para os bancos, nenhum banqueiro subirá ao terraço para apanhar o dinheiro.

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Um dos anúncios esperados com o QE é a subida da taxa de inflação no futuro que tornará aliciante obter créditos agora a taxa de juro muito baixa e vir a pagar esses créditos com taxas de inflação mais elevadas. Não se espera que os guardiões da estabilidade dos preços sejam reformados para que tal venha a acontecer na Europa. Este último efeito está à partida posto de parte deste lado do Atlântico.

 

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Penso então que um novo quadro de QE é sem interesse para a Europa? Não. Ele irá reduzir ainda mais as taxas de juro da dívida pública. Teremos uma situação em que podemos gerir o nosso "stock" de dívida reduzindo os seus custos. Mas não mais do que isto. Os países que ainda se podem endividar vão encontrar uma redução de custos financeiros das suas políticas públicas. Mas como vai chegar o crédito às empresas? Os bancos não emprestam porque antecipam níveis de risco elevados, não há milagre de São Draghi que altere esta situação, ainda por cima ele é italiano e o Papa é argentino.

 

Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

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