André Macedo
André Macedo 21 de maio de 2017 às 19:15

As camisas de Varoufakis

À Grécia não foi, não é permitido respirar. Salvaram-se os bancos alemães e franceses à custa dos gregos, obrigados a endividar-se maia ainda por causa dessa decisão estapafúrdia?

Varoufakis dispensou o BMW e o chauffeur oficiais. Durante os 162 dias de governo, ele andou quase sempre numa mota de alta-cilindrada. Eu diria uma Moto Guzzi, não sei se era, uma banal Vespa não foi certamente. A marca era toda uma afirmação de carácter. Os fotógrafos, as televisões, nós todos adorámos o inconformismo; ou então adorámos detestar a rebeldia.

Yanis Varoufakis usava camisas justas - as célebres azuis que se destacaram tantas vezes nas capas dos jornais europeus onde ele aparecia foram compradas na Zara, em Paris, antes de se encontrar com Michel Sapin. Varoufakis não usava gravata, quem não se lembra?, e tinha um exótico casaco de cabedal até meio da perna. Por sinal não era dele, era do embaixador grego em Paris, que lho emprestou porque estava um frio de rachar em Londres, para onde o ministro das Finanças grego ia na manhã seguinte falar com Osborne e tinha perdido a mala num táxi de Atenas.

 
E a foto? Quem não se lembra da célebre foto na "Paris Match", os dedos pousados sobre as teclas do piano preto, lacado, obviamente de cauda, derramado sobre a estupenda vista, a Acrópole a espreitar da janela. E também a outra foto, talvez a possamos chamar: casal Varoufakis à mesa sorri para a salada. Da esquerda à direita, adorámos detestar (sim, outra vez) o artificialismo, a foto era o gnomo plantado no jardim, a prova que o tipo era um faz de conta. A lamentável troika, o preconceituoso Dijsselbloem, o gelado Schäuble tinham razão.

 

Tinham? O mais espantoso é conhecermos tantas banalidades sobre Varoufakis e tão pouco sobre o que ele de substantivo pôs sobre a mesa para livrar a Grécia dos calabouços da dívida onde ainda hoje definha. Há breves instantes em que a bolsa sobe, a economia dá um solavanco, arrebita, a hemorragia nos bancos helénicos perde alguma velocidade. Na verdade, são espasmos de um moribundo enterrado em dívida pública e privada, embrulhado numa espiral deflacionária que já teria provocado um levantamento, se em vez de Atenas, estivéssemos em Berlin, Londres ou Paris. Um décimo da dose teria bastado.

 

É verdade, ando a ler o mais recente livro de Yanis Varoufakis e recomendo-o vivamente. Ninguém pode ficar de consciência tranquila.  Um dia são os outros, depois somos nós - mas não apenas por isso. O ex-ministro das Finanças grego falhou, sim, até por culpa própria, mas o caso era impossível. Alguém se lembra ou sequer soube que Varoufakis propôs entregar o controlo total dos bancos privados a Bruxelas, em vez de os nacionalizar, como queria parte do Syriza, para tentar reduzir um pedaço da dívida pública e evitar o Grexit? E que a proposta de restruturação que imaginou possível é a que todos os dias é feita pelo mundo fora, em grande e pequena escala, pela mão de financeiros experimentados, não camaradas da extrema-esquerda movidos pela vingança ideológica?

 

À Grécia não foi, não é permitido respirar.  Salvaram-se os bancos alemães e franceses à custa dos gregos, obrigados a endividar-se maia ainda por causa dessa decisão estapafúrdia? E no entanto nós ficamos presos à foto da "Paris Match", à loiríssima e chiquíssima mulher do ministro. Como se permitiu ele estes devaneios sociais? Não devíamos antes pensar nas perfídia do BCE capaz de estrangular um governo acabado de eleger, puxando-lhe o tapete em apenas duas semanas? Para a semana, fecho o assunto, embora honestamente o assunto em não se fechou sobre nós.

 

Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico

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