pixel

Negócios: Cotações, Mercados, Economia, Empresas

Notícias em Destaque
João Sousa Andrade
15 de Junho de 2016 às 19:30

Pode o padrão-ouro ser preferível ao euro alemão?

O nosso sistema monetário europeu revelou-se de consequências mais nefastas do que um sistema baseado no padrão-ouro, essa "relíquia do passado" a que Keynes se referia há quase um século.

Imaginemos o seguinte cenário. O Manifesto ("The All Saints' Day Manifesto") publicado no The Economist, em 1 de novembro de 1975, criticando a proposta de Jacques Delors de uma moeda "única" para uma União Económica e Monetária, gerou a desconfiança neste último projeto. A questão de "em quem devemos confiar" teve um forte impacto. Se os europeus aceitam que os bancos centrais devem ser independentes dos governos, porque não a moeda não ser o resultado de uma livre e sã concorrência de moedas, correspondendo à livre escolha dos cidadãos? 

A nova moeda, a "Europa", que deveria circular em concorrência com as restantes moedas deveria manter o seu poder de compra. A discussão levou a que na procura de moedas preferidas dos agentes europeus todos os países avançaram para o padrão-ouro, a forma mais segura de se defenderem da concorrência das moedas. O nosso escudo retornou ao estatuto de "escudo de ouro". As paridades corresponderam à proporção do ouro que cada moeda representava. Hoje podemos ver como esta solução para a Europa foi a mais sensata. A crise de 2007, do subprime, abateu-se fortemente, na sua continuação, sobre a Europa. As moedas grega, irlandesa e portuguesa sofreram ataques à sua paridade que as afundaram gerando fortes desvalorizações. Como seria de esperar a moeda alemã sofreu fortes valorizações.

Os bancos alemães passaram a impor custos elevados de gestão de contas nos seus bancos a não residentes. As autoridades alemãs impuseram um imposto sobre as transações envolvendo a venda de moeda estrangeira contra marcos. A evolução das novas paridades levou a que o turismo na Grécia ganhasse novo fôlego e a economia grega cresce hoje a taxas desconhecidas antes da crise. A Irlanda ganhou mesmo novos mercados graças, também, à desvalorização da sua moeda. Portugal viu anularem-se alguns dos efeitos negativos da liberalização do comércio dos têxteis verificada há alguns anos e conheceu a abertura de novos mercados.

Estes países viram a sua balança de transações melhorar significativamente graças, também, à queda das importações. A valorização do marco alemão levou, entretanto, ao marasmo da economia alemã que continua a arrastar-se num clima de deflação e desemprego elevado. A queda da procura externa à sua produção, demasiado cara, piorou o saldo negativo da sua balança externa. Na última cimeira dos países de sucesso, Grécia, Irlanda e Portugal, os governantes destes países decidiram desenvolver políticas expansionistas de forma a aumentarem a procura externa dos produtos alemães. Ficou provado que a passagem a um sistema nacional de padrão-ouro foi a melhor reforma para uma resposta à crise em termos de mecanismos de mercado e de recuperação económica. Nada disto teria acontecido se a Europa tivesse avançado para um sistema de moeda única dirigida por um banco central dito independente que executaria uma política monetária que traduzisse os interesses dos aforradores alemães.

Mas não foi esta a nossa história recente. O nosso sistema monetário europeu revelou-se de consequências mais nefastas do que um sistema baseado no padrão-ouro, essa "relíquia do passado" a que Keynes se referia há quase um século. Poderia ter sido diferente? Podia e deveria se os dirigentes europeus tivessem reconhecido que a política monetária deveria ter tido um papel sobre a procura global e não apenas no suporte de dívida soberana como acabou por ser feito (apenas) a partir da segunda metade de 2011. A 3 de julho de 2008 a taxa diretora do BCE foi aumentada de 25 pontos base devido aos receios de inflação no médio prazo! E mesmo o reforço das operações de financiamento a bancos foi acompanhado de operações de esterlização. Quando os dirigentes se limitam a reagir aos acontecimentos, e ainda por cima tardiamente, não podemos ir longe!

Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

Ver comentários
Ver mais
Publicidade

C-Studio é a marca que representa a área de Conteúdos Patrocinados do universo Medialivre.
Aqui as marcas podem contar as suas histórias e experiências.

Publicidade

C-Studio é a marca que representa a área de Conteúdos Patrocinados do universo Medialivre.
Aqui as marcas podem contar as suas histórias e experiências.

Publicidade

C-Studio é a marca que representa a área de Conteúdos Patrocinados do universo Medialivre.
Aqui as marcas podem contar as suas histórias e experiências.